Pedofilia: a desordem mental e o abuso sexual

“NEM TODO ABUSADOR É UM PEDÓFILO E NEM TODO PEDÓFILO É ABUSADOR”

Em pleno século XXI, já na segunda década, e ainda ocorrem abusos sexuais de crianças e adolescentes pelo mundo? A realidade é que esses abusos, conhecidos como pedofilia, são considerados atos de desordem mental pela Organização Mundial de Saúde (OMG) e, portanto, não significa, necessariamente, que com o passar do tempo e o desenvolvimento da raça humana isso tenda a diminuir ou acabar. Pelo contrário, no contexto atual, onde cada vez mais pessoas têm acesso à internet, mais casos são noticiados e o cuidado em relação às crianças deve ser dobrado, principalmente quanto ao uso de computadores.

A Delegada-operacional do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente (Nucria), Sabrina Barreiros Alexandrino, contou que os crimes que realmente tiveram um aumento notável foram aqueles que ocorrem no mundo virtual, nas redes sociais, principalmente. Para ela, houve uma disseminação do que são atos de pedofilia por parte de veículos de comunicação, tanto na televisão quanto na internet, e isso, junto com os vários canais de denúncias que se tem hoje, acarretou num maior número de crimes para serem tratados, mas não que antes esses crimes já não ocorressem na mesma quantidade. “Não sei se houve um aumento de casos. O que está havendo é uma maior comunicação perante a polícia. Talvez já houvesse a mesma quantidade de casos, mas sem chegar ao conhecimento da policia”, disse.

O Criminoso e o trauma

A delegada falou que não há nenhum artigo da lei que diga o que é pedofilia. O que existe, na realidade, são condutas que se enquadram com o quadro da pedofilia. E o verdadeiro pedófilo seria aquele que só tem atração sexual por crianças. “O fato de uma pessoa fotografar uma criança em poses pornográficas se enquadra nos crimes de combate a pedofilia, mas essa pessoa pode ser considerada pedófila se o comportamento dela for de gostar de ter relação sexual com criança. Aqui nós percebemos que muitas pessoas tem esse impulso só com crianças, esse é o pedófilo”, explicou.

O psicólogo Sergio Artur M. Ferreira Filho, que atua no NUCRIA, disse existir uma diferenciação entre uma pessoa que pode ser classificada, definitivamente, como pedófila e outra que apenas cometeu um ato compatível com o quadro de pedofilia.

“Nem todo abusador é um pedófilo e nem todo pedófilo é abusador. Existem abusadores ocasionais: o cara bebeu, pintou uma chance e ele abusou. Mas, infelizmente, a maioria são pais, padrastos, tios e avós e que abusam de maneira perene”.

Ele contou também que os pedófilos costumam ser gentis com as crianças, dando balas, brincando, cuidando delas e sempre estando à disposição para fazer favores aos adultos. Dessa maneira, ganham confiança e conseguem acesso à criança e ao seu ambiente doméstico. “Fica mais fácil o pedófilo entrar numa casa em que ele aspira confiança, que todo mundo gosta dele. Mas não é porque você tem um vizinho que gosta de criança que esse vizinho é um pedófilo. Não é porque a pessoa se dispõe a te ajudar, a pegar a criança ou a ficar com a criança que ela seja um pedófilo”, contrapôs.

A polícia civil dá o primeiro atendimento às vitimas visando não traumatiza-las ainda mais. Na hora de ouvir as declarações para por no inquérito policial elas são encaminhadas para conversar com um psicólogo especializado, normalmente um especialista de terapia infantil, e ele, por sua vez, irá pedir para que a criança conte pelo que passou com desenhos, através de bonecos, tudo da maneira mais suave possível.

Indícios de abuso e precauções

Antes de apresentar as características de uma criança vítima de abuso sexual, o psicólogo da Nucria faz a ressalva de que mesmo apresentando esses sintomas, não significa, necessariamente, que o abuso tenha realmente ocorrido. Segundo ele, a criança pode voltar a “fazer xixi ou coco, pode ter alteração alimentar e alteração no sono. Dormia muito bem e aí começa a ter pesadelos seguidos. Começa a ter medo de adultos que ela não tinha. Por exemplo, se o abusador for um homem, ela passa a ter medo de homens”, declarou.

A supervisora de televendas Andréia Kummer, 27, alega controlar os seus filhos no uso da internet. Ela tem um menino de oito anos e uma menina de sete, e esse cuidado seria, portanto, uma maneira de se precaver de abusadores “digitais”. “Eles têm acesso à internet, mas com controle. Eu deixo meus filhos usarem o computador uma hora por dia, aproximadamente, e no final de semana eu deixo usarem um pouquinho mais, mas tudo com monitoramento. Eles não ficam sozinhos com o computador em lugares reservados”, relatou.

Para Andréia, porém, não há necessidade ainda de falar sobre sexo com seus filhos já que nenhum deles nunca fez questionamento algum sobre o assunto e esse tema é apontado pela Delegada Sabrina Barreiros como uma das maneiras mais eficazes de evitar esse tipo de problema. “Através da Internet, TV ou revista, a criança, de qualquer forma, vai se informar a respeito daquilo (sexo). Então, antes a família sentar com ela e conversar, expor os perigos que existem sobre isso, do que ela descobrir de outra forma, de uma forma trágica”, ressaltou.

De acordo com a Delegada Operacional do Nucria, pais, padrastos, irmãos e vizinhos são, nesta ordem, aqueles que mais cometem atos de pedofilia. 2014