Consciência branca
Em se tratando de Brasil, sabemos que são muitos os desafios que temos de enfrentar para que possamos minimamente alcançar um estado de bem estar não só social, como político e econômico. No entanto, compreendo como fundamental e impreterível para tal alcance, primordialmente, a descolonização do pensamento, a síndrome de vira-lata, como é falado popularmente, para a libertação da consciência de não brancos e brancos principalmente.
Começo minhas reflexões a partir da lei 12. 519, assinada pela ex-presidente Dilma Rousseff, em 10 de novembro de 2011, na qual instituiu-se o Dia Nacional de Zumbi, um dos maiores lideres negros do Brasil, e da Consciência Negra, no dia 20 de novembro. Este mês sucinta diversas questões que dizem respeito ao racismo, discriminação, preconceito, ainda, como se sabe, muito enraizado na sociedade brasileira, contra pessoas não brancas que vivem nas favelas, nos morros e asfaltos. Além disso, coloca-se em evidência as lutas que foram travadas para a sua libertação, bem como as figuras que estavam a frente e que resistiram à colonialismo/colonialidade e a escravidão, que, consequentemente, estigmatizou, marginalizou e desumanizou populações arrancadas de sua Terra e trazidas ao Brasil. Entretanto, questiono: por que tão tardiamente se legitimou a importância do povo negro para a construção da sociedade brasileira, de modo que tivéssemos um feriado para lembrarmos? O que o governo vem fazendo para que as pessoas não brancas, e brancas também, saibam da existência de figuras como Luiz Gama, o próprio Zumbi do palmares, Ganga Zumba, Aqualtune, Dandara, Tereza de Benguela, entre outros?
Os movimentos negros, ativistas, professores, pesquisadores, educadores, historiadores, figuras públicas das diversas áreas artísticas, têm executado um trabalho expressivamente sério e perspicaz, com o objetivo de não só de disputar narrativas, memórias, com aqueles que quiseram contar o que lhes convinha ideologicamente, mas também de dar visibilidade a conhecimentos, epistemes, histórias e produções literárias, artísticas, construídas por pessoas pretas — sejam brasileiras, sejam africanas — . Em contrapartida, o governo, o Estado, tem se ausentado dessa incumbência, uma vez que não é interessante a eles fazer com que as pessoas, principalmente pretas, conheçam sua própria história, seus ancestrais, seus heróis, com os quais possam inspirar-se. Convém a eles manterem o status quo social, político, econômico e histórico, tal como se observa a partir da pesquisa das Nações Unidas em que diz que moramos em um dos países mais desiguais do mundo.
Pouco, ou melhor, pouquíssimo, por exemplo, se vê nas escolas, nas universidades, em relação ao currículo, à pedagogia, metodologia de ensino, teóricos pretos que pensaram, pesquisaram e produziram sobre tais assuntos. No que diz respeito a escritores, ainda é mínima as obras que são abordadas e estudadas, tanto em instituições públicas quanto particulares. Inclusive, a lei 10. 639/03, alterada pela lei 1.645/08, que obriga o ensino sobre História e Cultura Afro-brasileira , Africana e Indígena, assinada pelo presidente Lula, Embora esteja ainda na lei, não há órgãos responsáveis por averiguar se de fato estão cumprindo com essa. Ou seja, quem garante que estão sendo abordados tais conteúdos que são imprescindíveis à formação do cidadão brasileiro? Quanto ao número de docentes não brancos, não precisamos ir longe para concluirmos que a conta é baixa. Só atentar-se ao quadro de professores que ministram aulas em sua instituição de ensino.
O Brasil ainda é um país bastante racista. É preciso assumir isso. O Brasil ainda é um país sem consciência racial e colonizado psiquicamente. Os brancos nascem, desenvolve-se socialmente, não identificando que sua cor abarca privilégios que advém da escravidão. Enquanto isso, reforça-se aos pretos sua cor por meio do distanciamento, do recolher da bolsa, do olhar que estigmatiza e do atravessar da rua, da sua condição econômica, habitacional, mental, do seu modo de agir e também do seu modo de utilizar a língua portuguesa. A língua, esta portuguesa que herdamos dos colonizadores europeus, foi e é uma das ferramentas de exclusão, de hierarquização, de opressão e racismo.
As pessoas pretas ainda sofrem, são oprimidas, exploradas, e reproduzem preconceitos, discriminações contra eles mesmos, fazendo com detestem seu próprio cabelo, seus traços, seu corpo, sua subjetividade. São os que mais tem dificuldade de conseguir emprego, de estudarem, de ingressar em uma universidade, de cuidar de sua saúde, tanto física quanto mental, de se relacionarem amorosamente e sexualmente.
Os não pretos ainda creem no mito da democracia racial, em que os negros e brancos vivem em paz, que não há desigualdade entre raças, uma vez que o capitalismo propicia a todos direitos igualitários, basta apenas esforçar-se, a famosa e falaciosa meritocracia. É muito comodo, fácil, eu diria, falar de meritocracia quando se é oriundo de uma família que, por ter patrimônios, propriedades particulares, bens materiais, herdados, nunca teve que migrar para outro Estado para obter uma vida melhor, proporcionou estudar nas melhores escolas, com excelentes condições de aprendizagem e lazer, sem se preocupar com o que tem na geladeira ou com o que vai comer amanhã.
Só conseguiremos construir consciências se, primeiro, tivermos um governo interessado em descolonizar as mentes, os sistemas, que nos distanciam, fazem-nos competir ao invés de colaborar, a partir da educação, e em finalizar de uma vez por todas o status quo, os privilégios, que usufruem os brancos atualmente. Não basta apenas termos um feriado para lembrar das diversas contribuições que a população preta, a duras penas, conquistou. É preciso combater o racismo e qualquer espécie de discriminação. É necessário investirmos em projetos que corroborem para uma educação antirracista, com escritores, pesquisadores, historiadores, sociólogos, filósofos pretos e pretas, como protagonistas, não coadjuvantes. Segundo, dar voz a pensadores que trabalham com questões raciais, à profissionais que fazem reflexões e ações no âmbito das políticas públicas, segurança, cultura e, principalmente, saúde. É urgente. Pois, mais uma vez, o povo preto está sendo dizimado e estão normalizando o que deveriam estar se rebelando contra.
A descolonização é uma luta geral contra o sistema, capitalista, imperialista, a colonialidade, racismo, e a cultura, parafraseando Amílcar Cabral, por sua vez, é um elemento de resistência à dominação estrangeira e é a manifestação, intervenção, no plano ideológico ou idealista da realidade física e histórica de uma sociedade dominada/colonizada. O transgredir para a liberdade tem que ser uma das práticas das sociedades atuais.

