Terra Vermelha

Os corpinhos pequenos, lisinhos e desajeitados andando num gingado bonito nas ruas de terra da cidade. Todos muito miudinhos, as barriguinhas inchadas e a boquinha trocando dentes. Tudo “inho”. As mães deixam os “inhos” na rua porque precisam trabalhar, confiam nas vizinhas da rua pra dar uma olhada, chamar pro almoço, mandar pra casa quando escurecer. As vizinhas dizem sim, pois estão lá de qualquer forma, mas é raro irem conferir na rua como estão os pequenos. As vizinhas precisam costurar pra fora, cozinhar pro marido, cortar os cabelos crespos do bairro, limpar a casa. Então todos esses miúdos ficam largados mesmo, se sujando de terra, esfolando os joelhos, arrumando briga com a molecada da outra rua. São donos de lá, mesmo tão coisinhos.
Choram bastante quando podem. Querem aquele brinquedinho empoeirado exibido na única lojinha de trecos da cidade. Querem comer chocolates todo dia, chupar balas que tingem a língua de azul, tomar refrigerante de garrafinha. Ter cáries de doce. Coisas que as mães cansadas com as jornadas de oito, dez horas de trabalho pesado não podem dar. Os garotinhos se entristecem e logo escorrem as lágrimas espessas, abrindo caminhos nos rostinhos encardidos.
Por isso caminho até a rua dos pequenos. Dos miúdos sem mãe para vigiar.
Minha casa é grande, bonita. Tenho todos os brinquedinhos de plástico namorados pelos pequenos, esmagando os narizinhos deles no vidro da vitrine da única lojinha de trecos no bairro. Minha gaveta da escrivaninha cheia de doces, balas, chicletes. Tudo gostoso. Também sou bonito, fala leve, educado. Gostam de mim. Deixo os miudinhos verem TV. Pode comer doce e não escovar o dente. Pode falar palavrão. Não precisa fazer lição de casa. A molecadinha deita e rola na minha casa. A única regra é clara, menor de doze não entra.
Quando a casa está vazia, é hora. Coloco os doces da gaveta num saco preto de lixo. Lá vou eu caminhando em direção das ruas de terra. 15 minutos da minha casa. Ando bonito, de calça cáqui, chapéu panamá, óculos redondos. Muito bem apessoado sou eu. Dois minutos que abro o saco já aparecem as boquinhas desdentadas, os pés descalços, sujos, perguntando como não quer nada pra mim.
- Tio, posso pegar?
Pode, mas só dou pra menor de doze. Passou disso já é moleque, folgado, fala besteira, pele fica áspera. Já pode trabalhar, se engraçar com as menininhas da rua de cima. Não dá. Chamo só os pequenos, aqueles que choram, sem mãe por perto, vizinha distraída. só os inhos mesmo. Tão lindos, tão livres de pecado.
Abro a sacola. As mãozinhas esticam pra pegar os doces e logo estão caminhando comigo, saltitando. Felizes. Vão ver TV, vão tomar refrigerante. Brincar com aquele brinquedo empoeirado esperando pelos pequenos na vitrine. As mães não sabem, a vizinha tá fazendo almoço, costurando, varrendo a casa e eu estou na rua povoada pelos pequenos. Sou o moço bonito, branco e simpático que aparece lá quase toda semana.
A casa agora está vazia. A gaveta de doces abarrotada atraindo formiga. Geladeira fedendo e piscina com água verde turva. Ninguém entra, ninguém sai. Eu, no caso. Me enganou ele que de tão ratinho, achei que tinha 11. Tem treze, o desgraçado.
Deu dois dias de normal. Continuei indo pra rua dos meninos. Dei doce, chamei pra casa. A vizinha não vê ou finge que não viu e os pequenos não comentam nada. Porque não tem nada, eu só olho. Só peço com jeito. Sou bonzinho assim.
Oito da manhã era só cochichos. Baixinhos, discretos. Quase não se ouvia som vindo das bocas grandes dos moradores, não se via as peles cheias de poros, de espinhas, de cicatrizes, de pelos pretos me encarando. Gente dessa cidade suja e pobre que tenho que viver. Olhavam só pelo canto dos olhos, assustados. Invejam meu terno bem passado, meus óculos caros e meus sapatos sempre limpos, apesar das ruas de terra vermelha. Invejam. Querem me pegar de susto. Sujos.
Meu pai também é imune à poeira das ruas de terra vermelha. Dono de terrenos, metade da cidade deve algo para ele, patriarca da família. Anda de bengala feita de madeira polida e marfim e tem um bigode amarelado de nicotina. As bochechas vermelhas como a terra da cidade. Anda de trabuco, mete medo. Inclusive em mim, porque acha que sou viado, frouxo, mulherzinha, maricas.
Mal sabe ele da minha gaveta cheia de doces, do quarto abarrotado de brinquedos de plástico da loja de trecos. Ou finge não saber. Me dá dinheiro no começo do mês e some. Me olha torto, pergunta quando vou dar um neto pra ele, que está velho, vai morrer logo. Precisa de herdeiros senão quem pega tudo é um primo meu. Ele o adora, o venera. Não é maricas, não é viado. É casado com uma moça de 17 anos de seios fartos. seios que só servem para amamentar dois machinhos saídos daquele ventre.
Eu não. Sozinho, sem filhos, nem mulher. Nada me interessa aqui nessa cidade feia do meu pai. Passo os dias em casa, vendo TV. Quieto, tranquilo. As mulheres gostam de mim, me querem por perto. Sou bonito, bem apessoado, falo baixo. Um lorde das terras vermelhas. Meu pai acha que é coisa de viado, maricas, mulherzinha. E as mulheres me dão bom dia, querem saber de mim, me chamam pra tomar café. Comer bolo. Sou um lorde.
Mal sabe o pai que maior de 12 não entra em casa.
Meio dia e pouco, depois de almoçar no restaurante perto de casa, o negócio esquentou. O sol no topo daqueles couros cabeludos desgastados nas lavouras, plantando soja. Faço meu trajeto de quase todo dia, caminhando tranquilamente até a ruazinha onde dominam os pequenos. A rua onde as mães não olham, as vizinhas trabalham. Vou caminhando com meu saco de doces, meu sorriso leve, meu terno caro e minha casa grande cheia de brinquedos de plástico comprados toda semana na loja de trecos. Espanto um ou outro mosquito, limpo a terra grudada no meu rosto com um lenço branco.
Eles abrem aquele sorriso formado por dentinhos pequenos, os cabelinhos encaracolados e os olhinhos pretos. Inhos. Só os menores de 12 que deixo chegar perto. Os de 13 pra cima olham de longe, bravos. Caras fechadas. Moleques encapetados.
- Viado. Chamou o primeiro homem durante o percurso.
Acontece, não é a primeira vez que sou chamado assim. Só mais um daqueles dias. O povo se sentido maior, poderoso. Mais do que eu. Quando saem de casa depois de almoçar, bater nas suas mulheres, ignorar os filhos e ir direto à lavoura. Com ódio de mim porque sou bonito, educado, dono das casas e deles também. Ódio de mim, pois sou filho do meu pai.
Chamam assim porque querem atingir o patriarca de cara avermelhada e bigode amarelado. Ainda falta coragem nos lacaios. Aí falam de mim, pequeno, muitos anos atrás. Eu, menino bem “inho”, magro e pálido, solto nas ruas. Mamãe morreu me dando a luz e papai fazendo filhos bastardos por aí nas moças soltas pelas fazendas. Eu, todo livre. Sem ama pra me chamar pro almoço, circulando pelas ruas sem asfalto, de terra vermelha deixando a barra da calça manchada e o rosto encardido. Pequeno assim de dar dó. Pequeno e endinheirado, filho do dono e neto do dono de mais tudo.
Pequeno e fraco. Querendo fugir daquele pai, da mãe morta me olhando através dum quadro desbotado na sala de casa. A casa que nasci era toda assombração, feia. E eu fugia pra ficar sozinho na rua. Querendo brincar com os meninos lisinhos e encardidos, sem mãe e pai pra olhar. Jogar bola, catarrar no chão, coçar o saco. Ser menino longe de casa, longe daquele isolamento adinheirado. Se meu pai soubesse o quão longe eu caminhei, lamberia a porrada em casa. De cinto de camurça, da bota dele com ferro na ponta. Não tem como explicar nada pro velho. É pá pum, esporro.
Mas eu, pequeno, franzino, logo vi o ódio nutrido pelos meninos das ruas de terra vermelha contra minha família. Eu tinha brinquedos, roupa nova, comida boa. Eles tinham só a pobreza. E lá eu estava em desvantagem. Me rodearam, pegaram meu dinheiro, chamaram meu pai de diabo. O pai de um deles trabalhava como capataz pro meu. O pai de outro era lacaio, burro de carga. Os meninos da rua sabiam que o futuro reservado para eles é serem meus funcionários. Mas na rua eu era o que era: pequeno, liso, franzino. Apanhei até não poder mais. Fiquei vermelho por causa da terra que grudou no meu corpinho suado e do sangue que saiu do meu nariz.
Depois um deles, o maior, chegou perto. Me levou pra lá. Me fez circular lá praquele terreno que ninguém podia ir sem receber uma ameaça de chinelada da mãe. Eu fui, puxado pelos cabelos, mas fui.
O moleque alto, forte. 14 anos, expressão de ruindade na cara. Riu de mim até não poder mais. Me fez comer bosta de cavalo, atirou mamona em mim depois que me pediu para correr por todo o terreno. Coisa ruim de moleque.
- Vem cá.
Eu chorava, pedia pra ir embora. Queria minha mãe, morta me dando à luz. Queria os braços gelados dela me abraçando forte, espantando o molecão de 14 anos de assombração.
Ninguém veio.
- Vem cá, maricas.
E fui. Desde então, me deram fama de viadinho.
- Safado sem vergonha.
Berrou uma mulher descabelada e gorda na porta de uma casa. Eu, de terno caro e rosto bonito, fingi que não era comigo.
Um grupo de caras encardidas se juntou para me seguir. Agora não cochichavam mais, pegavam pedaços de paus no caminho. Um deles tinha uma pá, outra segurava o facão na cintura. Eu parava, eles paravam. Eu seguia, eles seguiam.
- É pulha que nem o pai!
- É corajoso o cabra mesmo de vir aqui! Vê se pode.
Nem tinha entrado ainda na rua dos meninos. Parei. Não tava certo aquele povo sujo me seguindo, eles sabiam de algo. Quem falou?
Lá de longe vi aquele molecote que depois descobri que tem 13. Errei os cálculos. Deu de falar pra mãe depois de me tirar doce, brinquedo, dinheiro, tudo. Dei tudo pra ele, dei carinho. Só pedi pra ficar pertinho assim de mim. Só que ele é moleque de 13 anos, bandidinho. Me entregou.
Tem esse jeito de pequeno. Pele lisa. Cílios longos. Bochechas gordinhas, apesar da fome. Lindo, lindo, lindo de morrer. Fala baixo, quietinho até. O olho até brilha quando vê doce. Tão miúdo que se cortava fácil em casa com qualquer descuido com o brinquedo de plástico. Dava o dedo pra mim com cara de choro e eu chupava aquele dedinho tão miúdo lambuzado de açúcar. Aquele sangue quente se misturando com a gosma dos doces que ele devorava feliz, chupava até o dedo ficar branco. Eu ficava forte, feliz. Jovem de novo, bem pequeno. Tudo ficava bem.
Mas eu deixei entrar maior de 12 anos em casa.
Quando percebi a tramoia do molecão, era tarde. Todo aquele povo sujo, cheio de coisa na mão me já tava esperando pra me pegar. Só não iam por causa do meu pai. Meu pai, que nem na cidade estava. Estava longe, numa das fazendas. Vendo seus cavalos, engravidando as empregadas.
Larguei o saco de doces e saí correndo. Ficou até o chapéu pra trás.
Já tinha escapado uma vez. Só uma vez. Anos atrás, lá numas fazendas do meu pai. Estudava todos os dias pra passar em qualquer faculdade pra ir embora dessa cidade de terra vermelha e de gente suja. Do meu pai engravidando as empregadas, do retrato da mãe morta na sala e daqueles nomes que me chamavam na rua.
- Viado.
- Maricas.
- Menininha.
- Putinha.
Todos os meninos grandes me chamavam assim na rua. Eu, grande de cabeça, porém sempre pequeno de corpo, tinha que ignorar. Não me batiam porque meu pai mandou capar o meninão do terreno baldio. Foi ele quem espalhou as coisas que fez comigo. Aí virei viado, mulherzinha, maricas.
Aquela fazenda quente, sem nada pra fazer. Meu peito estourando de tanto tédio, cheio de prosa errada na cabeça, falando comigo. As vontades que brotavam no coração que davam até dor no peito. Estudava com uma mão no meio das pernas, pensando naquele menino do terreno baldio, e a outra mão nos livros. Aquele molecão forçando minha cabeça. Ruim de lembrar, mas dava uma sensação boa pensar naquilo com a mão entre as pernas. Era bom assim, depois eu estudava pro curso. Pra ir embora daquela fazenda. Do molecão andando capado pelas ruas da cidade. Ninguém mexeu mais comigo.
E aí tinha aquele pequeno circulando pela fazenda. Coisinha assim. Bonitinho, braços morenos, cabelo arruivado por causa do sol. Era daqueles “inho”. Olho verde que nem o meu, que nem o do meu pai, que nem de todo mundo da família. Ai de quem falar que era dele, do meu pai. Ninguém sabia, mas todo mundo tinha certeza. Enquanto isso o menino circulava nos pastos, ajudando na lavoura. Encardido de terra vermelha.
- Vem cá.
O menino desconfiado não ia.
- Vem cá.
Teimoso que deus te livre.
- Vem cá, comprei chocolate.
Aí o olho cresce. A barriga ronca de longe, contava nos dedos as vezes que comeu doce na vida. Só comia a mistura que davam lá na fazenda. O menino viu que seria aquilo ou nada. A fome de criança falava mais alto do que a desconfiança. Eu, todo bonito, olho verde, branco, sorrindo pro pequeno com o chocolate estendido em uma mão. Os meus livros largados no chão, esperando ele. Igual quando você mia pro gatinho chegar perto de ti.
- Vem cá, menino.
E foi. Mas chorou muito. Lambi todas aquelas lagriminhas do rostinho dele, sentindo aquele gosto de menino. Mas não parava de chorar, dei um, dois, três chocolates e não parava de chorar. Aí descobriram. Chorava demais, alto demais.
Meu pai soube logo de noite.
Mandou o menino pra outra fazenda, longe. O menino com os mesmos olhos verdes. Embora se foi. Nunca mais deve ter comido chocolate. E eu levei tanta pancada que fiquei tonto. Esqueci coisas, fiquei um mês vendo embaçado. Ouvindo pouco. Muita pancada na cabeça, nunca mais fui o mesmo. E lá se foi a faculdade. O velho proibiu tudo. Fiquei com uma casa no centro, vazia e feia. Sem criado e nem caseiro. Sozinho. Só aparecia dinheiro do meu pai no começo do mês.
Aí encontrei a rua dos meninos. A rua sem mãe e sem pai. Anos depois, circulando sozinho pela cidade. Terra vermelha que nem na fazenda. Gente suja que nem na fazenda.
Agora, estou na casa vazia. Sozinho e com a gaveta abarrotada de doces. Dois dias sem sair. Sem ver os pequenos. Eu, lendo e colocando a mão entre as pernas, pensando no molecão do terreno baldio. Choro. Choro muito. Pego as lágrimas com o dedo, lambo e choro mais. Lágrimas de velho, velho doente.
O pai nunca me deixou procurar um médico. Nunca deixou eu ir atrás de um curandeiro. Só disse que sou assim porque o parto da mãe deu errado. Matou ela e me deixou sem ar na cabeça. Sente vergonha de mim. Me chama de maricas, quer meu primo como filho. Prefere todos os bastardos que fez nas fazendas. Prefere até a morte, a pobreza, mas não me prefere nunca. Eu, doente. Bonito, mas doente. Rico, mas doente. Ninguém me falou pra tomar remédio. Ninguém falava nada quando eu pisava na rua vermelha, quando levava os pequenos pra casa. Dava refrigerante, doce, deixava ver TV. Ninguém falava nada.
Dois dias. Eu com a mão no meio das pernas pensando no terreno baldio. No menino de olhos verdes que nem os meus chorando no meu colo. Igualzinho a mim chorando no terreno baldio. Nem chocolate ganhei.
A casa agora cheira doce. Tudo derrete naquela gaveta das gostosuras. Nem ligo mais a TV. Fico só na sala agora, ouvindo o barulho lá fora. Cresce cada vez mais. Escuto as vidraças da outra sala sendo estouradas. Hoje talvez seja o dia.
Mas jogaram duas pedras na casa e nada. Isso foi ontem. Jogam e vão embora. Lembram do meu pai, do meninão que anda ainda por aí, sem volas. Aí lembram de quem sou filho e voltam, enraivecidos.
- Hoje não passa.
- Vamos matar o maricas.
- Satanás.
- Diabo.
- Mulherzinha.
Hoje jogam mais pedras. Estouram o portão, destroem o jardim. Olho pelo cantinho da janela. São vários. Perdi a conta no dez. Todos com coisas na mão, olhos vermelhos, rostos encardidos, roupas sujas de terra vermelha.
Um deles tá armado. Pela carabina, reconheço. Trabalha nas fazendas pro meu pai. Traidor. Puto. Judas.
Gritam muito. Aquelas palavras erradas, não sabem nem falar. Todos sem educação, sem dinheiro, sem terras. Todos são meus, do meu pai. Agora se revoltam todos. Era só um menino, um só. Nem machuquei, só brinquei. Talvez nem sabem dos cinco, seis que chamei pra cá.
Arrombam a porta. Aquela horda de gente feia. Quebram as coisas, tombam as prateleiras. Rasgam as cortinas, vão destruindo tudo até chegarem em mim. Encolhidinho que nem os pequenos da rua vermelha. Num canto da sala.
Capotei duro no chão na terceira paulada. Acordo amarrado, todo doído e latejando inteiro. Minha calça toda cheia de terra vermelha. Preso com cordas de sisal naquele único poste da rua dos meninos, de terra vermelha. Só que agora tinha mãe. Vizinha sem costura pra entregar. E pai.
Todos me olham, jogam coisas em mim. Alguns rezam com as mãos estendidas. A cara suja, feia. Fechada. E eu todo aberto da porrada. Sangue escorrendo da minha testa de um jeito que não dá pra lamber. Não entendo nada do que falam. As línguas enrolam, as palavras são feias, os olhos arregalados. Não entendo.
Ai vejo vindo o molecão de 13 anos. Achei que tinha 11, mas tem 13. Abriu a boca dois dias atrás. Fofoqueiro, bandidinho. Chegou perto, me olhou, olhou, olhou e apontou.
- É ele.
Muito grito, muito choro. A mãe feia do molecão abraçando o menino. Chorando muito. Apontando o dedo pra mim. Me chamando de monstro. De viado. De mulherzinha. Ninguém pensava mais no meu pai, nas fazendas nos empregos. Hoje era o dia.
Dia de receber.
E veio um pra me arregaçar. Outro me batia com o lado cego do facão. Uma fulana furou meu olho. Não conseguia nem gritar porque descia a porrada toda vez que eu abria a boca. Lá de longe, com meu olho bom, via os meninos da rua assistindo. Pareciam tristes. Sabiam que acabou os dias de ganhar doce. Televisão. Refrigerante. Os brinquedos de plástico da única loja de trecos da cidade. Será que vão sentir minha falta?
Aí jogaram a gasolina. Aí me chicotearam. Era hora. Eu ia queimar e derreter que nem aqueles doces da gaveta.
Quando acenderam o fósforo, apaguei.
Só fiquei sabendo o resto depois. Enfaixado no hospital. Sem olho e nem rosto, que foi embora com as chamas. Perna pra cima, braço engessado. Só vendo com um olho, que se safou do facão. Meu pai no canto do quarto com o trabuco preso na cintura falando com um homem todo de branco. Não me olhava.
Me salvei. Graças a deus. Obrigada senhor, misericórdia. Vou viver.
Um dos capatazes do meu pai ficou sabendo de mim e foi até a rua dos meninos impedir a desgraça. Quis jurar lealdade pra ganhar mais na fazenda. Chegou tarde, eu já tinha perdido o olho e as chamas lambiam minha pele. Matou um que não teimava em se afastar do poste e deu tempo de apagar o fogo antes que eu fosse embora de vez. Me arrastou até a caminhonete e cá estou.
Agora feio, sem olho e nem corpo. Sem doce também, porque destruíram a casa. Levaram os móveis, a televisão, os brinquedos de plástico da única lojinha de trecos da cidade. Levaram até os doces.
- Te salvaram porque você é meu filho. Não deixo ninguém desses lacaios tocar na minha família. Mas eu não te perdoo porque você é um viado. Maricas. Você é da família, mas é um desviado. Mulherzinha. Safado. Mas na minha família ninguém toca.
Os dentes amarelos do velho perto de mim. Gotas de cuspe caindo no meu rosto enfaixado. O pai é todo grande. Só olhos, boca, dentes e bigode. Não consigo olhar pra ele todo de uma vez.
O pai jogando as palavras pra cima de mim. Eu, na cama, enfaixado, sem olho. Doeu mais que o poste. Que as chamas. Doeu mais que o menino do terreno baldio. Mais que o menino da fazenda com os olhos verdes que nem os meus. Mais que os meninos da rua de terra vermelha me olhando sendo queimado.
- Vou te mandar pra bem longe daqui e não vais mais me ver. Esquece daqui e esquece dessas safadezas que faz. Que aprendeu na rua com aquele outro puto que mandei cortar as bolas. Vai e esquece de tudo daqui.
Enfaixado, sem olho e feio. Só um olho verde na cara sem pelos e nem uma sobrancelha pra contar história. Pensando naqueles pequenos lisinhos de barriga inchada, contentes, atrás de mim querendo doces.
Quem sabe pra onde eu vou tenha uma rua assim. Cheia de pequenos sem mãe e nem pai. Só eles e a terra vermelha, manchando a barra da minha calça.
