Um rápido conto sobre a necessidade de alimentar o ego

Eu observava tudo sentado.

Os bares estão cheios de almas tão vazias, já diria um certo alguém. Diversas conversas paralelas sobre diversos assuntos rasos dão o preenchimento acústico às ruas da Vila Madalena, ao lado de sons de buzina e do sertanejo ao vivo vindo dos bares da Rua Aspicuelta. Todos esses sons atuam em uníssono, ao passo que competem uns com os outros para ver quem consegue estar em evidência no meio de tantos decibéis.

“Nossa meu, você não sabe o último rolê TOP que teve ontem”, afirma o bombadinho de camisa pólo para seus colegas com a mesma indumentária, como se fosse a Carreta Furacão dos playboys paulistanos, enquanto observa outro grupo com o mesmo número de pessoas, só que todas garotas, com seus vestidos curtos e risadas escandalosas. Elas também conversam sobre a última balada, as aventuras, os acontecimentos, intercalando com planejamentos para a próxima trip em Maresias.

Apenas mais uma noite paulistana de sexta-feira, naturalmente agitada, após uma semana árdua (para alguns abastados, nem tanto) de trabalho, confinamento em escritórios, conversas-padrão de almoço e cagadas remuneradas.

Eu observava tudo no meu canto, no auge da minha arrogância evidenciada pelos óculos aviador de grau, cigarro Camel na boca e um lânguido olhar de desprezo direcionado aos rapazes e moças que ali conversavam. Não sou melhor que ninguém, na verdade eu sou ridículo, porque mal consigo dialogar em uma roda de amigos. Simplesmente travo, ou me distraio com meu celular. A nível de convivência social, eu sou ridículo.

Esperava meu amigo, bom e velho companheiro de conversas de bar. Foda é que seria difícil conversar ali, mas naquele dia eu estava bastante disposto a observar o comportamento dos outros de forma a conseguir obter algo relevante aos meus olhos, nem que fosse um relato escrito em dois ou três parágrafos. Entre uma tragada e outra, observava as horas pelo celular, de forma metódica. Uma amiga minha observou muito bem essa minha mania a qual eu nunca havia percebido. Falando nisso, como ela é observadora. Sempre achei que fosse bom em perceber o que está à minha volta, no entanto ela me supera (e como supera) nesse ponto.

“Percebeu aquela estrutura suspensa? Estranha, né?”

“Onde?”

“Olhe para cima. Não, mais pra lá.”

“Porra, nove meses passando por aqui nunca havia percebido esse troço.”

“É o que todos dizem, mas eu sou muito observadora.”

“Bela observação...”

Talvez se ela estivesse aqui, teria percebido diversos detalhes de comportamento e gestos que eu deixei passar batido, mas que não comprometeriam na minha análise até então. Ou comprometeriam, não sei dizer.

Devaneava em meus pensamentos, até que ele chega, passos pesados, ombros jogados no restante do corpo.

“Puxa uma cadeira, senta aí”, disse, como sempre digo.

“Porra, mas aqui tá muito cheio, meu velho.”

“Pode crer, né. Vamos mais pra baixo, então.”

“Maravilha. Tem fogo?”

“Claro!” — joguei meu isqueiro para ele acender o cigarro dele.

Descemos até um bar próximo dali, muito mais vazio. Somente havia três gatos pingados naquele típico boteco de esquina que serve uma Itaipava trincando e algumas porções suspeitas. Era o bar ideal. Assim que chegou, meu amigo estirou seu corpo esguio na cadeira de madeira localizada na parte de fora do bar. Deu umas três tragadas, em silêncio, como se estivesse recuperando suas energias. Começamos a conversar sobre assuntos diversos, incluindo seriados, questões amorosas, assuntos da faculdade, futebol. É bom conversar com ele, temos visões parecidas de mundo — creio que tanto ele como eu temos a nossa própria arrogância para com os outros. De uma certa forma, nos achamos superiores que a maioria (mesmo não sendo), somos diferenciados e requintados. Por isso sempre se dá a impressão de que estamos cansados desse universo em que vivemos.

Até que toquei num assunto no qual não havia tocado até então. Na verdade, era uma retomada de uma conversa que tivemos dentro de um carro, descendo a serra com dois amigos nossos em comum, um homem e uma mulher. O tópico: uma certa conhecida nossa, que terminou um casamento de dois anos e se tornou um assunto em voga durante um período.

O assunto naquele momento, dentro do carro, não era a separação em si, mas uma relação bastante inortodoxa que ela possuía com um amigo dela. Esse cara em questão — coitado dele — é apaixonadíssimo por ela, mas ela nunca deu bola. Pulou a cerca com diversos homens dentro do casamento — não cabe a mim julgar isso — mas, de uma certa forma, sempre enrolava esse rapaz supracitado, de forma a obter tudo o que necessitava. Ele era o oxigênio que inflava a bexiga de ego da moça em questão. O diálogo dentro do carro girou em torno dessas atitudes da garota. Houve quem defendesse o sofrido rapaz veementemente, enquanto outros — no caso eu — procuraram apresentar os dois lados da moeda, já que o próprio rapaz poderia carregar uma parcela de culpa nesse rolo todo.

Dada essa introdução, retomo à conversa no bar, na rua Aspicuelta.

“Cara, lembra do papo que tivemos sobre a Tina, dentro do carro? Eu, você, o André e a Fê falando desse assunto e tal…”

“Porra, claro que lembro, cê defendendo aquela louca lá, como poderia me esquecer, velho!”

Demos risadas por alguns bons segundos

“Ah, mas eu tenho minhas razões para tal, cara. Por isso tô retomando esse assunto.” — ele me olha atento, esperando o restante da minha fala. — “Vou ter que confessar, mas a Tina e eu temos flertado desde que ela estava ainda casada.”

“Tu jura??? Nossa, cara, nunca tinha percebido isso” — era evidente o tom sarcástico na voz. — “ Estou me lembrando de como a conversa fluiu naquele dia, tudo agora soa tão engraçado. Tô brincando, continue.” — disse o meu amigo, entre uma gargalhada e outra

“Então, aí andei pensando se a minha opinião sobre ela agir daquele jeito com o amigo dela não estaria enviesado. É incrível como o fator pessoal afeta o nosso julgamento, não?”

“Sim, com certeza, mas se você tem argumentos racionais para defender sua opinião, eu vou respeitar, mesmo discordando, eventualmente. Na verdade, preciso até concordar contigo em um aspecto. Naquele dia você mostrou bastante racionalidade na sua linha de raciocínio e dei uma refletida quando voltei para casa. Sim, é uma bosta ficar refletindo sobre coisas fúteis que aconteceram com outros, mas c’est la vie. Então, voltando, se formos analisar muito, mas muito friamente, os dois possuem a mesma parcela de culpa na história. Ela continua sendo uma aproveitadora com baixa autoestima, isso é inegável e você mesmo admitiu isso. Mas não dá para tirar o quão trouxa ele foi (e continua sendo) ao aceitar tudo isso e ainda por cima manter esperança de que algo aconteceria. Isso é idiotice demais da parte dele, mas que dá uma dó do moleque, ah, isso dá.

“Finalmente entramos em concordância. Era exatamente isso que eu quis dizer naquele dia. Mas, também andei refletindo e percebi a falta de sinceridade dela para com todos os envolvidos. Sei lá, se um casal se prontifica a ter um relacionamento aberto, beleza, mas quando tudo é feito às escuras, aí complica, não? E, além de tudo, se aproveitar da fraqueza de um terceiro apenas pelo bel prazer de alimentar o ego. E nisso tudo, eu mesmo me sinto mal com as minhas ações, porque as brincadeiras foram ficando mais sérias e… bom… algo está para acontecer entre eu e ela. Uma hora ou outra estaremos na mesma cama, se você entende. O amigo dela vai se sentir destruído…”

“Mas mesmo assim você dá em cima dela descaradamente.”

“Eu sei. É filhadaputagem da minha parte? Sim, é, porque eu mesmo já fui esse amigo da Tina, em diversas situações. E direto eu entrava num estado de autocomiseração, porque eu acreditava naquele discurso 9gag de friendzone e coisa tal.”

“Ah, filhadaputagem não é não… você não tem nada a ver com isso que rola entre os dois ali. Mas, de todo modo, o mundo dá voltas, não?”

“Exato! Ontem eu estive na situação dele, hoje estou por cima, mas amanhã volto a ficar por baixo. Tentamos sempre evitar isso, mas o universo como um todo é uma teia alimentar gigantesca, onde todos são presa e predadores, a depender do ponto de vista, do tempo, do local, das circunstâncias. Já devo ter comentado que há vezes em que tudo dá certo para mim no quesito conquista, mas há épocas em que nada funciona. É algo cíclico, aparentemente, e sinto que preciso aproveitar essa maré boa pois uma hora tudo cairá por terra. Por isso que continuo dando ideia nela, eu quero continuar com essa brincadeira.”

“Cê sabe que isso é perigoso e pode ser visto com péssimos olhos, não? A conversa no carro foi uma prova disso.”

“Eu sei e assumo o risco, cara. Mas é aquele negócio: não quero nada sério com a Tina e creio que nem ela queira algo sério comigo. Somos apenas dois amigos buscando uma nova aventura. Ela começou a brincadeira, com gracejos aqui, ali, eu dei trela e agora precisamos dar um passo adiante nisso. No entanto, só será mais esse passo que darei.”

“Pensando aqui com meus botões… Imagina se no final a Tina passa a estar numa situação similar ao amigo dela, seja contigo ou com qualquer cara por aí. Você não se sente mal em continuar? Criticamos tanto as ações dela, para no final você agir como ela.”

“O que você faria no meu lugar?”

“Não sei. Definitivamente não sei, mas não duvidaria que fosse fazer igual você.”

“Nós somos humanos, meu velho. Somos bondosos e maldosos, ao mesmo tempo. Cada um com a sua intensidade, mas todos nós temos um lado babaca prestes a aflorar, é uma questão de tempo para que apareça.”

Demos risadas, quase que admitindo o desvio de caráter existente em cada um de nós. Dei um gole na cerveja que começava a esquentar. Itaipava quente, que beleza. E ali, no meio da agitada noite paulistana, com todos os sete pecados capitais percorrendo pelo ar, tive uma leve percepção de que nada havia de superioridade entre a minha pessoa, no auge do meu refinamento cultural, e aqueles grupos de jovens que conversavam sobre assuntos rasos, poucos metros acima.

Naquele dia, todos nós éramos humanos buscando os pequenos prazeres da vida, não importando a quem afetasse. Era todos os nossos egos em jogo.

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