
A Sangue Frio — quando o jornalismo e a literatura se encontram (e dá muito certo)
Juntar jornalismo e literatura não é tarefa fácil. Existe uma missão que parte do repórter/escritor onde o esforço se concentra em saber dosar a objetividade, a boa apuração e checagem consistente de um texto jornalístico com a subjetividade, lirismo e capacidade descritiva de um texto literário. Errar tal dosagem pode tornar o texto desagradável, seja pela sua leitura cansativa ou também pela ausência de fidedignidade dos fatos coletados. E quando o texto, além de jornalístico e literário, também carrega traços investigativos, a missão se torna um desafio que poucos são capazes de executar com destreza. Capote foi além disso e subverteu o jornalismo investigativo a um patamar totalmente novo, através do seu livro A Sangue Frio.
Ambientado na cidade de Holcomb, palco de um cruel ato criminoso que culminou na morte de quatro membros da família Clutter (patriarca, sua esposa e dois filhos), o livro possui um veio investigativo bastante forte, mas partindo de um percurso diferente da literatura policial comum, já que, por se tratar de um caso verídico, o leitor de antemão já conhece os autores do crime. Sendo assim, o livro não busca, ao longo da sua narrativa, quem matou Herb, Bonnie, Kenyon e Nancy. Todos já sabem que Perry Smith e Dick Hickock executaram os quatro, portanto o mistério e o suspense do livro estão concentrados principalmente nas razões que levaram Perry e Dick a cometerem tal crime. Com maestria, Capote vai dando pequenas pistas — algumas delas são contraditórias — e enche a mente do leitor de questionamentos sobre o assassinato cometido.
Além disso, no primeiro capítulo do livro, existe uma grande expectativa sobre o encontro entre a família Clutter e a dupla Perry e Dick. Isso se deve pela inteligente técnica usada por Capote, intercalando trechos como uma câmera que ora foca as ações em Kansas, inserindo aos poucos a história e características pessoais de a cada assassino, ou em Holcomb, para fazer o mesmo com os quatro membros da família assassinada. E essas histórias paralelas — primeiro entre os Clutter e os assassinos e depois entre eles e o detetive Al Dewey — são narradas como se fossem histórias paralelas. A narrativa, a forma como os personagens são apresentados muda ao passo que ocorre o intercalar das narrativas. Essa técnica permitiu contextualizar duas histórias que iniciam longe uma da outra até culminar no encontro de ambas de uma forma que a leitura fosse confortável e instigante.

Também é de se admirar a capacidade descritiva de Capote em A Sangue Frio, desde os parágrafos dedicados à dar detalhes sobre a paisagem até as descrições dos perfis de cada um dos personagens principais e secundários. No primeiro caso, possibilita-se a inserção do leitor no ambiente onde acontece a história e no segundo caso todos os personagens acabam sendo humanizados, sendo que esse fator é muito importante para que o livro se torne interessante ao longo da narrativa escrita por Capote. Pouco a pouco, sobretudo no primeiro capítulo, acabamos por conhecer a família Clutter, que seria a definição da “família perfeita” nos moldes ocidentais, adorada e conhecida por toda sua vizinhança: um patriarca dedicado a prover o sustento de sua família, uma esposa que, a despeito dos problemas psicológicos, é fiel ao seu marido e cuida da casa, na medida do possível e filhos exemplares, com boas notas, ativos na comunidade em que vivem e bastante populares entre os colegas. Além disso, ao longo do livro também é feita uma meticulosa descrição dos perfis de cada um dos assassinos, Perry e Dick. O livro mostra como os dois são diferentes entre eles. Perry é um homem sentimental, artístico, prolixo, capaz de alterar seu humor de forma repentina muito rapidamente e Dick é pragmático, habilidoso com carros, bastante carismático e malandro. Cada um deles teve suas razões para serem presos na cadeia onde se conheceram, e Capote também prova como ambos são complexos em suas ideias, histórias e narrativas, numa riqueza de detalhes que permite ao leitor até mesmo a humanizar e enxergar os autores do crimes sob uma outra ótica que não a de dois homens cruéis e brutais por conta da barbárie ocorrida. À parte da gravidade do assassinato, tanto Perry como Dick são humanos, possuem sentimentos, virtudes e defeitos, e Capote foi magistral ao trazer isso com tantos detalhes.
Por fim, também é de se destacar o trabalho jornalístico feito pelo autor, buscando e entrevistando várias fontes, apurando os fatos sob a ótica de diversos atores relevantes na investigação — incluindo os detetives e os acusados — e também realizando pesquisas e checagem. Acima de escritor, Capote é um jornalista e ele não falha no compromisso em realizar um jornalismo de qualidade. Por conta disso, A Sangue Frio é um livro que merece ser lido tanto por razões literárias quanto por razões jornalísticas. Trata-se de uma leitura obrigatória, sobretudo para todo jornalista ou estudante de jornalismo, e o sucesso de vendas do livro, bem como sua importância na cultura pop — existindo, inclusive, duas adaptações do livro para o cinema — são justificados ao longo dos parágrafos desta obra-prima de Truman Capote.
