Sobre o dia mais chuvoso de todos

Jonatan Rezende
Nov 24, 2016 · 3 min read

Onde a melancolia toma forma de água.

Her — 2013

Começamos pela manhã chuvosa, anunciando que todos os raios de sol tiraram ferias por tempo indeterminado. Sinto os primeiros flashes de raciocínio vindo em minha direção enquanto me esforço mentalmente para sair da cama. Levanto com a cabeça pesada e olhos ainda semi-serrados pelo sono. Conto os passos até chegar ao banheiro e me assusto com o ser que encara o espelho. Quase humano, um misto de estresse e esperança num rosto que eu vi mudar e muito nos últimos tempos.

Não posso reclamar da vida, não tenho tempo pra me queixar e muito menos pra pensar no que deu errado, e acredite, poderia gastar o post inteiro listando isso. Pego uma camisa qualquer, calço as mesmas botas de sempre. Suspiro três vezes antes de sair para a rua e encarar o mundo. Tarefa difícil quando se tem um dia chuvoso despencando sobre a sua cabeça sem a mínima apatia pelo fato de estar indo andando para o trabalho.

Eu sempre estou atrasado

Acho que é quase uma marca própria, sempre correndo, sempre sem tempo e sempre com pressa pra compromissos que já deviam ter sido feitos. Andando pela cidade feito um louco me deparo com a chuva, provavelmente a pancada mais sublime e mais reveladora de toda a minha vida. Parei por um instante, no meio da rua, o sinal fechado e o barulho abafado dos roncos de motores em meio ao murmurio da vida urbana. Senti por alguns instantes a chuva que caia sobre meu moletom, encharcava meus cabelos e escorria por entre meus dedos. Parado no meio de tudo observando cada passo de cada pessoa a minha volta.

Talvez a rotina tenha nos cegado, talvez o ritmo louco da cidade tenha trago uma nuvem de chuva eterna sobre a nossa cabeça. Tão denso, tão trágico que nos impossibilita de ver a verdadeira chuva que nos cerca. Rotinas tão corridas, uma luta sem escrúpulos em empregos que muitas vezes não queremos. Passamos sem dar bom dia, esbarramos sem pedir desculpas, agredimos sem palavras somente com a nossa existência. Passamos pelo mundo que vivemos tão vagamente e no leito de morte nos desejamos mais tempo para gastar futilmente.

Interrompendo meu deslumbre momentâneo sobre o bruto sistema eu continuo andando ainda abalado pelo momento, olhando os rostos de cada um que passa, tentando imaginar vidas para aquelas pessoas. Talvez no final das contas eu não seja tão atrasado assim. Pode ser que o mundo me obrigue a andar tão rápido, me obrigue a desafiar o tempo natural do ciclo da terra para me adequar a uma rotina que eu não pedi.

Vivemos numa geração de pessoas atrasadas.

Cada um com seu atraso, sua prioridade e seu numero. Somos registrados aos montes, tiramos documentos, cartões, fotos para identificação. Tantos papeis que a nossa verdadeira essência fica perdida no emaranhado de informações que fizeram pensar que precisamos. Não temos mais cuidado, simplesmente passamos pela chuva rapidamente, escondendo os rostos com medo da coisa mais natural que existe.

Se nos escondemos da chuva, nos escondemos das pessoas. Não reparamos em que senta ao nosso lado no ônibus e não lembramos o nome do taxista. Esquecemos de agradecer ao garoto que embala as nossas compras e nunca damos bom dia ao trocador. Voltamos para as nossas casas com a sensação de dever cumprido, mas com um pesar em ter que voltar para a mesma rotina de atrasos, dia após dia. Acordamos cansados e nos preparamos antes de sair da cama para o dia que se segue. Nos matamos aos poucos em um mundo de atrasos em que você e eu lutamos para que o nosso dia tenha 26 horas e ainda assim não é tempo o bastante para fazer o que (achamos que) precisamos.

Reclamamos da chuva ao invés de admirá-la, reclamamos da vida e nem nos damos ao luxo de vive-la. E assim a vida urbana segue e somos engolidos sem perceber que a água que cai do céu é no final a unica coisa certa e natural no meio desse caos.

Jonatan Rezende

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Talvez eu fale sobre musica, talvez eu fale sobre cinema. Talvez eu misture tudo e fale sobre literatura também.