Um rascunho escrito numa fria noite de sexta-feira

Por Augusto Moreira

Normalmente eu não publicaria um texto tão cru como será este que eu vou escrever a partir de então. Mas desde ontem acometeu-me uma súbita vontade de expressar textualmente coisas que ultimamente tem sido difíceis de pronunciar oralmente.


Não é de hoje que eu tenho estado longe. Longe de mim, longe de ti, longe de todos, do planeta Terra. Provavelmente isso sempre fez parte da minha natureza, meu cérebro se desconecta facilmente do mundo presente para se conectar tanto no pretérito quanto no futuro. Isso explica meus diversos momentos de silêncio à mesa do bar, na roda de conversa, até eventualmente nos diálogos. Mas não pense você que faço muitos planos. Na verdade, até faço, mas são sempre esboços, pedaços de projetos ainda embrionários, oriundos do gigantesco universo das ideias e que usualmente morrem ali, sem ao menos terem tido a chance de enfrentar o caótico e duríssimo universo da realidade.


Future #1

E não vou negar: ultimamente uma parte razoável das minhas energias tem sido gastas nesses meus projetos futuros de carreira. Mas calma: eu juro que elas estão saindo do campo ideológico e propositalmente eu tenho me incomodado para que me movimente e consiga colocá-las em prática. É difícil, mas tenho tentado e tenho estado cada vez mais confiante na proposta de futuro que estou traçando para minha vida, daqui para frente. Corra atrás dos seus sonhos, já diriam aqueles outdoors motivacionais clichezentos. E, é um pouco disso que estou fazendo, consideradas as devidas doses de realidade.


Past #1

Além disso, uma parte da minha mente tem estado no passado. Sim, eu sei: águas passadas não movem moinhos e o cacete a quatro. E não exatamente tenho remoído fatos já há muito jogados no limbo dos pretéritos, mas é como eu estivesse antecipando algo que já aconteceu comigo anteriormente e que já está na iminência de ocorrer novamente. O que acontece está totalmente fora do meu controle. No entanto, o que me deixa um tanto carrancudo são os sentimentos envoltos no fato iminente, como se nada houvesse aprendido com as lições anteriores. Eu enxergo diversas situações similares a fatos passados que me machucaram, pensei que tivesse superado, mas ainda sinto algumas dores.

Aqui, o passado e o futuro atuam em uma simbiose, onde o passado tenta fazer com que eu antecipe o que pode acontecer no futuro novamente e prepare minha mente para tal. É um mecanismo de defesa que tem como resultado o meu velho silêncio, com um pouco de autoexílio. Sim, estou distante mesmo. Mas juro, é por uma questão de autodefesa, para me proteger e também para proteger àqueles que estão à minha volta dos meus demônios. Não que eu queira justificar meus atos, no entanto de uma forma ou outra preciso explicar aquilo que guardo no âmago da minha alma.


Past #2

Uma música que expressa um pouco o que sinto:

“And every part of me says ‘go ahead’”

Escutei muito essa música durante um passado meu não muito recente. Confesso que se trata de uma música que me lembra alguém. Sinto-me preso a um sentimento o qual não consigo me livrar. Fico um pouco angustiado, meu rosto se fecha ao se lembrar do que ocorreu nesse período. E ainda sinto que tudo está vindo à tona novamente.

São dilemas profissionais. São pequenas situações quotidianas. São alguns amores não correspondidos. Pequenas farpas. Pequenos demônios, que crescem aos poucos até eventualmente tomarem proporções gigantescas.

“Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar”.

É preciso sorrir.


Future #2

Admito que é foda traçar os planos futuros. Dizem por aí que é preciso muita coragem para fazer mudanças bruscas de carreira, ainda mais quando estamos num cenário nada favorável economicamente,e quando há responsabilidades a serem cumpridas. Não diria que é necessário ter tanta coragem. Claro, nenhum medroso o faria, mas mais que ímpeto, é preciso gerenciar muito bem todas as paranoias resultantes de uma ansiedade que se multiplica diante daquilo que não é certo e, principalmente, daquilo que não sei como terminará futuramente. O Johnny categorizou isso — muito bem, por sinal — como “Indefinição Temporal”, em um dos primeiros textos que ele publicou no recém falecido blog dele no Wordpress e que foi republicado aqui no Medium. De todo modo, só o tempo dirá o quão certo dará meus planos. É preciso paciência.


Present #1

Porém, antes de conseguir concretizar todos os meus planos futuros, eu preciso cuidar-me dentro do meu próprio presente. Estou trabalhando internamente essas questões do pretérito, de forma que elas não me afetem negativamente, e também procurando maneiras de não me deixar levar pelo futuro.

Don’t get lost in heaven.

Aos poucos, a casa vai se arrumando após uma pequena tempestade em copo d’água. Hoje estou longe. Se me perguntarem onde fui, diz que fui por aí.

E eu volto. Prometo voltar.

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