Precisamos falar do post do Rafinha Bastos sobre o João Dória

Em resumo: trata-se de um post no Facebook cuja linha argumentativa é construída com base num suposto ódio pelo fato do futuro prefeito da cidade de São Paulo, conhecido também como João Dória, ser um homem rico — minto, milionário — e que muitas pedras têm sido tacadas em direção a ele por esse fato. O texto finaliza com uma mensagem de “imparcialidade”, convocando a todos a serem otimistas em relação ao novo gestor da cidade.

Este texto, assim sendo, será construído com base no post dele e funcionará como uma resposta àquilo que o humorista Rafinha Bastos escreveu recentemente e alguns amigos meus concordaram.


É essencial ir direto ao ponto: não é ódio e as críticas não são pelo fato dele ser um homem milionário. Essa abominação pelo acúmulo de riquezas por parte da população não existe, senhor Rafael.

O que existe é uma preocupação súbita por conta de Dória nunca ter sido um gestor público e não ter absolutamente nenhum know-how sobre. Durante a vida toda, Dória foi um empresário, cujo patrimônio foi construído com base na herança de sua família. Herança, por sinal, construída pelos seus parentes a partir de décadas e décadas de exploração e de casos de corrupção. João Trabalhador, assim sendo, é uma enorme mentira construída em sua campanha eleitoral. Ainda nesse aspecto, o que eu abomino é a venda dessa imagem típica de “homem que subiu na vida por conta própria”, porque pode ter existido tudo nesse processo de enriquecimento, mas não houve meritocracia. Mas nem fodendo que houve.

Considerando toda a carreira construída no mundo corporativo, consequentemente o João Dória terá visões típicas de… um empresário. Ou seja: é óbvio que ele defenderá a privatização de todas as obras públicas possíveis, tornando o Estado mínimo. Não entrando muito no mérito da discussão sobre a privatização em si, a preocupação que existe é em relação às consequências desse processo na população como um todo. Pois, se a concessão do Estádio do Pacaembu e do Parque Ibirapuera às iniciativas privadas pode sim trazer melhorias em sua estrutura — afinal de contas, muito dinheiro será investido para tal — é de se alarmar o fato dessa privatização tornar o acesso a tais obras mais restrito às camadas mais pobres da cidade, a começar pelos vendedores de rua, que provavelmente não poderiam mais comercializar seus produtos dentro desses locais, já que o direito à venda de produtos estaria destinada às empresas responsáveis pela curadoria dos espaços. Não se trata de pessimismo, é um procedimento muito comum e é óbvio que as chances disso acontecer são grandes. Seria ingenuidade demais acreditar que a privatização aconteceria de forma gratuita — isto é, que as empresas fariam sem ter nada em troca.

Outro ponto de crítica em relação à eleitoreira promessa de aumento da velocidade nas Marginais. Trata-se de um projeto feito sem absolutamente nenhum planejamento em cima do trânsito da cidade, ao contrário do que aconteceu com a redução da velocidade em diversas avenidas, feita pelo Fernando Haddad. E os números estão aí para comprovar que sim, Haddad acertou (e muito) nesse ponto, pois houve também uma redução imediata nos níveis de trânsito e também de acidentes na cidade. Isso, unido com outros projetos visando a priorização do transporte público em detrimento ao particular, somente demonstra que o plano de gestão dele visava o “nós”, em detrimento ao “eu”. E aumentar a velocidade somente demonstra que, além de totalmente alheio à segurança no trânsito, Dória apenas quer atender a uma parcela da população cujo maior problema é a tal da “indústria da multa”.

A forma como ele lida com a inclusão social de viciados em crack também incomoda bastante. Partindo de uma visão pautada no combate às drogas através da repressão policial, Dória afirma querer abolir o programa De Braços Abertos, e em sua campanha foi desonesto ao ponto de manipular as estatísticas acerca dos níveis de aprovação de um programa que foi até elogiado mundo afora pelo seu caráter de fato inclusivo, que possibilita os dependentes à sua reinserção ao mundo.

Ah, e também tem outra: Dória acabou de descumprir uma meta do seu governo sem ao menos ter começado o mandato: o IPTU sofrerá aumento em 2017, ao contrário do que afirmou em sua campanha eleitoral.

Tendo em vista todos esses aspectos levantados, fica claro o ceticismo em relação a forma como Dória governará a cidade, que caminhava, a passos lentos porém firmes, para ser uma metrópole mais humana e desigual. Não é sobre o fato dele ser muito rico, ou sobre a forma como ele se veste, e sim pelo fato dele ser totalmente alheio às reais necessidades da cidade de São Paulo. E, convenhamos, fica muito claro que João Dória, um legítimo playboy, vive numa bolha de ostentação e seus discursos mostram como ele é uma pessoa totalmente alienada, sendo assim praticamente incapaz de se tornar um bom gestor para a cidade. Não é preconceito, Rafinha, pois o mandato dele nem começou e é transparente que ele na verdade está pouco se fodendo para a periferia. Essa ideia se “preconceito invertido” é uma babaquice tremenda.

Por final, é bom deixar evidente:

Um bom gestor público pensa na população toda.

E o João Dória parece nem ter ideia do que acontece do lado de cá. Nem ele, muito menos a Bia Dória.

Ah, e tomara, tomara mesmo que eu esteja errado daqui quatro anos.