Jessica James e a representação incrível da pessoa comum

“…isso é teatro Shandra, não temos que fazer nada disso. Nós fazemos isso porque é preciso! ”

E se o mundo fosse recheado de pessoas que se permitem ser exatamente quem são, com inseguranças e assertividades, sem clichês ou atitudes forjadas para atender as expectativas grandiosas dos outros?

Encontraríamos com grande frequência mulheres como a incrível Jessica James, a nova produção da NetFlix protagonizada pela novata comediante Jessica Williams. Mas a real é que essas mulheres existem.

E passam despercebidas, já que não são aceitas ou procuradas, não servem de exemplo nem são modelos que almejamos seguir, pois estamos ocupados demais no esforço inútil de nos encaixarmos nos formatos humanos extraordinários vendidos pelas mídias e meios de comunicação em geral.

O que fazer então, quando você é a garota negra e não a loira que circunda o imaginário de homens formado por um modelo de masculinidade vazio e acrítico? Ou quando você cresce e percebe que o cerne familiar rejeita suas escolhas, suas necessidades e sua autenticidade que não cabe nos círculos que cultuam futilidades e mesquinharias típicas das famílias tradicionais? Ou ainda, quando você, depois de muito dar braçadas dentro de uma relação onde o foco era “dar certo”, recebe um xeque-mate do boy que resolve sair da paranoia do “felizes para sempre” e se jogar em busca do novo?

No roteiro despretensioso e quase raso de James C. Strouse, sentimos um ar de ‘Frances Ha’ (Noah Baumbach, 2012) pela técnica infalível de despertar empatia do espectador, aproximando-nos da simplicidade e das incertezas do outro que sufocamos em nós.

James Strouse certamente não teve a pretensão ou preocupação de trazer a qualidade técnica e o roteiro sofisticado de Baumbach, mas desenvolveu um caminho menos existencialista e mais prático, regado de entrelinhas e entremeios que delimitam, ainda que de maneira pouco comprometida, as diferenças sociais impostas pela intersecção raça/gênero, caprichando nas ironias e nos diálogos inteligentes mas sem apelo cult.

E diferente da anti-musa de Noah Baumbach que, se posiciona como inamorável, Jessica tem uma vida amorosa. Para mulheres brancas, o questionamento gira (ou deveria girar) em torno da necessidade compulsória em estabelecer nas relações amorosas suas maiores vitórias na vida, já que esse sempre foi um lugar construído para elas nas estruturas que implicam a opressão de gênero. Já para mulheres negras, a privação da vivência amorosa formal e pública é uma barreira com necessidade de ser derrubada, pois ainda estamos fatalmente presas dentro da construção perversa que nos coloca como inamoráveis.

Apesar de esbarrar na temática feminista e do protagonismo da mulher negra, o filme não se mostra disposto a trazer aprofundamentos sobre questões inerentes a opressões de gênero e nem racial.

Fica claro que é apenas um recurso para demarcar a personalidade e as motivações da protagonista. E convenhamos, uma mulher negra interpretando uma personagem dessas já é um manifesto antirracista bastante ousado, pois Jessica James quebra com uma leveza envolvente, todos os estereótipos seculares impostos a mulheres negras. Ela não é raivosa, ela não é sofredora, ela não é a que carrega o mundo nas costas, não é a sexualmente fácil ou lasciva. É apenas uma mulher negra, bonita e inteligente, tentando alcançar um sonho possível de ser alcançado, se equilibrando entre as incertezas das relações amorosas e as exclusões sutis que toda família pratica para com aqueles que burlam suas regras convencionais.

Outras questões que esbarram na intersecção raça/gênero são muito sutilmente expostas, como a abordagem de homens brancos direcionada a mulheres negras. Todos sabemos que aplicativos de paquera não são lugares ideais para se encontrar um grande amor. Mas ainda assim, mulheres negras são abordadas exclusivamente para sexo casual, enquanto mulheres brancas sempre serão uma discreta esperança de um possível relacionamento. Assim como fora do ambiente virtual, a abordagem direcionada a mulheres negras giram em torno da ideia do fetiche, do exótico. E a resposta de Jessica é devolver ironicamente, incorporando o clichê da mulher sexualmente independente e bem resolvida que é exatamente a descrição mais procurada e que encobre a real intenção de achar alguém apenas para sexo casual e tchau, intimidando o homem branco que não esperava passar pelo crivo de uma sinceridade cortante que pouquíssimas mulheres ousariam nesses casos, bem como receber o tratamento desinteressado e desumanizador com que esse tipo de homem costuma tratar mulheres, sobretudo negras. Ela o coloca seguramente como o descartável da história, subvertendo a regra branca e masculina de objetificação cruel de mulheres negras.

Para mim o ponto mais hilário dentro de 1 hora e 25 minutos do filme.

Mas a discreta intenção do roteiro, talvez seja muito mais sublime do que se possa esperar. Embora não se aprofunde nos conflitos, mantendo a linearidade quase entediante da direção, sem criar nenhum grande pico de dramaticidade, ficamos diante da tela fazendo aquilo que sempre foi e continua sendo negado a toda menina/mulher negra: sonhando com a normalidade. Digo isso porque em um mundo racimachista, mulheres negras crescem sabendo que para serem aceitas precisam ser espetaculares, extraordinárias, incríveis. Uma mulher negra comum tão comum como toda a branquitude costuma ser, não corrobora com a token do negro único, aquele que é ‘de alma branca’, aquele que é diferente dos outros e por isso deve sair do lugar da subalternidade e adentrar o mundo branco que se pensa detentor de toda superioridade possível.

O roteirista é um homem branco que me deixou bastante curiosa sobre que tipo de material humano ele teria explorado para desenvolver uma sensibilidade atípica para sua condição social, a ponto de trazer de forma ousada uma pessoa considerada comum pelo sistema racista e machista, para o centro de uma comédia romântica. Uma pessoa que representa um grupo marcado pelos múltiplos questionamentos e retaliações que limitam a plenitude de sua vivência social. Uma pessoa que pertence a um grupo que sofre com o preterimento afetivo e a negação constante de suas potencialidades, tendo que lutar muito para construir sua autoestima e confiança.

Dando a essa personagem a chance que mulheres negras raramente tem, de passear livremente por momentos de insegurança, de força proporcional a sua condição de ser humano. Aliás, confiança é algo que Jessica parece ter de sobra, ao longo da trama. Mas em um dado momento, como se um furo de realidade adentrasse a trama, ela admite para aquele com quem tenta construir uma nova relação que se sente insegura o tempo todo. Ela é como toda mulher negra, uma resistência reexistindo o tempo todo. Assim como eu, como você e tantas outras mulheres negras.

Essa revelação abre uma brecha importante para pensarmos sobre o tão falado e igualmente esvaziado Empoderamento. Jessica se sente insegura o tempo todo, como admite, mas dá uma impressão totalmente diferente pelas atitudes. Talvez porque vivencie essas inseguranças com a normalidade de quem sabe que elas são parte do crescimento pessoal de cada um, é o vínculo que mantemos com nossa própria humanidade. Sentir-se inseguro é normal e devemos enxergar esse sentimento dessa forma. Assim abrimos espaço para o curativo da confiança entrar em ação. Para cada crise de insegurança, uma ofensiva pesada de autoconfiança para continuar buscando algo que nos seja importante. Isso é processo contínuo e consciente de Empoderamento.

Jessica é encantadora justamente porque se permite ser comum, porque experimenta a normalidade e rejeita a necessidade de forjar o extraordinário em si mesma. Estamos sendo bombardeadas a todo momento com a imposição do espetacular, do grandioso, como se tivéssemos que ser semideusas. Me lembro do Pessoa em seu ‘Poema em linha reta’, em que ele pergunta onde estão as pessoas comuns, que erram, que choram, que fracassam, que se abatem. Está seguramente na sinceridade com que vive Jessica James.

Jessica lida com as frustrações, expressa e admite para si e para o mundo que não é perfeita, mas apesar disso tudo, sabe que é incrível e que todos a admiram, mesmo que não digam.

Outro ponto bastante oportuno para o aprofundamento de nossas reflexões com base no filme, é a vida amorosa da protagonista. Não temos elementos suficientes para entender o porquê do rompimento com o primeiro namorado, mas pela sua atitude de busca desesperada por manter um vínculo (mais possivelmente o controle sobre a vida dele) e a confissão inesperada de que “acha que estava apaixonada”, podemos prever que se tratava de mais um relacionamento daqueles em que mulheres dão muitas braças, nadando em busca do porto seguro da durabilidade como símbolo da perfeição a qualquer custo e esquece de viver todos os momentos que são únicos e capazes de segurar a verdade de uma amor adulto.

Ainda transitamos pela ilusão da durabilidade e lutamos por ela, quando na verdade, talvez devêssemos estar lutando pelo real propósito de um encontro íntimo e prolongado com outra pessoa: o nosso aprimoramento e autoconhecimento.

Nesse imbróglio de atitudes voláteis e romantismos insustentáveis, não construímos relações reais, apenas alimentamos dúvidas a respeito do que somos capazes de sentir e sobre o que são capazes de sentir por nós, já que ficamos no nível raso das projeções infantis.

Quando Jessica encontra o divorciado e igualmente frustrado Boone, começa uma construção real de um possível relacionamento. Embora o começo seja desastroso, o pacto da sinceridade abre a porta para uma possibilidade que vai sendo confirmada gradativamente por ambos, simplesmente porque é isso que eles querem. É bastante interessante a ênfase que o diretor dá para a linguagem corporal de “desmonte”, quando ambos fazem o pacto de serem sinceros um com outro. Eles simplesmente relaxam e se permitem serem honestos em tudo, até na postura de seus corpos.

O envolvimento real se dá entre pessoas que estão dispostas a assumir a realidade de um encontro amoroso, para além das projeções da paixão marcada pelo viés social e assumindo o compromisso das suas próprias desconstruções. Nenhum dos dois sintetiza em si mesmo o ideal desejado pelo outro, o homem branco deixa claro que prefere mulheres loiras e Jessica nem se lembra do nome dele após o primeiro encontro que termina em uma noite de sexo prazeroso, porem fora dos nossos padrões equivocados, já que nem houve penetração.

Mas em um dado momento, a decisão consciente de se abster da busca pelo ideal e se lançar nos caminhos da construção de um relacionamento, acende a luz da amizade que vai permitir a abertura entre ambos para suas verdadeiras personalidades. Esse caminho o da transmutação segura do sentimento de amizade em matéria-prima de uma relação amorosa, está pavimentado pela coragem que é necessária para tirar as máscaras que usamos na busca pelo encaixe nos padrões sociais que nos são apresentados desde cedo, todos eles, e que acabam nos manipulando em busca do outro que também usa as máscaras de encaixe nesses padrões. A preferência de Boone por mulheres loiras é claramente uma alusão ao padrão princesa que além de racista é elitista ao extremo e impõe a condição de submissão da mulher para ser amada e instrumentaliza o desejo do homem de ser o provedor. É o machismo na sua forma genuína. Já Jessica e sua fissura em restabelecer a relação falida com o namorado é a busca frágil pelo amor afrocentrado que reduz ainda mais as chances já escassas de construção de relacionamentos formais para mulheres negras. São as contradições das lutas intra-raciais dançando em nossa tela.

Casais improváveis como Jessica James e Boone, tem muito mais possibilidades a serem exploradas do que supõe nossas pífias previsões pautadas pelo ideário dos romances das novelas globais. E não pela diferença ou contraste racial, de idade ou de condição social e sim pela compatibilidade construída de forma madura, por duas pessoas que querem compartilhar suas riquezas interiores rumo ao crescimento holístico que isso representa.

De qualquer forma, quando pensamos no título do filme procuramos inadvertidamente pelo componente da protagonista que evoca o incrível, aquele toque de magia que só pertence a alguns e que torna esses alguns, únicos e dignos de admiração.

Curiosamente, o espetacular, o incrível que compõe a personagem é justamente a ausência do extraordinário, do grandioso, do glamouroso, do espetacular, do incrível.

Jessica James, ao cunhar uma mulher que poderia ser qualquer uma de nós, convida ironicamente a nos tornar incríveis, sendo apenas nós mesmas na nossa mais segura simplicidade.

A grande sacada do filme é esse constante questionamento pelo incrível que descreve Jessica sendo que incrível mesmo é saber que só precisamos tirar da frente a corrida rumo a uma perfeição em todos os níveis da impossibilidade e nos vestirmos de nossas próprias verdades, de nossa sinceridade conosco e com o mundo que nos cerca, sem medos e sem cobranças, pois assim como Jessica diz algumas vezes no decorrer da trama:

“ O mais importante pra mim é a sinceridade”

E não é?

imagem: internet