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[ESTA É UMA CRÔNICA TERCEIRIZADA]

Eu sei que você esperava um texto meu na coluna “Crônicas" da edição dominical d’O Diário da Cidade. Afinal de contas, fazem exatos cinco anos que nos encontramos, seja depois da sua missa, ou antes de começar o Esporte Espetacular ou sei lá em qual horário você vai abrir o jornal e ler isto aqui, que estará na página sete. E eu peço as mais profundas desculpas por quebrar a sua expectativa em pleno domingão, dia de passar o dia com a família, curtir a ressaca, dormir o dia inteiro e aproveitar o dia da preguiça tão característico do domingo. Mas eu acredito muito na transparência dentro da nossa relação construída ao longo dos meus textos e a vossa interação e em nome da honestidade que eu vou jogar a real.

Cansei.

E por isso não escrevi uma crônica para hoje e provavelmente não vá escrever daqui para frente. A vida tem sido corrida, sabe? Essa rotina louca de repórter enviado na Alemanha, palestrante e outros projetos pessoais não é nada fácil. Chega uma hora em nossas vidas em que falta inspiração para escrever. O cotidiano, grande parceiro nosso ao coletar incríveis histórias e inspirações, se torna uma escala de tons cinzas. As múltiplas vozes do nosso dia-a-dia e noite-a-noite se transformam em um uníssono de monotonia.

Bom dia. Aperta o sinal para mim? Boa tarde. Não precisa da minha via. Está tudo bem, amor. Boa noite.

E entre respostas monossilábicas que entrecortam a música para concentração vinda do fone de ouvido, pensamentos obscuros sobre a ansiedade, os prazos chegando, o medo de perder tudo. A vontade de abrir o bloco de notas se esvai, lentamente. Posso dizer que praticamente toda crônica escrita no último ano somente foi possível graças ao início de um processo vicioso que quase resultou no alcoolismo. Meu esqueleto já não aguenta isso.

Mas eu também preciso do status quo e é essa a razão pela qual não vou largar o espaço neste periódico que tanto batalhei na minha vida.

“Ora bolas, como então você vai com tão contraditórios objetivos, caro cronista?”

Fácil: contratei um metido a besta, calouro da faculdade. O rapaz é inexperiente e não consegue oportunidade por conta disso. Comprei a prosa dele por algumas ilusões de incremento do portfólio, de experiência como escritor. Fácil, não? E você, leitor, nem vai se dar conta disso. Porque você sabe que sou defensor de pautas à esquerda e nunca que iria a favor da terceirização. Você vai achar que o texto é uma incrível crônica que tece críticas sobre o governo atual e suas pautas neoliberais no âmbito econômico. Ou você vai desconfiar, mas não terá como provar se digo a verdade ou se tudo não passa de mero blefe meu. Todos terminam felizes, eu mantenho minha fama de grande cronista, você se entretém com os textos supostamente meus, escrito por outras mãos e o calouro se diverte na sua primeira empreitada como escritor. Ele é bom, acredite em mim.

E o melhor de tudo: consigo os toques necessários para preencher o espaço destinado a mim.

Até nunca mais.