Eu estava meio nervoso, um tanto quanto incomodado e, consequentemente, deveras sardônico, enquanto diversos pensamentos me inquietavam.

Esta “folha branca” abrigou três rascunhos que conservavam um tom bastante sarcástico, sendo que a imaginária caneta quase foi corroída por conta de tamanha acidez, ao passo que a noite de domingo, no seu ritmo mais rápido que o desejado, prosseguia em seu fim, o que demarcava a necessidade de dormir e acordar em uma segunda feira onde as incumbências da vida adulta bateriam à minha porta, incorporada no incrivelmente irritante som do despertador do celular.

Odiava o rapaz de classe média, ex colega de trabalho, que era a definição do burguês padrão. Odiava o deboísmo, porque deboísmo é o caralho. Odiava os quadrinhos do Armandinho. Odiava a esquerda que torna o pobre invisível. Odiava a não-resposta de certos alguéns. Odiava hai-kais. Odiava os autores do Medium que ganham reconhecimento com seus poemas ruins. Odiava meus próprios poemas ruins, ao ponto de querer apagá-los. Remoía o passado não tão distante. O rancor mostrava sua força.

Até que uma simples conversa no chat do Facebook resolve tudo.

Ela: “Acredita que eu deixei a minha calça na casa do meu ex? Como eu sou trouxa”
Eu: “Era uma calça de adolescente?”
Ela: “Senti falta dela, porque uso quase sempre”
Ela: “Não, ela não custou mais que 300 reais”,
ao mesmo tempo que Eu: “Porque uma calça de uma adolescente não custa menos que 300 reais”

E toda a raiva se foi, pois amigos de verdade se entendem de forma quase que telepática. E quando tal sintonia ocorre através de memes, isso quer dizer que temos ótimos amigos.

Ter ótimos amigos, nesse mundo insano em que nem tudo está tão longe de black mirror, é motivo para se acalmar e esboçar um satisfeito sorriso pelo fato de existir pessoas fantásticas na Terra, capazes de entenderem suas piadas favoritas da internet. Continuo odiando muita parte daquilo que citei acima, e tem muita coisa que ainda odeio, mas pelo menos por enquanto não preciso mais ficar pensando nisso.

Assim, da guerra vou até a paz.