Sentei naquele banco do metrô

Aquele do fundo que dava pra te beijar e admirar a cidade.

Saturday Night Fever (Os Embalos de Sábado a Noite) — 1977

Eram oito da manhã, meu bom humor não existia. Eu havia acordado as sete a finco e dormido as três. Nenhum ser humano funciona bem nessas condições, mas naquele dia eu havia batido meu recorde. Um destaque pro frio que arrebatava a estação juntamente com a paciência de todas as pessoas que esperavam o mesmo que eu. Nunca gostei de conduções, acho que a aglomeração sempre me causa uma sensação estranha, porem isso diminui um pouco quando acabo me recordando que as minhas melhores histórias vieram de dentro de um ônibus ou metrô. Inclusive parte da “nossa” história

Quando finalmente ele chega, as portas se abrem e todos seguem a mesma rotina, quem quer sair luta pra entrar e quem quer entrar se apressa pra sair. As pessoas não entenderam como isso realmente funciona então a sobrevivência acaba por falar mais alto, empurro uma ou duas pessoas para entrar e conseguir sentar perto da porta. Cancelado, lugar perto da porta ocupado então me dirijo até o fundo pra procurar algum lugar vago.

Eu nem sei porque me lembro disso

Mas alguma coisa muito familiar havia acontecido naquele lugar, uma coisa que me arrepiou a espinha, gelou meu estômago. Podia até mesmo jurar que se virasse para o lado veria você perto do meu rosto, sorriso de canto, perguntando o que eu estava pensando. Era aquele lugar? Eu depois de um ano havia mesmo sentado no lugar onde tive o primeiro vislumbre de que te amava? Desacreditei por um tempo, levei duas estações pra lembrar de como tinha sido aquele dia. Pra minha tristeza havia sido maravilhoso, como a maioria deles havia sido durante um bom tempo com você.

Me lembro de ter deitado no teu ombro, levemente sentindo a sua temperatura, o cheiro do seu cabelo, o tom da sua voz me explicando a musica que me mostrava dividindo o fone comigo. Sabia que eu já conhecia aquela canção? Eu podia ter dito, mas se tivesse o feito acabaria perdendo a sua incrível explicação de como aquela melodia significava muito pra você.

Como era possivel alguém fazer um trajeto de 40 minutos se tornar apenas instantes apenas com uma conversa boa e alguns sorrisos? Mais duas estações se passaram e eu lembrei que havia tirado uma foto do nossos pés se apoiando na parede do vagão. Lembro de estar com all star branco do lado do seu tênis de corrida seguido da sua tatuagem de tornozelo que eu sempre disse que era linda. Sorria todas as vezes que olhava para aquela foto e lembrava como o dia tinha sido inteiramente sobre você.

(Eu não estava sorrindo no dia que tive que excluir essa foto)

Na estação seguinte, que inclusive tem o seu nome nela, recostei minha cabeça no vidro, vi a imensidão da cidade passando rapidamente assim como a vida de todos que moravam nela. Quando passávamos por essa estação eu sempre te abraçava mais forte, talvez você não saiba, mas era meu cérebro me lembrando que eram somente mais duas paradas até te ver da janela do meu ônibus. Arrancando pra ir embora, somente o corpo vazio e sozinho seguia enquanto todo o resto, todo o sentimento, toda a angustia de te ver na próxima semana, tudo isso ficava com você até que eu voltasse pra ter de novo.

Na ultima estação

Eu quase não me levantei, quase fiquei na ultima parada até que alguém viesse e interrompesse o meu segundo de nostalgia. Era um dos poucos momentos depois de muito tempo que eu consegui me lembrar de você e sentir de novo como havia sido bom e intenso, tudo isso sem nenhuma pitada de mágoa. Apenas o vislumbre da sua passiva agressão me segurando de encontro ao seu peito. Forte, convicto, mostrando sem medo que naquele momento eu também te feria por estar indo embora.

Me levantei devagar, atravessei a porta e dei uma ultima olhada no lugar onde eu deixei registrado um começo de uma história conturbada que por mais que eu odeie admitir seja uma parte importante de tudo que eu sou agora. Vai saber quantas outras histórias aquele lugar carrega, quantos casais apaixonados jã se sentaram naquela mesma posição, quantos deles terminaram naquele canto escuro de fundo de metrô. Quantos deles se beijaram intensamente enquanto o trem rodava nos horários em que ele estava completamente vazio, e como eu queria que ele estivesse vazio quando estávamos nele pra poder me despedir do seu beijo da forma que merecia.

Deixei a estação naquele dia por necessidade de pegar o outro ônibus pra ir pra casa. Enquanto você, talvez eu tenha deixado pra trás apenas pela pura e dolorosa falta de opção em que me deixaste. Me mantenho calmo e preparado para o que tem pela frente, afinal, se tem uma coisa que eu sei é que a vida segue e o metrô também.

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