Afeto

Johnny Taira
Sep 1, 2018 · 3 min read

O presente o qual pretendia dar a um certo alguém repousa sobre meu colo, sendo entregue pelos correios antes da possibilidade em manifestar qualquer desejo de arrependimento em ter comprado um agrado a ser dado ao aniversariante. Sorte minha que eu posso usufruir do presente facilmente, pois se trata de um livro o qual senti imediata vontade de ler no instante momento em que achei uma genial ideia presentear um amigo do peito. Quinze minutos após o cartão de crédito processar na operadora e o site do e-commerce mostrar a página de aprovação daquela transação, já entro no meu histórico de pedidos a procura do botão de devolução por arrependimento. Só poderia entrar em contato com a loja vinte e quatro horas depois. Vinte e quatro horas depois, mando o e-mail. Não obtenho resposta. No dia subsequente, o livro chega em casa. A entrega mais rápida que presenciei é justamente cuja compra me arrependi na mesma intensidade de velocidade.

Trinta minutos antes de clicar no botão de adicionar o livro no carrinho, achara que o afeto havia voltado para casa. Por um lapso de segundos, meu coração até quase se aqueceu, mandei aquela boa mensagem de feliz-aniversário, desejando todas aquelas coisas belas a serem desejadas em datas comemorativas, realmente quis dar um abraço na pessoa, num raro momento de demonstração de afeto, tão presente em um passado recente.

Ledo engano, o afeto continuava a não manifestar qualquer sinal de vida, numa eterna ida para comprar um maço de cigarros, sem previsão de volta. No instante em que o livro aparece na porta de casa, nas mãos da simpática carteira, que pede para assinar o protocolo de entrega e posteriormente parte para o restante da minha jornada — sem antes dizer um bom dia — me dou conta da ausência de qualquer sentimento sobre o livro, a capa dele e a temática, este último inspirado por situações das quais passei com o aniversariante e serviu de referência para encontrar um possível mimo que pudesse ser do agrado dele. Tudo — o livro, a capa, a situação, o aniversariante — se transforma num glorioso nada, um árido cenário por onde passa um tufo de feno e uma lufada de silêncio.

Perco qualquer vontade em presentear a pessoa que gosto, assim como vem acontecendo há algumas semanas. Não a não-vontade em presentear, o que digo é o desaparecimento de qualquer sentimento, necessidade ou manifestação em demonstrar ternura, abraçar, trocar carinhos, dizer boas palavras e citar o amor por alguém. O mundo tornara-se seco, como se uma estiagem acometesse em minha vida, causando em mim o desejo em somente ouvir o meu próprio silêncio e em fugir de rostos conhecidos, isolando-me cada vez mais dentro do próprio universo, sem ir atrás do diálogo, do “como vai? Saudades de você", sem demonstrar interesse em manter as fundações das amizades construídas ao cabo dos anos.

Todo esse turbilhão de pensamentos me vem à mente e o livro continua em meu colo, não manifestando interesse em sumir da minha frente por conta própria. Me flagro sentindo saudades da saudade. Das demonstrações gratuitas de afeto. Sei que tais sentimentos virão à tona quando o presente fizer sentido em ser dado novamente, retomando o significado inicial de ser uma prova do valor que dou à relação de cumplicidade conquistada com o aniversariante. Mas, enquanto nada disso me vem, o livro continua a ser apenas um livro. O guardo na estante, cogito lê-lo algum dia, porém antes disso vai pegar um pouco de pó.

Deixo o presente encostado, assim como o afeto.

Johnny Taira

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Estudante de Jornalismo. Analista de Sistemas. De vez em quando escreve no Medium. Contato: taira.jyundi@gmail.com

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