O Mal da crônica

Steven Depolo. Creative Commons.

Anos atrás era mais que comum alguém dizer: escrevo uns poeminhas para passar o tempo. E jorravam no nosso colo pilhas e pilhas de poemas terríveis, sem o mínimo de estilo ou qualidade literária. No final do Orkut — que o Google o tenha — havia comunidades inteiras dedicadas a essa prática. Pois bem, passam-se os anos e cá estamos nós com cronistas a dar com o pé.

Basta abrir o Facebook e lá vem texto. Todo mundo opina o tempo todo. A lógica que antes valia para o futebol de que todos eram técnicos passou a valer para a política, a botânica, os direitos humanos, o cultivo de orquídeas e o que mais estiver ao alcance da teoria hipodérmica. No final, são crônicas e mais crônicas sobre qualquer assunto — e, claro, o mais clássico de todos: a crônica sobre a falta de assunto.

Todas as vezes em que leio um texto sobre a falta de inspiração para escrever, imagino que aquele pobre-diabo deve pensar ser o novo Fellini. E, geralmente (para não dizer: nunca), não é. Está a milhas de distância. E a crônica acaba banalizada, deturpada… perdida no ciberespaço de Pierre Lévy. O que nos diria Rubem Braga? Pouco importa, na realidade. A crônica se transformou no calcanhar de Aquiles de toda uma geração que, sem ter o que dizer, conta e reconta sobre os dilemas da internet, sobre o amor na era digital e sobre a impotência diante da necessidade de curar — ou aliviar — toda essa frustração. Se esse cenário fosse na década de 1990, todos estariam vagando por shoppings em busca do sonho perdido.

A crônica deixou de ser uma análise fria e crua da realidade, se transformou em um desabafo pós-moderno. Nunca se leu tanto, dizem. Nunca se frequentou tanto as livrarias. Nunca se pirateou tanto livro quanto agora. E nunca se escreveu tanto texto sem ter o que dizer, sem ter argumentos. O argumento é o simples não gostar, discordar. Não que se deva seguir algum academicismo, jamais. Mas será mesmo que precisamos transformar as redes sociais em muros de lamentação?

A reflexão pessoal deixou de ser individual e ganhou grupos — literalmente. Qualquer site que se abra há uma sessão de crônica. Mais ano menos ano, a crônica vai ganhar uma editoria só dela, mas não porque se tornou melhor, mais fundamentada. Ao contrário, ela se tornou mais superficial, menos engajada. Daqui a pouco a crônica vai ultrapassar os acessos do horóscopo. No final das contas, esse texto, que não passa de uma lamentação, também não precisava existir. Mas existe e que sirva para algo.