A primeira mentira…

confiança é tudo, não é mesmo?

Você ainda está saindo do banho e manda mensagem dizendo que já está no caminho. Não está interessado em assistir algo, mas fica ali por vontade do outro. Ouve a tal música e insiste em dizer que não se lembra daquele ser que passou pela sua vida…

Desde que o mundo é mundo que nós soltamos uma mentira ou outra em nossas relações. Pais, irmãos, amigos, namoros, trabalhos, casamentos… em todos os níveis de relação, temos aquelas doses que podem ser consideradas saudáveis de mentiras ou até mesmo chamadas que ocultação. No fim, são aquelas coisas ditas e que não são capazes de ferir o outro. Mentiras suportáveis, dizia um poeta do qual não lembro o nome enquanto escrevo.

A gente sempre busca poupar o outro do qual gostamos de uma possível dor e, com diferentes graus de atitudes escondidas, as doses de sofrimento podem ser maiores. Dizer que está atrasado pode deixar a pessoa triste, mas isso passa. Algo mais complicado que não é dito pode acabar se transformando em algo danoso. De um atraso, você pode passar a ocultar certas informações cuja recepção do outro seria negativa, como trair a sua confiança. Não dizer que encontrou alguém cuja pessoa não goste. Ficar até mais tarde no trabalho e dizer que tinha coisas para fazer quando, na verdade, você só não queria entrar em casa. Dizer que foi para um bar quando, na verdade, você estava em outro lugar.

A tal da primeira grande mentira faz você entrar em um modo no qual é sempre mais fácil não dizer o que de fato pensa, sente ou acontece. Por outro lado, pode te fazer falar apenas aquilo que lhe convém, pensando ser o suficiente. Essa atitude pode vir fantasiada de blindagem para uma relação que, talvez, não se sustente com 100% de verdade. Você não diz que odeia quando o outro tem determinada atitude, ainda que ela te incomode. Não conta que estava na casa de alguém e que se arrependeu de não ter beijado ou feito sexo com essa pessoa. Não ostenta suas conquistas perto de quem tem a mesma ambição que a sua ou não diz que se atrasou porque estava fazendo algo que lhe era mais interessante, ainda que fosse ver uma série na Netflix. Você simplesmente oculta. Diz que não tem problema. Não comenta sobre aquela noite, ainda que seu comportamento tenha sido bem diferente e, possivelmente, tenha chamado a atenção. E, claro, só coloca a culpa no trânsito pelo atraso. Quem nunca, não é mesmo?

Como uma engrenagem, as coisas vão se encaixando e, salvo acidentes de percurso, o que não foi dito nunca virá à tona. É o que todo mundo pensa, já que vivemos em uma sociedade que pode ter suas qualidades, mas na qual não existe um ser humano que não tenha usado desse artifício pelo menos uma vez na vida. Eu já menti várias vezes. Você já deve ter mentido ou ocultado algo na sua vida. Até hoje minha mãe não sabe das vezes em que me ferrei em alguma matéria na faculdade. Ou então de um porre de conhaque que tomei quando era pseudo adolescente. Não precisava dizer isso pra ela. Tinha os meus motivos. Quando ela perguntava, estava tudo bem ou foi tudo tranquilo. Se isso foi errado? Talvez…

Mas John, dizer tudo não seria perder a minha individualidade?

Antes que você pense: todo mundo tem direito a sua individualidade. Isso nem deve ser questionado por quem quer que seja. O ponto é que, sejam pequenas e insignificantes ou grandes e dolorosas, todo mundo já deixou rolar pelo menos uma mentira perante o outro. Muitas vezes falamos de honestidade, gritamos por justiça e imploramos por uma relação saudável, mas se formos parar para pensar, muitos dos que mais cobram são aqueles cujo telhado é de vidro ou que já sofreram com isso. E a sua falta de honestidade com o outro não pode ser justificada por uma ideia de individualidade.

Ninguém aqui quer instituir a entrega de relatório diário em uma relação. Ninguém precisa saber quantas vezes você foi ao banheiro, o que comeu, quanto gastou, quem você viu no shopping ou o que conversou com seu colega de trabalho. Isso é da sua individualidade e, a menos que você sinta vontade, não precisa ser dividido. Isso não é trair a confiança. O ponto aqui é quando você não consegue jogar limpo quanto as suas vontades. Quando você joga com os sentimentos dos outros de acordo com o seu interesse.

E é nesse momento que a gente se pergunta: até quando a sua mentira se sustenta? Ou melhor, até que ponto essa mentira não vai ferir o outro?