O banquete dos mendigos

Ainda que eu olhe para o braço esquerdo, guardando em mim uma fé de que tudo passará e o efêmero se dará
Experimento também o sabor da incerteza, sem saber para onde exatamente este banquete me levará 
Sou sujeito de vários mundos (agente ou paciente? Depende), o tempo é escasso, mas a fome me fez chegar até aqui
Enquanto sinto o amargo gosto vindo deste prato meio frio de vingança, de um cigarro que não fumei, me pergunto:
Como explicar a estranha sensação do tempo voar e congelar por aqui? 
Que jantar bizarro é este, onde os olhos olham julgando gentes como se fossem juízes?
Quem és tu? Perguntam
E, enquanto respondo, sou interrompido.

Comunicação somente de emissores. Ótimo.

Sou o - interrupção
Tenho - interrupção
Gosto de - interrupção
Faço - interrupção
Meu sonho é - interrupção

Ah, quer saber?

Quem se preocupa com quem eu sou quando todas as mentes estão tão ocupadas em criar seus próprios versos meticulosamente rimados, contando incríveis histórias de vidas bem vividas à base de Polenghinho e morango com leite condensado?

Quem sabe quem sou quando nem eu sei quem sou muito menos quem serei, e quando me olho no espelho quebrado do banheiro enxergo irreconhecíveis fragmentos do meu rosto já transformado - e transtornado - pelas ações do tempo?

Quem liga para vinte e três anos de uma vida comum de alguém que mal sabe para qual direção seguir, pois se atirou mar adentro com um bote, sem bússola nem astrolábio?

Quem lerá algo de alguém que simplesmente não é?

Não sou poeta. Não sou músico. Não li Nietzsche, mas niilizo-me. Não viajei. Não trago planos de vida inspiradores. Se inspiro, é para expirar, e assim respirar. Não sou quem vocês acham que sou.

Não sou.