A Traça

Para Edilson Pereira

O senhor Borges, já quase cego, escrevia — em sua biblioteca pessoal — para não-sei-qual-Beatriz. Tomado pelo desejo de ser quem era, o velho — com um quê de dificuldade — se levantou para buscar em uma das suas estantes um tomo da Divina Comédia, em uma tradução alemã guardada por ele há anos.

O livro, um presente benigno do amigo Macedônio, era pouco mais antigo que a sua edição preferida, no entanto, as ilustrações (35 águas-fortes) daquela perfeita versão a transformava em uma obra de arte. O afeto do senhor Borges por aquela específica impressão de Dante fez com que recusasse, um tanto constrangido é verdade, um pedido de empréstimo de Bioy Casares, que contrariado e enciumado, se calou diante da peremptória negação.

Enquanto circulava entre as estantes, Borges imaginou — e gostava de se imaginar assim — perdido entre miríades de livros. Ele pensava em câmaras hexagonais repletas de obras de todo o mundo. Os livros do mundo todo estariam ao alcance de suas trêmulas mãos.

Quando despertou daquele daydream já estava com a edição de a Divina Comédia consigo. O senhor Borges queria usar versos do Paraíso em sua carta. Ele chegou a refletir em como assinaria: Virgílio ou J.L.B. Mas somente quando se sentou novamente para terminar o que havia começado a escrever é que se deu conta de que o livro — com capa dura de couro — estava corroído por uma traça.

O buraco esculpido por aquele pequeno demônio era milimétrico em seu diâmetro, porém consumia cada uma das páginas. Borges folheou em busca de alguma folha intacta. O revés foi notório: a traça havia devorada cada página com um rigor artístico. Um pingo de tinta caiu sobre a mesa, o velho escritor limpou a diminuta sujeira com a manga do paletó preto e o líquido se camuflou no tecido rapidamente.

Nesse instante, em uma fração ínfima de tempo, Borges foi atraído a olhar para o buraco. No mesmo momento a raiva de ver o livro comido pelo inseto se desmantelou e, com a visão reduzida, olhou para dentro do furo. Borges trouxe o livro tão perto do rosto que podia sentir o frio do couro na pele.

O buraco, antes milimétrico, se revelou imenso. Dentro daquele ponto estariam todos os outros pontos que compunham o universo. As cores vibravam em seus olhos e Borges sentia como se a cegueira o houvesse abandonado. Inebriado pela descoberta, o velho colocou o livro novamente sobre a mesa, trouxe a bengala para perto de si e apoiou as duas mãos sobre ela.

Quieto e sozinho, Borges sabia exatamente o que tinha encontrado.


A Traça faz parte do livro O Estados das Coisas.
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