E se (eu) desligar?

“Há barulho no cérebro, descontrole no peito e aflição na alma.”

E se o dia de amanhã não precisasse ter os teus pulmões roubando mais um pouco de oxigênio?

Não precisaria ter metade do teu rosto afundado no travesseiro, enquanto o olho exposto tenta violentamente abrir e vislumbrar o quarto ainda escuro. Nada mudou desde a última noite. O gosto da amargura ainda está na boca e as lágrimas já se dissiparam nos lençóis. Você já acordou querendo não acordar.

E se (eu) desligasse, quem sentiria falta? Provavelmente menos seres do que você realmente acha.

Se fosse apenas o breu da incerteza que insiste em instigar, desligaria agora mesmo. Silencioso, calmo e sereno. Tumultuado já basta o barulho do cérebro, o descontrole no peito e aflição da alma.

É um cansaço enorme fingir que nada aconteceu, e de fato não seria mentira, pois nada acontece no sentido físico da palavra. Lábios não tem mais força, saliva não tem mais gosto.

De repente viramos um manequim, com nossas camisas gastas e um rosto sem expressão. E a vontade é grande em desligar… Onde fica a tomada? Perto de qual botão? Pode desligar pra mim?

Eu só quero deitar e não mais acordar. Quem sabe apenas uma última vez, pra dizer que não deu, eu (realmente) não consegui.

Decepção é o sentimento que vai ficar ressonando por um bom tempo depois da energia ser cortada, mas dá pra levar em consideração? Não, pois já estaremos desligados, desplugados, e há tempos desajustados.

Emocionalmente, já não há energia que ligue o coração. A conta dessa luz já está tão vencida que seria necessário um empréstimo milionário, e com esse valor daria para comprar um novo alguém. Desde que não precise de energia (vital), é claro.

Mas e se desligar, as pessoas vão parar de achar que há beleza em coisas que (sinceramente) não há? Com certeza não, mas é uma nova obsessão achar algo belo em algo triste, mesmo quando o objetivo é mostrar que a tristeza não é feita para sorrir, mas somente para chorar.

Essa fome em desligar é o que consome, rosna, e sufoca dentro do rombo no peito. É querer sentir-se cada vez mais vazio, fino e invisível. De tão vazio desaparecer, de tão fino sumir e de tão invisível nunca ser visto. Essas redundâncias e pleonasmos não desligam. Só evidenciam o deslocamento de vontades e desejos impossíveis, de beijos e abraços imaginários e de sonos que ainda acordamos sem querer.

O despertador ecoa nas quatro paredes. O globo ocular faz um movimento brusco e acorda a pálpebra. A bochecha amassada tem um pequeno espasmo muscular. Acordado, mais uma vez. Não houve desligamento na rede, e ainda há vontade de desligar.

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