“Primeiro cai a Dilma depois caem todos kkkkkkkk”

Para alguns de nós, o Impeachment não fará diferença

Este texto é direcionado para todo aquele que é privilegiado — possui um emprego estável, corre pouco risco de ser demitido ou tem grandes chances de ser realocado, tem uma boa formação, uma estrutura familiar tranquila, consegue pagar as contas, garantir a alimentação, saúde e educação dentro de sua casa (ou tem alguém que possa garantir).

Eu faço parte desse seleto grupo. Por mais que não seja fácil, já que as contas são altas, o trabalho é corrido e o dinheiro, muitas vezes, é contado, eu preciso admitir que sou um privilegiado, e é por isso que o título é direcionado a nós, privilegiados de uma certa forma. Aqui vale repetir — não é porque somos privilegiados que a vida seja necessariamente fácil, não é isso que quero dizer. Mas, dado todo um contexto socioeconômico, estamos numa situação muito mais confortável que boa parte da população para contornarmos uma crise econômica que assola o país.

E o objetivo deste texto é jogar na sua cara que o Brasil pós impeachment não muda sua vida. Talvez mude até para melhor, em alguns pontos. Provavelmente haverá uma valorização do Real em relação ao Dólar, o que permitirá que os seus planos para a viagem no exterior não precisem ser postergados. Seu emprego continua ali, estável ou até mesmo com uma promoção a vista, dado que em 2016 você foi produtivo, assistiu todos os vídeos do Gabriel Goffi para ser um High Stakes e ir para a action, iniciou uma pós graduação para complementar seus estudos e seu gestor tem elogiado seu trabalho. O teu LinkedIn é uma coisa bonita de se ver, mesmo que num mundo apocalíptico você seja demitido, sua situação é contornável, dado que você possui uma boa formação. Assim, as mudanças no CLT, no máximo, causarão uma coceira em seu bolso. Talvez você até deve estar aguardando ansiosamente por essas novas regras, pois você quer vociferar para todos escutarem que “A mamata acabou, seus vagabundos".

Falando em mamata, você também aguarda a extinção de diversos programas sociais que impedem o crescimento econômico do país. “O momento é de crise, é preciso adotar políticas de austeridade para que a economia se recupere.” Você quer mais é que todas essas regalias implantadas por essa corja petralha acabem. Seu desejo é que tudo realmente privatize mesmo, pois é isso que os Constantinos, Carvalhos e Azevedos defendem. E caso tudo isso aconteça, num cenário mais otimista (otimista para você), nada disso afetará sua vida. Você pode pagar um plano de saúde particular — nossa mas o SUS é gratuito mas o serviço é uma porcaria, nunca sequer pisei num posto de saúde mas todo mundo fala que o atendimento é péssimo — e também pode pagar uma escola particular para seus filhos, caso os tenha, ou seus pais podem custear seus estudos na Mackenzie. Mesmo que haja cortes em diversos serviços públicos ou políticas assistencialistas, você nunca usou isso mesmo, fora que tudo isso abala a Tão Famigerada Meritocracia que você defende com unhas e dentes. Você estudou para isso, se dedicou, se esforçou por conta própria e venceu na vida sem precisar de ninguém, tem que ensinar esse povo a pescar, não dar peixes, é isso que você pensa.

Se logo de cara atual “presidente” extinguiu ou reduziu a uma escala atômica ministérios de apoio a minorias sociais, você nem ligou para isso, porque “o momento é de crise e tais pautas são totalmente coadjuvantes quando a economia não gira”.

E você também não vai sentir diferença caso as investigações do Lava Jato e diversos casos de corrupção que assolam o nosso congresso sejam arquivados. Por mais que você tenha afirmado, enchido o peito para gritar em alto e bom som que não aguenta mais a corrupção e a roubalheira de todos ali, a verdade é que você odiava o PT mesmo. Nos próximos meses você pode até manter o discurso de que “prendemos uma, agora prenderemos todos”, como se a justiça brasileira fosse uma brincadeira junina de polícia e ladrão, mas logo você se esquecerá da corrupção no congresso que se manterá. A mídia fará questão para que você esqueça.

E, assim, a sua vida continuará a mesma. Nada (ou pouco) mudará em relação a sua vida, seu cotidiano. Mas e para quem está na linha de frente, pronta para levar diversas porradas da vida? Acho que você não está nem aí para isso, honestamente. Você quer mais mesmo é frequentar arenas modernas com público diferenciado, poder ir para a Disneylândia no final do ano, trocar de carro. Você quer isso, assim como seu gestor, o presidente da empresa, assim vai.

E caso você seja alguém privilegiado e, assim como eu, se preocupa com a situação do país daqui em diante (principalmente com quem está na linha de frente, não podendo amarelar — desculpa, vou citar muito Criolo nos meus textos):

Você não faz mais que a sua obrigação como cidadão consciente.