Obrigado, Bel Pesce

Querida Bel

Mesmo que torça o nariz em relação a você, eu preciso lhe agradecer.

Muito obrigado por me fazer passar a enxergar com ceticismo essa entidade tão sagrada da sociedade contemporânea chamada Empreendedorismo. Sim, é lindo estufar o peito e falar que possui o tão famigerado Espírito Empreendedor, que é uma pessoa workaholic, pensa fora da caixa, não sabe lidar com os chefes e busca sempre inovar no seu dia-a-dia cronometrado nos pomodoros — afinal de contas, para você, alguém com Espírito Empreendedor, o tempo não deve ser desperdiçado pois são inúmeros projetos à vista. E o agradecimento, Bel, é justamente pelo fato de você me ter feito perder o medo de achar que esse modelo de vida não é o único a ser seguido. Eu posso não gostar de empreender, assim como posso escolher entre seguir carreira acadêmica e o mercado de trabalho.

E esse ceticismo, se já era algo presente em algum lugar no fundo da minha mente, veio à tona com uma força enorme a partir de, pasmem, uma apresentação sua lá no TEDx. Ali eu percebi que o empreendedorismo de palco irrita, que o discurso do novo sonho americano chamado empreendedorismo é algo que pode ser irritante. Faça, seja, produza, coloque a cara a tapa, são frases prontas tão rasas e genéricas quanto achar que todos os problemas do Brasil serão resolvidas com o fim da corrupção. E sei lá, no meio de todo aquele auê na plateia por conta de 50 minutos de frases prontas e lugares comuns, percebi que algo poderia estar errado. Muito blá se fala, a língua é uma piranha, como já diria o mestre.

Sendo assim, eu tomei coragem de não considerar o empreendedorismo como “A Oitava Maravilha da Geração Y”. E isso me fez muito melhor, dado que sentia-me muito desconfortável com o fato de não possuir o tal espírito empreendedor, de não ter dentro do meu sangue aquela vontade absurda de ter o meu próprio negócio, com as minhas próprias regras, estar num círculo social com pessoas inovadoras, vale do Silício e essa coisa toda. Admito: o fato de não ter esse perfil me fazia perder o sono, certas vezes. Me sentia um lixo de pessoa por não ser alguém que almejasse isso na minha vida, “nossa Johnny que vidinha pacata essa a sua de CLT aff, você passa o dia no Facebook, pensando em escrever texto ruim e fazer memes no Photoshop, vai montar um plano de negócio, pensar em design thinking”, até que aos poucos fui entendendo que é apenas uma questão de escolhas. Admiro muito os conhecidos que são empreendedores, afinal de contas eles possuem skills os quais eu não possuo, eles são muito melhores em coisas que não tenho habilidade. Mas não preciso ser igual a eles.

Assim, eu aproveito o ensejo para afirmar às pessoas (neste momento, eu mudo o direcionamento do discurso para o leitor deste texto): você não precisa ter espírito empreendedor, você não é pior por ter um emprego comum, das 8 às 17, pegar transporte público lotado, torcer para que o VR dure até o fim do mês, ou, no caso de você não ter esse benefício, de trazer marmita. Caso você queira chegar em casa e apenas assistir seriado até o horário de dormir, eu não vou julgar. Estudar é importante, óbvio que é e eu recomendaria você a fazer isso. Mas também não se sinta na incumbência de fazê-lo, caso ache que não precise. Eu só quero que você seja feliz e seja uma pessoa cada vez melhor, porque é disso que o universo precisa de fato, não de pessoas desmotivadas porque alguém se acha o dono da verdade para afirmar que eu, no auge dos meus vinte e poucos anos, estou sendo patético por não ser meu próprio dono, ou viajar pelo mundo e desapegar do materialismo para buscar uma purificação espiritual.

E, por final, gostaria também de afirmar que eu não tenho nada contra empreender. Como disse anteriormente, admiro os que seguem esse rumo, pois o caminho é bem tortuoso e nem tudo são flores, quando se escolhe fazê-lo de uma forma honesta, sem explorar o próximo. Contudo, só espero que essa onda de doutrinação dessa cultura se acabe, pois tá ficando forçado.

De todo modo, obrigado, Bel Pesce, por me ter feito desabafar aqui no Medium.