“Você gosta de Titãs?” Destrinchando o pior encontro da minha vida

Eu em 2012. Cansada, deprimida e com mais tolerância para álcool e homens ruins.

2012
Idade:
uns 21
Profissão: estagiando, mas falida
Moradia: família, mas péssimo clima
Status emocional: “será que se eu dar um baque de opiáceos vou ficar viciada?”
Vida amorosa: se um poste com fiação exposta formasse algo parecido com o cabelo do Celso Portiolli, eu beijaria

Em algum momento dessa bagunça achei que não iria pegar nada aceitar o xaveco péssimo de um músico igualmente péssimo que assola os rolês de São Paulo até os dias de hoje.

Minha amiga já tinha dado uns pegas nele e avisou que eu estava por minha conta e risco se quisesse alguma coisa sexual com o homem. Ela foi até que boazinha na descrição sobre o egoísmo e pose de macho dele. Pensei que não poderia ser TÃO ruim assim.

Era sexta ou sábado. Eu — é importante frisar que eu estava na fossa por um cara que colocava a camisa dentro da calça jeans e usava sapato social em eventos casuais — chorando e já meio alterada após uma maratona de KUWTK. Veio o tal músico péssimo me mandar qualquer porcaria pelo Facebook. Dei mole. Demorou umas três trocas de mensagens até o cara soltar um “vem aqui em casa ouvir Mark Lanegan”.

Estremeci ao visualizar a mensagem. Já era motivo o bastante pra declinar o convite. “30 minutos tô colando aí na sua casa antes que o metrô feche.”

Enfrentei ladeira, chuva e uns caras esquisitos me olhando estranho na rua.
“Vai dar certo, você vai ficar bem” disse eu para mim mesma. Estranhamente, era a mesma frase que usei na adolescência antes de abocanhar um X-tudo no Torresmo, bar da zona sul onde o dono era conhecido por cuspir nos lanches (e ter sido preso por latrocínio).

Ok, campainha. O cara me atendeu com um sorriso meio jocoso que já me secou por dentro. Jogamos conversa fora, tomamos umas cervejas. Em poucos minutos o celular dele tocou. Antes de atender, me avisou: “Sabe como é que é, é da minha banda.”

Fiz cara de séria, acenei positivo e passei 20 minutos olhando para o nada e ouvindo detalhes sobre estúdio, ensaio e qualquer dessas merdas que envolvem ter uma banda.

Ele sorria e piscava pra mim ainda pendurado naquela bosta de celular. Tive certeza que ele achava que essa tática era ótima, já que todas as meninas amam um cara de banda. Um gênio da atração. Mal sabia ele que a fase de me deslumbrar por músicos já havia terminado lá pros meus 19 anos.

Depois o que pareceu uma eternidade ele desligou o telefone. Pensei “é agora caralho, vamo transar antes que eu mude de ideia”.

Não, queria conversar. Sobre si mesmo, claro. Sobre a banda chata e o lindo gosto musical dele. Eu odiava cerca de 99% das coisas mencionadas como formadores do caráter dele. Não havia nada ali que despertasse uma faísca ou atração entre a gente. Era como se eu estivesse me forçando a ficar com um espantalho vestido como um homem de 30 e poucos anos com pouco discernimento para moda.

Mas algo dentro de mim insistia que tudo aquilo seria melhor do que ver mais uma temporada de Buffy, A Caça Vampiros e chorar por um cara cuja banda favorita é Oasis. Caralho, força que vai.

Ele não fez nenhuma pergunta sobre mim. Em duas horas de papo, Só consegui tecer um comentário ou outro sobre alguma banda. Nisso, ele se levantou. Falei em tom de brincadeira. “Você não vai pegar o violão, né?” Risos nervosos.

Ele pegou o violão.

Mesmo insistindo muitas e muitas vezes que “não precisava”, ele tocou e cantou. Duas músicas. Uma dos Titãs e outra dele. Eu odeio Titãs e a segunda música não conhecia, mas passei a odiar mais do que Titãs.

Depois do que pareceu uma segunda exibição do filme Titanic, ele parou de tocar e perguntou o que eu achei.

“Eu odeio Titãs,” respondi. Naquela hora eu já tava no foda-se.

Obviamente ele não ouviu, porque em questão de segundos ele estava perto de mim. Me beijou do jeito mais cheio de saliva e língua do mundo. Me alisou como se estivesse no ginásio. Finalmente a gente tava se pegando, mas era horrível. Que merda. Que erro.

Deveria ter ficado em casa assistindo Buffy, a Caça Vampiros.

Acabamos no quarto dele. Beijo, mão boba, tédio, língua demais. Tirei a blusa de frio.

“Epa, o que é isso?” Ele apontou pro meu braço.

“São cicatrizes”

“Mas do quê?”

“Cara, eu fiz quando era adolescente. Tá tudo bem agora, passou.”

O rosto do maluco ficou desfigurado num misto de nojo e pena.

E lá vamos nós, pensei.

Os próximos minutos que ficamos na cama foi um misto de ver ele brochando, tentando mais uma vez e brochando de novo, colocando a culpa no meu braço e tentando entender “como uma menina tão bonita” poderia fazer aquilo no braço.

Contei até dez. Ah não, eu vou embora. Chega.

Eram três e meia da manhã. Precisava esperar o metro abrir. Mas tudo bem, dormiria até no vão do MASP se necessário.

“Vou colocar mais uma música”, disse ele pegando mais um álbum de rock nacional pra colocar no aparelho estéreo.

Meu deus eu vou morrer. Me leva daqui.

“Não precisa, vou nessa.”

Ele ficou atônito com o CD na mão. Provavelmente não fazia sentido na cabeça dele alguém abandoná-lo bem na hora que colocaria algum álbum que ninguém se importa dos anos 1980.

“Como assim você vai embora?”
“Eu vou embora”
“Mas eu te fiz algo?”
“Não, eu só vou embora”
“Não faz assim, Mariezinha”

Minha vagina entrou tão pra dentro que provavelmente meu útero estava no meu pulmão esquerdo.

“Tá suave, mano. Só preciso ir.”

Ele desceu até a porta, fui atrás pensando que óbvio que me deixaria ir embora porque tudo aquilo já estava passando dos limites do constrangimento.

Ele tirou a chave da porta.

“Fica aqui”
“Ahn?”

Subiu a escada novamente e eu fui atrás.

“Por que você não abriu pra mim?”

“Vamos fazer isso valer a pena, poxa.”

Naquele segundo já imaginei as manchetes: “Jovem é morta, esquartejada e jogada no Rio Tietê. Músico falido é suspeito”. Imaginei o Datena falando que era minha culpa já que eu fui na casa dele. Fodeu, eu vou morrer. Eu vou morrer na casa de um cara que toca Titãs pras garotas que ele quer pegar.

“Não quero mais transar,” adverti na esperança de ele abrir a porta.

“Ah não, mas a gente não precisa transar, vamos conversar”

Prevendo que eu iria embora assim que dormisse, ele disse do jeito mais vitorioso que um homem que tira doce de uma criança diria: “A chave vai ficar escondida porque quero você aqui comigo.”

Era minha culpa aquilo, obviamente. Deveria ter ido embora desde o momento que ele pegou o violão.

Deitamos na cama. Ele queria saber da minha adolescência, dos meus medos e aflições. Ao mesmo tempo quando fazia uma pergunta, me interrompia para falar dos problemas dele.

Acabei quieta até ele desistir e dormir.

Ele roncava. Alto. E fez questão que se posicionar perto de mim.

Com ele dormindo, fui até o banheiro. Uma janela basculante que dava pra rua. Enfiei meu braço lá. Não dá pra sair. Pensei em quebrar a janela para fugir.

Janela da sala é possível, mas muito alta pra mim. Nenhuma chave à vista. Vasculhei na calça dele largada no chão. Nada. A porta só abria com chave mesmo. Nenhum botão interno.

Derrotada, tive que deitar na cama e olhar pra cima até às cinco da manhã.
Foi só a luz entrar no quarto dele que decidi que estava já fazendo hora extra naquele lugar. Fechei as narinas dele com os dedos até ele perder o ar. Acordou abestalhado.

“Oi minha gata.”
“Abre a porta por favor.”
“Calma, pô, deixa eu acordar.”
“É só abrir a porta que eu saio.”

Não sei se ele bateu a cabeça quando era bebê, mas pra ele aquela noite toda foi um sucesso e nós atingimos um nível de intimidade muito alto. Ele achava que minha pressa em ir embora era apenas uma tática feminina para se fazer de difícil.

Demorou quase uma hora pra ele “ficar pronto”. Eu já estava de tênis e com a bolsa na mão só esperando ele abrir a porta pra meter uma São Silvestre até o metrô.

Ele insistiu em me levar pra casa de carro. Ok vai, talvez seja uma chance de se reabilitar pela pior noite da minha existência.

Morava umas 4 estações de metrô da casa dele. Passando a primeira, ele me diz: vou te deixar aqui porque é muito longe te deixar em casa. Eu só ri porque era óbvio que ele meteria essa.

“Ok, me deixa aqui”

“Mas vamos tomar café j — ”

Fechei a porta antes do final da pergunta, já que a ideia de ver aquele mano mastigando um pão na chapa me dava náuseas.

Nunca mais vi o roqueiro falido na minha frente. Deletei ele do meu Facebook assim que cheguei em casa e jurei nunca mais fazer isso comigo de novo.

Meses depois o Tinder apareceu.

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