SEMBLANTE

Costumava ser difícil fechar os olhos e ver o seu rosto constantemente. Teu semblante sob àquela meia-luz amarelada. Você sentada num banquinho ao telefone, daqueles antigos, falando com seu melhor amigo, sussurrando a ele coisas sobre mim que não conseguia decifar. Eram os dias bons, quando não se errava, quando não se apodrecia sob o mesmo teto. Hoje, fechar os olhos e lembrar é sinônimo de frustração porque tudo acaba, baby. A vida vai correndo depressa demais e a gente tenta acompanhar o passo largo que ela dá, completamente despreparados pra todas as chuvas e tempos secos que ela nos enfia garganta abaixo.

Perdi o medo do cinismo e virei seu rei, seu pai. Não tenho mal-estar ao proferir teu nome e não reconheço mais aquilo que costumava ter. Sem discursos inchados ou poéticos, apenas a crueza visceral da honestidade me domina. Não é raiva, não é rancor e nem indiferença, é o compreendimento das coisas como são. Aquele velho hábito da ficha só cair quando é tarde demais. Foi daí que criei aquela auto-denominação “flagelosa”: “tenho um coração de bêbado e alma de concreto”, e a culpa é toda sua.

Nessa clareza que o desapego atirou sob meu colo, afirmar que a liberdade de ter a vista e os sensos soltos ao mundo é o que faz despejar a cada madrugada insone, mais verborragias sobre a natureza dos acontecimentos que ficam trancados lá no fundo, num canto escuro, com uma placa na frente escrito “não toque, não veja, não lembre”. Penso comigo em voz alta que essa fase da vida já passou e é hora de encarar toda a podridão sórdida que existe por dentro. Não somos todos feitos de bondade, e o mal é a minha bússola moral.

Está na hora de mudar um pouco o espectro. O prisma pelo qual a luz bate e reflete nos teus olhos está equivocadamente inatural, equivocadamente hostil. Sua realidade é amarga e ácida mas porque sua inocência ainda vagueia por pensamentos de natureza pura e sonhadora? Aqui não há mais espaço para conto de fadas. A vida está na sua frente, pegue-a. O tempo não é aliado de nada, é essa a lição. Ele só faz o trabalho como deve ser feito, sem escrutínio. Esse é o retrato mais cru que posso pintar sobre a totalidade dos fatos derramados à minha porta, involuntários e desistentes.

Então tente fazer uma oração antes de dormir, talvez aquela sua parte da inocência que ainda não sumiu, lhe traga a melancolia saborosa que é viver cada dia com medo. Medo de se entregar, medo de passar por tudo novamente. Medo de errar e medo de arriscar. Desse medo tem de brotar uma coragem feroz e violenta que alavanca o rosto pra frente e pra cima e põe o nariz pra sangrar. Tem que nascer uma vontade visceral e masoquista de viver. É isso que penso sobre como o tombo faz a gente levantar e perceber que o joelho ralado leva tempo pra cicatrizar mas, um dia, ele cura, como tua alma perdida.

Da série de contos “DELÍRIOS NO CASTELO DE CÂNCER” — 2014

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