
Músicas da minha vida #2 — Bizarre Love Triangle
Minha mãe sempre diz que tanto eu como a minha irmã puxaram meu falecido pai, no que se diz à paixão pela música. E eu digo que ela está muito certa, dado que ela mesma não liga muito para isso, enquanto ele, segundo ela, estava sempre à procura de novidades musicais, seja nas lojas de CD da cidade de Yokohama, ou na livraria Saraiva do Shopping Center Norte, ou posteriormente nos aplicativos de download p2p — Kazaa, eMule, Limewire, lembra? — ou até mesmo no dia-a-dia, com os ouvidos sempre atentos à rádio, enquanto trabalhava para manter seu comércio.
A paixão dele pela música também era bem visível nas casas onde moramos e também nos carros que ele teve. Lembro como se fosse ontem do aparelho de som Kenwood, com espaço para três CDs e duas caixas acústicas bastante poderosas. Ao lado do aparelho, uma pilha de CDs, de diversos artistas, desde Soweto até Stray Cats, passando pela Shakira, coletâneas de diversas novelas dos anos 90 e Mamonas Assassinas, este último escutado por mim até a exaustão. Já dentro dos carros, era sempre acompanhado também de boas caixas acústicas, às vezes até mesmo de um subwoofer, que garante os graves dentro do carro que ele deixou no plano terrestre e hoje é usado pela gente — eu, mãe, irmã.
Tá, Johnny, bacana, legal, show de bola, mas o que isso tem a ver com Bizarre Love Triangle?
Pois então, caro leitor. Essa música é uma daquelas muitas que eu acabei escutando justamente por causa do meu pai, o aficionado pelo bom som. Foi em algum momento entre meus oito e onze anos que acabei a escutando pela primeira vez, e acabei carregando-a comigo ao longo desses anos. Diria que uma parte razoável do meu gosto musical atual é muito influenciado pelas músicas que ele escutou durante minha infância, e sou muito grato por isso.
Admito que eu não sei a letra toda dessa música, no máximo sei cantar alguns trechos soltos. E nem vou pesquisar para escrever este texto porque eu quero terminá-lo somente com aquela sensação de nostalgia que a música traz, independente do seu significado de fato. No final das contas, o essencial para mim é o fato dela ser uma das músicas da minha vida, caminhando comigo ao longo de mais de uma década. E a cada vez que eu a escuto é uma volta no tempo, em que eu estou de frente ao aparelho de som Kenwood, ou estou dentro do carro, ouvindo New Order, Depeche Mode, Tears For Fears, Pet Shop Boys, The Cure, dentre outras diversas bandas da década de 80. E esse sentimento de saudade que reside na canção, dependendo do dia, é um soco no estômago, não vou negar, mas são socos que me mantém vivo.
E, enquanto eu começava este post, olhando para a janela do metrô, refletia sobre o fato de New Order ser mais que uma banda, mas um recomeço. E Bizarre Love Triangle, dentre muitas outras músicas deles, provam que foi possível existir vida após a morte de Ian Curtis e, consequentemente, a morte de Joy Division. E nesses quase dois anos que meu pai se foi, sei mais do que nunca que é preciso recomeçar, pois o planeta não para de girar.
E é nesse mood de recomeços que tenho vivido recente mente que digo: Bizarre Love Triangle é uma música da minha vida.
“As músicas da minha vida” será uma tentativa minha de fazer uma série de textos sobre canções que foram bastante importantes para a minha formação como pessoa. Considerando que eu sou apaixonado por música, não poderia deixar de escrever sobre isso, uma hora ou outra. Espero que goste :)
