Me faltam palavras…

“Você é uma pessoa que não se abre e isso não permite que as pessoas cheguem”

Não é de hoje que essa frase me é dita com certa exaustão. Eu nunca fui uma pessoa de dizer de mim. De falar o que eu sinto, expor minhas vontades e sonhos. Alguns dizem que é um fator mineiro elevado ao extremo, outros apontam uma falta de confiança no receptor e, de uns anos pra cá, só minha terapeuta tem me ouvido falar. O que é maravilhoso para o processo. O que me fez dizer ainda menos de mim aos outros.

“Eu estou bem. Estou levando. As coisas estão indo…”

Respostas vagas para perguntas pertinentes. Esse virou o meu lema de vida quase que involuntariamente nos últimos anos. Posso contar nos dedos da mão do Lula quais pessoas realmente me ouviram falar da vida no último ano e um dos dedos é, claro, da minha psicóloga. Não é difícil confiar no outro. Talvez eu seja a pessoa que mais tende a confiar no outro, a depositar no outro uma confiança que, muitas vezes, eu não tenho em mim mesmo. Eu não sou bom o bastante para tal coisa, mas se fulano estiver por perto eu consigo. Posso dizer que eu transferi para o outro uma responsabilidade a qual não pertence a ninguém além de mim e, no alto dos meus 30, eu perdi as rédeas desse touro indomável e confuso que se tornou a minha vida.

Ainda que eu tenha pessoas especiais por perto, existe uma barreira que me faz guardar muito do que sinto comigo. Durante muito tempo eu acreditei que isso era medo do julgamento alheio e, talvez por isso, tenho enorme dificuldade de lidar com as minhas falhas. Eu falhei em vários aspectos da minha vida. Falhei com minha família, falhei em relacionamentos, falhei com amigos, falhei na minha vida profissional e, principalmente, falhei comigo mesmo, com os meus sonhos e desejos para a vida.

Desde que retomei o meu processo terapêutico, a vida tem se desenhado um pouco mais fácil de suportar. Os dias trancados no quarto ou com humor extremamente explosivo se tornaram menos frequentes, ainda que aconteçam vez ou outra. No entanto, tentar lidar com todas as questões acumuladas me fez perder a gana de ir em frente, me fez ficar mais quieto no meu canto e até mesmo mais arredio. O meu canto não é mais o quarto, mas deixar chegar ainda é um problema. E não é que eu não queira, é que me faltam palavras para que isso ganhe vida além da terapia ou dos textos que as vezes a mente deixa sair.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.