Informalidade, produtividade e mais valia: um debate circunscrito a reestruturação produtiva toyotista?

Uma questão que pode deixar qualquer um louco, e que pode arregimentar exércitos furiosos dentro e fora de projetos sociais, que preconizam as mais diferentes matizes ideológicas, é o debate sobre a produtividade do setor de serviços contemporâneo. O pano de fundo desse debate me parece ser o fato de que partidários de teses que defenderiam a “derrota” da teoria valor trabalho, afinal, o setor produtivo, enquanto divisão entre produção primária, secundária e terciária, como já se sabe, segue inferior em peso e volume de movimentação econômica ante a hiper valorização do setor de prestação de serviços e comércio.
Obviamente que não pretendo aqui explorar esse debate com rigor científico, e método acadêmico. Trata-se tão somente de um comentário, de uma inquietação dentre os meus estudos de construção da tese, e portanto, tem caráter puramente de registro dessa polêmica, para uma abordagem e aprofundamento posterior.
O questionamento sobre o teoria valor trabalho, tem raízes derivadas não apenas em teses como a do “fim da história”, e a vitória auto-proclamatória do capitalismo enquanto única saída humana, mas também como forma de elencar a redução da importância do trabalho produtivo direto humano (de maneira generalizada como compreendida por Marx, ou seja, a partir da transformação material da natureza) na produção de riquezas.
Por outro lado, hordas de marxistas têm historicamente se digladiado em torno do debate acerca da produtividade do trabalho na contemporaneidade. Um debate nada fácil, e que a grosso modo está subdividido entre os que apontam que o trabalhador atrás de um computador, operando a distância, é tão produtivo quanto o mineiro, que buscou nas entranhas da terra os componentes eletromagnéticos do computador deste outro trabalhador que opera a contabilidade da empresa a partir de uma sala refrigerada.
Uma questão complicada de simplesmente opinar, sem dedicar muitas páginas, pois se posicionar aqui é se expor a um exame criterioso de leitores com dados empíricos e argumentos localizados dentro e fora do campo teórico crítico, ou seja, sob artilharia pesada de muitos flancos.
Obviamente que o trabalho não pode ser considerado “o mesmo” que no período iniciais da revolução industrial pressupunha a troca direta e o desgaste entre homem e natureza; até porque o desenvolvimento de maquinário e avanço da robótica e das telecomunicações eliminou essa necessidade de forma implícita.
Existe também a relação de mundialização produtiva, que complexificou a cadeia produtiva, e que uma vez beneficiada pela modernização dos transportes aéreo conectou ainda mais o pontos de fornecimento de insumo e de transformação e montagem de mercadorias.
Orbita nesse debate, de maneira central, a extração de mais valia para se avaliar a produtividade ou não do trabalho no setor de serviço e comércio. A questão no entanto, e sob o meu ponto de análise, não pode ser compreendida como uma generalização do trabalho como produtivo, independente da troca de energia e matéria, igualando funções exercidas pela classe trabalhadora como forma a contabilizar tudo como trabalho produtivo, pois existem questões importante que demarcam essa opção como uma saída que pode turvar diferenciações importantes, e que historicamente, mesmo dentro do campo marxista, tiveram pouco destaque.
Compreendo que a organização política dos setores ligado a produção é diretamente relacionado a capacidade de mudar a realidade vivenciada por toda a sociedade, entretanto, ao se perceber que o caráter informal do trabalho atual, compreender a classe trabalhadora como operadora do trabalho por definição pode nublar a compreensão de que mesmo nesse cenário hiper moderno, constituído por relações virtuais, resiste o debate sobre o direito e o acesso ao trabalho, que sim, se encontra diversificado, e espraiado dentre as camadas de uma produtividade fluida, “globalizada” e robotizada.
Entretanto, nesse tempo em que tanto se debate a “desindustrialização”, uma questão que acredito ser importante, e que deve ser melhor abordada, é que esse processo está vinculado ao que observo como uma “industrialização dos corpos”, ou seja, a medida em que as indústria de transformação vem sendo desmobilizada, massas de trabalhadores estão sendo inseridas na produção a partir de relações industriais que inserem a partir do trabalho domiciliar, informal, e cada vez mais precarizada uma produção de etapas da cadeia de valor.
Há também que ressaltar-se que existem dentro dessa forma de produção, subdivisões que recebem ainda pouca contextualização, e que dentro da já ultrapassada visão entre setores primário, secundário e terciário fica solto sem uma localização do trabalho feminino, e do trabalho de negros e negras.
Em resumo, o trabalho contemporâneo, e suas transformações precisam ser analisadas a partir de suas atualidade inseridas ao debate tecnológico, entretanto, deve existir um maior cuidado quanto a localização desse trabalho e desse trabalhador dentro do seu componente da cadeia global de valor deve incorporar o debate sobre local de trabalho, gênero, raça/etnia.
