Passos no corredor

Existe um conjunto de gestos que, quando aplicados em um determinado contexto, denotam tão claramente a intenção de uma ação ou linha de pensamento surgida em nossas mentes que podemos estar em provavelmente qualquer parte do globo terrestre que tais gestos serão entendidos, mesmo quando o emissor e o receptor não falam o mesmo idioma.

É aquele ajeitar no cabelo com um sorriso de canto, seguido de um olhar para baixo que define o convite para uma conversa intencionada. Ou as duas mãos no bolso quando se está numa apresentação, diante do público, o que demonstram uma clara insegurança por conta da plateia na sua frente. Ou o olhar para o pulso sem relógio, antes de se dar conta da inexistência de algo para marcar as horas e, assim, pegar o celular no bolso, de ansiedade em querer que o tempo passe.

São pequenos atos nossos que desnudam um pedaço daquilo que há em nossas mentes, mesmo que, no fim das contas, cada gesto tenha sua história por trás. O indivíduo sente o medo, ansiedade e tesão à sua maneira.

Assim como os gestos universais, também há as reações em cadeia. Já experimentou, enquanto aguarda a chegada do metrô, dar uma pescoçada na direção em que os vagões vem? Se há uma aglomeração de pessoas em frente aos trilhos e em cima da plataforma, todos das primeiras fileiras darão a mesma pescoçada. Ou já percebeu como as pessoas se entopem em filas, mesmo quando não se sabe o que ou quem, de fato, propiciou o escarcéu?

Dentro da sala de aula, uma das reações em cadeia mais divertidas é quando todos os alunos se remexem em suas cadeiras ao escutarem os passos dos colegas da outra sala pousando sobre o frio chão da escola, faculdade ou o que quer que seja.

Uma vez que isso acontece, a aula acaba.

Amanda já manda mensagens para a Jéssica e Fernanda, pedindo para elas a esperarem. Marcos, que precisa pegar o EMTU, já conta os exatos minutos necessários para chegar a tempo na estação Armênia. Ele tem oito minutos de manobra, segundo suas contas de padeiro, e já se derrete de ansiedade só de pensar em ver o último Cocaia indo embora. Rodrigo só consegue pensar no que pode ter na geladeira e torce para que haja alguma sobra de comida, pois a última vez que viu uma refeição era lá pelas dezesseis horas e o seu celular aponta vinte e duas e trinta. Leila só quer saber de escapar daquela sala de aula o mais rápido possível, pois não aguenta mais ficar sentada ouvindo a voz da professora. Quer voltar sozinha, pois é o único momento do dia em que pode colocar os fones de ouvido e escutar uma música para refletir sobre a vida. Augusto pensa no cigarro que fumará na caminhada até o ponto de ônibus, chega até a imaginar o gosto do tabaco e nicotina em sua boca e a fumaça entrar sem pedir licença em seus pulmões, num terapêutico ato que significa para ele o fim vitorioso de um dia repleto de estresse. Juliana já olha para Fernando, a carona até sua casa.

São todos personagens únicos, de histórias únicas, cada um com suas peculiaridades, mas todos igualíssimos ao guardar os estojos e cadernos em suas mochilas e bolsas, numa orquestra singular de zíperes se fechando e cadeiras se mexendo sutilmente. E cada barulho de zíper fechando suscita um sentimento de tamanha ansiedade pela volta para casa que os últimos minutos da aula são um desafio de resistência, tanto para o cansado professor quanto para o apressado aluno.

E, a despeito do cansaço e como um sádico desejando ver seus alunos se contorcerem mentalmente de ansiedade, o professor somente continua o fluxo natural de sua aula, enquanto observa cada aluno já totalmente distante do presente. Deve ser muito boa essa sensação de poder controlar o tempo.

Até que a hora da chamada vem, o suspiro de alívio de cada aluno ao escutar o respectivo nome é audível e, ao final daquela aula, todos já saem em busca de seus próprios objetivos, traçados a partir do instante momento em que os primeiros passos vindos do corredor foram escutados. Os Marcos, Amandas, Rodrigos, Leilas, Augustos e Julianas prosseguem suas caminhadas em frente (ou eventualmente em círculos), de suas respectivas vidas.

E no dia seguinte todo o ciclo se repetirá, pois aluno é tudo igual.