‘Queremos ser a maior potência de novo’, diz vice de olímpicos do Fla

Jonas Moura — 02/06/2015–08:02 Rio de Janeiro (RJ)

Alexandre Póvoa posa com Arnon de Mello, diretor da NBA no Brasil (Foto: Alexandre Loureiro / Inovafoto)

O ciclo que começou ao final dos Jogos de Londres, em 2012, e vai se encerrar após a Rio-2016 tem tudo para marcar o resgate do sucesso do Flamengo nos esportes olímpicos. Pelo menos essa é a expectativa do vice-presidente do clube responsável pelo setor, o carioca Alexandre Póvoa, de 46 anos.

Enquanto o basquete rubro-negro, que no sábado se tornou o maior campeão do NBB, com quatro conquistas, aparece como carro-chefe de um ambicioso projeto da diretoria de Eduardo Bandeira de Mello, outras modalidades começam a tomar conta da fatia de investimentos. Segundo Póvoa, sem que isso retire mais nenhum centavo do orçamento do futebol.

No dia 4 de março de 2015, o clube declarou a “independência de todos os esportes olímpicos”. A frase de efeito significava que modalidades como basquete, vôlei, natação e ginástica artística teriam condições de serem mantidas por patrocínios, parcerias e convênios.

Pela Lei de Incentivo ao Esporte, o Fla vem realizando uma série de reformas nas estruturas da sede localizada na Gávea, na Zona Sul. O próximo objetivo é resolver o impasse da nova arena multiuso, que depende de liberação de laudos da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-Rio).

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O projeto estabelece que o McDonald’s, responsável pela construção, terá direito a explorar a área, o que pode impactar no trânsito conturbado da região. O clube diz ter cumprido as exigências e alterado duas vezes o texto.

Em apelo constante ao prefeito Eduardo Paes para solucionar o problema, Póvoa acredita que o Fla poderá se tornar a maior potência olímpica do Brasil, ainda que projete a conclusão do empreendimento da arena, estimado em R$ 25 milhões, só depois dos Jogos de 2016.

Confira a entrevista exclusiva de Alexandre Póvoa ao LANCE!:

LANCE!: Que balanço você faz da gestão dos esportes olímpicos de um modo geral desde que a nova diretoria assumiu, em 2012?
Alexandre Póvoa: O Flamengo é o único clube de futebol do Brasil que se manteve multiesportivo, com muito sacrifício no passado. Mas antes o dinheiro saía do futebol para o esporte olímpico. Essa situação criava uma divergência grande no clube. Havia quem fosse contra. Era uma briga entre olímpicos e futebol. Então, nossa gestão decidiu reverter um círculo vicioso em um virtuoso.

LANCE!: Qual foi o caminho para se chegar ao quadro atual?
Alexandre Póvoa: No momento em que conseguimos as Certidões Negativas de Débito (CNDs), objetivo que nos propusemos a alcançar, voltamos a ter acesso à Lei de Incentivo e retomamos a credibilidade para termos patrocínios privados. Assumimos em situação muito complicada, com um déficit em torno de R$ 17 milhões no esporte olímpico, porque o dinheiro saía do futebol para o esporte olímpico, com maior parte para o basquete e uma fatia considerável para a natação. Digo que fomos obrigados a dar um passo atrás para depois darmos dois à frente.

L!: Mas, para isso, foi preciso dispensar atletas profissionais, ainda que as categorias de base tenham sido mantidas…
A.P: Não acabamos com nenhum esporte. Dispensamos atletas em algumas modalidades nas quais não poderíamos pagá-los, casos de natação, judô e ginástica artística. O basquete estava no meio da temporada. Não podíamos fazer nada. Começamos o processo de correr atrás de CNDs, Lei de Incentivo e patrocínios privados. Em 2013, reduzimos o déficit de R$ 17 milhões para R$ 7 milhões, R$ 8 milhões e, em março deste ano, finalmente pudemos dizer que os esportes olímpicos do Fla estão 100% autossustentáveis.

L!: Qual é a situação do orçamento dos esportes olímpicos hoje?
A.P: Graças a acordos com os Comitês Olímpicos dos Estados Unidos, da Inglaterra e do Brasil, praticamente dobramos o orçamento. Este ano, temos algo em torno de R$ 35 milhões, sendo que R$ 10 milhões estão sendo investidos em reformas de ginásios e piscinas, por exemplo. Dos R$ 25 milhões restantes, em torno de R$ 9 milhões a R$ 10 milhões estão ligados ao basquete. É o carro-chefe, foi o que deu certo mais rápido. Servirá de modelo para os outros esportes.

L!: Qual é o próximo passo?
A.P: Hoje, diria que atingimos nosso objetivo de sustentar os esportes olímpicos. Agora, temos de olhar para frente para voltarmos a ter equipes de ponta. O basquete nós já conseguimos. Vamos tentar agora voltar para vôlei, natação e ginástica artística. A ideia é aumentarmos o orçamento. E queremos aproveitar o ciclo olímpico para reformar a Gávea inteira. Já tivemos o Hélio Maurício e o Kanela reformados. O ginásio da ginástica artística tem tudo para ser o mais moderno do Brasil na modalidade.

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L!: Como fica a divisão do orçamento com o time de vôlei?
A.P: O vôlei nós conseguimos a vaga na Superliga, mas não confirmamos presença, pois ainda estamos em busca de patrocínio. Passaríamos de R$ 25 milhões para algo em torno de R$ 30 milhões no primeiro ano, para um início de projeto. Fora o basquete, aos outros esportes caberiam R$ 15 milhões. Com as reformas, a tendência é conseguirmos nossos investimentos em equipes de ponta nestas modalidades. Não adianta viver naquela ilusão que o Flamengo vivia antigamente de que poderíamos ter equipes de ponta financiadas pelo futebol, mas sem lugar para treinar. Tínhamos o Cesar Cielo, um cara espetacular, sem lugar para treinar. Quando pegou fogo o ginásio da ginástica, em 2012, os irmãos Hypolito (Diego e Daniele) não tinham aonde treinar. Era uma situação ilusória e muito ruim para todo o clube.

L!: Quanto vale uma equipe de ponta de basquete em compração com uma de vôlei hoje em dia?
A.P: Enquanto gastamos R$ 9 milhões em um time de ponta de basquete, no vôlei, como comparação, ele fica em torno de R$ 15 milhões. Isso comparando campeão com campeão.

L!: Como está a negociação para a construção da nova arena? O que falta para sair do papel?
A.P: É até difícil falar. O Flamengo está fazendo a parte dele. É o atual tricampeão do NBB. Continuaremos a investir este ano. Temos um projeto de arena em torno de R$ 25 milhões para fazer do zero e temos patrocínio privado. Essa arena não depende de dinheiro público. Agora, esperamos a autorização da prefeitura e de órgãos governamentais. Infelizmente, está demorando. Já fizemos todos os apelos há mais de seis meses. Talvez os órgãos públicos não estejam fazendo a parte deles. O Flamengo não quer fazer nada ilegal. Já realizamos dois ajustes no projeto por exigências que são normais, de altura, de distância da rua. Acho que qualquer país do mundo que tivesse uma Olimpíada dentro de um ano e dois, três meses teria aprovado em uma velocidade muito maior, ainda mais porque não tem dinheiro público. Mas estamos esperando uma solução.

L!: O prazo de inauguração do espaço, previsto no projeto inicial, era final de 2015. Qual é a perspectiva atualmente?
A.P: O projeto está na prefeitura. Saiu do IPHAN (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) aprovado e aguarda autorização do urbanismo na CET-Rio, por causa da questão do trânsito. Teremos na Olimpíada provavelmente o metrô a duas quadras da Gávea, então não vejo problema em relação a tráfego. Não dá mais tempo de ficar pronto antes dos Jogos. Queríamos que servisse de local de treinamentos para o Comitê Olímpico dos Estados Unidos e de outros países, mas não deu. Há tanta falta de ginásio no Rio. Pena que não foi visto com essa prioridade. Espero que seja aprovado pelo menos até a metade de 2015 para ficar pronto no segundo semestre de 2016. Quem sabe no NBB-9 e na Superliga 2016/2017 já tenhamos esse ginásio pronto…

L!: A falta de uma casa incomoda?
A.P: Sofremos bastante esse ano com isso. Não só nós, mas o Rexona-Ades, no vôlei. Talvez eles tenham tido mais sorte de a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) ser um pouco mais condescendente e compreensiva e não tomaram W.O., como nós (o Ginásio do Tijuca Tênis Clube foi fechado por falta de laudos de segurança durante algumas rodadas do NBB). O Flamengo gera um foco de atenção. O Tijuca nos recebe de braços abertos, mas gostaríamos de ter um ginásio de alto nível. Não só para o Flamengo, mas para o Rexona e outras seleções que venham jogar no Rio. Temos um ginásio pequeno, com 1.500 lugares. Tem o Maracanãzinho, com 10 mil lugares, e a Arena da Barra, com 15 mil. A arena terá 4 mil lugares.

L!: O que é mais importante: ter equipes de ponta neste momento ou pensar na formação de base?
A.P: Troco mil atletas nossos na Rio-2016 por ter o Fla pronto ao fim da Olimpíada em termos de estrutura, know-how e retorno na formação da base. Em 2024, queremos ter atletas de alto nível. Queremos ser a maior potência olímpica deste país de novo.

Fla vai ‘torcer’ pelos EUA nos Jogos Rio-2016

O projeto de parceria entre o Flamengo e o Comitê Olímpico dos Estados Unidos (USOC) é estimado em U$ 1,5 milhão (R$ 4,7 milhões). Uma das ideias do acordo é incentivar os rubro-negros a torcerem pelas equipes americanas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, no ano que vem.

– Tentaremos convencer a torcida rubro-negra a apoiar os Estados Unidos, como uma segunda equipe depois do Brasil — afirmou Alexandre Póvoa.

Um contrato entre as partes já existia quando a atual diretoria assumiu, no final de 2012, mas foi remodelado em 2013, já que os dirigentes o consideraram insatisfatório.

– Queríamos investimento no clube, pois faltava dinheiro, e troca de know-how. Eles queriam treinar em um local que concentrasse o máximo de esportes possível e que fosse privilegiado, perto da Barra e do Maracanãzinho, lugar central como poucos, e contar com o apoio da torcida do Flamengo — disse.

O clube tem ainda uma parceria com o Comitê Olímpico Britânico voltada para o remo. O acordo prevê o fornecimento de equipamentos em troca da vinda dos ingleses.

QUEM É ELE:

Nome
Alexandre Póvoa

Idade
46 anos

Altura
1,91m

Local de nascimento
Rio de Janeiro

Cargo
Vice-presidente de esportes olímpicos do Flamengo desde 2012

Currículo
Economista pela UFRJ, tem MBA pela Stern School of Business da New York University. Foi atleta laureado de basquete do Flamengo entre os anos de 1984 e 1995. No período, conquistou cinco vezes o Campeonato Carioca e duas vezes o Campeonato Brasileiro. Atuou nas posições de ala e pivô

O FLAMENGO NOS ESPORTES OLÍMPICOS:

Basquete
Maior campeão do NBB, com quatro títulos, o time é carro-chefe dos olímpicos do Fla. O investimento, que vem de patrocínios de Sky, Faculdade Estácio de Sá e do Governo do Estado do Rio de Janeiro, é estimado em R$ 9 milhões.

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Vôlei
Campeão brasileiro em 1978 e 1980 no feminino, o Fla promete voltar em alto nível à modalidade. A participação na próxima Superliga Masculina já foi aprovada, e o clube firmou parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Agora, busca patrocínios.

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Ginástica Artística
Em novembro de 2012, o ginásio Cláudio Coutinho, utilizado pelas equipes da modalidade, pegou fogo. Nomes como Diego e Daniele Hypolito ficaram sem local para treinos. Atualmente, ele passa por reformas. O clube conta com a jovem Rebeca Andrade, prata na etapa de São Paulo da Copa do Mundo deste ano.

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Natação
No final de 2012, atletas de ponta, como Cesar Cielo, Nicholas Santos, Leonardo de Deus e Joanna Maranhão não tiveram contratos renovados por falta de estrutura e de dinheiro para pagar salários. O clube teve a piscina reprovada por engenheiros. Uma nova vem sendo construída, estimada em R$ 4 milhões, por meio de recursos da Lei de Incentivo e de um convênio com a Confederação Brasileira de Clubes (CBC).
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Outros
O Fla também projeta ampliar investimentos em esportes como judô, nado sincronizado, remo, polo aquático e futsal (este não olímpico).
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Lei de Incentivo
A Lei de Incentivo ao Esporte, cujo benefício fiscal é sobre o Imposto de Renda, permite que qualquer pessoa física destine parte de seu imposto (a pagar ou a restituir) para projetos esportivos e paradesportivos aprovados pelo Ministério do Esporte. O contribuinte tem 100% de abatimento sobre o limite de até 6% do seu imposto devido.
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Anjo da Guarda
Em 2014, o programa de arrecadação fiscal conseguiu R$ 1,1 milhões, com apoio de 736 contribuintes.


Originally published at www.lancenet.com.br.

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