Rodoviária Velha

Por Jonatan Silva

“Ela sempre pede lugar”. Foto: João Jesus/Creative Commons.

“Um preto, um pobre
Uma estudante
Uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas
Pessoas cinzas normais”
Blechior

A média de sono dos brasileiros não passa de sete horas e trinta e seis minutos. Os holandeses, campeões mundiais de sono, passam oito horas e dezesseis minutos do seu dia na cama. A maioria dos brasileiros se levanta por volta das 7h das segundas às sextas-feiras, porém, as mais de 100 pessoas que se acotovelam na linha E05-Curitiba/São José — com saída prevista todas as manhãs, às 6h24, da Rua Joinville em frente ao Ponto de Táxi Nº6, e com chegada estimada para as 7h35 no Terminal Guadalupe — não estão incluídos nesta estatística. Boa parte delas já deve estar no trabalho enquanto a Grande Curitiba ainda acorda.

O Estatuto do Idoso, publicado em 2011, prevê, além da isenção na cobrança da passagem, a reserva de 10% dos assentosdo transporte coletivo para mulher com mais de 60 anos e homens acima dos 65 anos. Considerando que, em 2022, a população nesta faixa etária supere o total de crianças na capital paranaense, a cota para idosos já parece insuficiente. Quem sobe no E05 no terceiro ponto, na Rua Barão do Cerro Azul, já sabe que irá em pé. Como a linha tem em seu itinerário uma faculdade e, pelo menos, um colégio, durante as férias escolares o número de passageiros reduz enormemente. Em dias normais, de março a novembro, é preciso acostumar-se com a disputa acirrada por cada metro quadrado dentro do ônibus.
 
Uma senhora de cabelos platinados que sobe na décima primeira parada, diariamente, analisa com minúcia e estratégia, antes mesmo de passar a roleta, como estão acomodados os passageiros que viajam ruidosamente naquele veículo. Suas roupas são sempre extravagantes: um acorde dissonante com a cor do cabelo — que a faz parecer Nancy Sinatra, porém, mais baixa e roliça. Os tons jamais combinam. Talvez sejam escolhidos para que a anunciem. A calça nunca possui uma única cor. Se for com estampa étnica, muito melhor. No inverno, escolhe algum casaco que não tenha paralelo com outro elemento de sua composição. Nos dias mais quentes, uma blusa leve ou uma camiseta de cores forte é jogada sobre seu peito. Não ter estilo algum é possuir um estilo muito próprio e peculiar.
 
Enquanto passa a roleta, depois de cumprimentar burocraticamente a contadora, observa o banco à frente da primeira porta. Já está ocupado por outras duas outras mulheres. Na dúvida sobre as suas idade, a senhora do cabelo platinado continua caminhando, se segurando nos canos amarelos que percorrem todo o ônibus. Ela balança, esbarra em outras pessoas. Não pede desculpa e segue o seu caminho. O próximo banco preferencial também está ocupado. Não lhe cabe pedir lugar.


Gilberto toma, religiosamente, o E05 todos os dias no terceiro ponto. Cumprimenta, um por um, os motoristas dos ônibus que passam por aquela parada. A maioria está ali para que os passageiros desçam e esperem o E05 ou o E21, que segue somente até o Terminal do Boqueirão e exige uma maratona maior de embarques e desembarques, conexões e filas de espera. Sua deficiência física, compensada por um par de muletas de alumínio, lhe garante um assento ainda na parte dianteira. Volta e meia algum passageiro novato ou desavisado precisa levantar para ceder seu lugar, que o homenzinho — ele não tem mais que um metro e sessenta e cinco — aceita sem qualquer melindre.
 
Sempre o primeiro a chegar ao ponto de ônibus, Gilberto é mensageiro para os outros passageiros. “O Curitiba/São José das 6h10 já passou?”, pergunta a estudante universitária. “É aquele ali na frente”, diz, e aponta para o sinaleiro, ainda com o farol vermelho acesso, uma quadra adiante. Consternada e sonolenta, a jovem avalia que não vale a pena correr. Jamais conseguiria alcançá-lo. Ela sabe disso muito bem. E sabe também não terá lugar próximo ônibus. Por algum motivo, a conversa desemboca na senhora de cabelo platinado. “Ela sempre pede lugar”, comenta a moça cuja bolsa a tiracolo parece incomodá-la pelo peso. Gilberto, que sempre aguarda escorado em uma das barras de ferro que sustentam o ponto, solta uma resposta monossilábica à guisa de refletir sobre o que seria melhor dizer. “Já me falaram. Só que eu já vi essa mulher correr depois que desce do ônibus”, acrescenta — como se não houvesse pensado tanto assim na resposta que deveria dar. A moça olha para o delator. “Eu”, continua, e oferece um sorriso e um bom dia às novas pessoas que já formam uma pequena fila, “no lugar de vocês, não daria meu assento. Ela tem mais saúde que qualquer um aqui”. Os olhos rolam perscrutando cada rosto, e verifica que, realmente, não há ninguém doente ali.

Àquela hora, Gilberto já consegue concatenar ideias com a precisão milimétrica do paquímetro que ele próprio vende no material de construções no qual trabalha — e que só consegue chegar depois de tomar outro ônibus. Não é difícil imaginá-lo atrás de um balcão oferecendo pregos para o marceneiro, cimento para o mestre de obras — já cansado após mais de duas décadas de trabalho na construção civil — ou tinta fluorescente para pintar o quarto do caçula no apartamento que um casal, em torno dos 35 anos, acabara de comprar.

TODAS AS VEZES EM QUE VAI PEDIR LUGAR — “POSSO SENTAR AQUI?”, DIZ COM A VOZ BEM AUDÍVEL PARA CONSTRANGER QUEM ESTÁ SENTADO — CUTUCA O PASSAGEIRO COMO UM PICA-PAU BICA A ÁRVORE.

Desde 2014, quando a Urbanização de Curitiba S/A (URBS) deixou de ser a autarquia responsável pela gerência dos transporte coletivo nas cidades satélites da capital, passando a incumbência para a Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba (Comec), Gilberto faz parte da parcela dos usuários que precisa de três cartões-transporte diferentes para trabalhar. Em São José dos Pinhais, o primeiro, Vem, liga os bairros ao Terminal Urbano; o segundo, Metrocard, opera nas linhas que transitam pela região metropolitana; e, por fim, o cartão da URBS, que faz parte da rede integrada curitibana. Na prática, significa que Gilberto custaria, caso pagasse passagem, R$ 24,90, diariamente para o seu empregador. Ao final do mês, considerando que o material de construções abre também aos sábados, a despesa se aproxima dos R$ 600.

A senhora dos cabelos platinados custa muito menos. Dois ônibus por dia. Ida e volta. Partindo da décima primeira parada, seu destino é o Terminal Guadalupe, onde trabalha como cabeleireira em um dos salões populares daquela região e cujo preço do corte masculino não ultrapassa de 20 reais — mas que pode ter desconto de 2 reais em meses promocionais. Sua ocupação justifica os cabelos sempre alinhados, é verdade, mas não a alivia da culpa pelas roupas que escolhe.

Todas as vezes em que vai pedir lugar — “posso sentar aqui?”, diz com a voz bem audível para constranger quem está sentado — cutuca o passageiro como um pica-pau bica a árvore. O movimento de sentar é ágil — por isso, talvez, tanta desconfiança — para que ninguém, absolutamente ninguém, tome aquele banco. Quando está em pé, por certo que gostaria que sua cabeça girasse como se fosse uma coruja. Seria mais fácil encontrar um banco vazio em qualquer parte do ônibus.

Mas teve a vez em que, por pura vingança aos seus dedos de pica-pau, ninguém lhe deu lugar. Um dia a senhora do cabelo platinado precisou se segurar com firmeza. Levada para trás pelo peso dos casaco e da bolsa, foi preciso que um homem — até certo ponto a contragosto — a segurasse. Se despencasse seria pior: a viagem seria interrompida ali mesmo, um pouco adiante da curva que liga a Rua Arlindo João da Costa à Avenida das Torres. A senhora agradeceu como se mascasse uma goma vagabunda que não dá liga, e somente então alguém se levantou para que ela pudesse se sentar. Nessa dinâmica, quem estava no espaço que rodeava a mulher teve que se reacomodar. Suspiros e cochichos podiam ser ouvidos sem grande alarde. Era um protesto quase silencioso. Não é difícil imaginar os esforços que os passageiros fazem tão cedo quando é necessário descolar seus pés do assoalho. Cada um ali defende o seu minúsculo espaço como um latifundiário protege a sua terra. Àquela hora, o vão entre uma as pernas é tudo o que se tem.

Foto: Skitterphoto/Creative Commons.

Rua João Negrão, 381. Até próximo da meia-noite, o Terminal Guadalupe recebe os ônibus metropolitanos com a frequência cronometrada pelos fiscais que abundam o lugar. À noite, além dos carrinhos de espetinhos e vendedores de DVDs piratas e traquitanas, o local é ponto de drogas, prostituição e outros merdunchos, como diria o leão-de-chácara de João Antônio. Projetado pelo engenheiro Rubens Meister — nome por trás da fachada do Teatro Guaíra, do Centro Politécnico e do prédio da Caixa Econômica Federal, na esquina das ruas Marechal Deodoro e Barão do Rio Branco –, o Guadalupe foi, até 1972, o terminal rodoviário de Curitiba, substituído pela Rodoferroviária. Não é à toa que muita gente ainda o chame de Rodoviária Velha.

O SORRISO, QUE SERVE DE ALCUNHA À CIDADE, ESTÁ CARIADO.

Os 7,5 mil metros quadrados abrigam quase 50 linhas de ônibus e atendem mais de 70 mil pessoas por dia. Quem precisa cortar o cabelo pode aproveitar o intervalo entre os horários do ônibus. Estudantes na volta para casa passam nas quitandas, mercadinhos e lanchonetes do Terminal para pedir um pão de queijo ou um salgado — que comem durante a viagem atiçando a fome e o ódio de outros passageiros. Alguns, mais generosos, oferecem nacos aos cães que moram no local. Existem opções de café: com leite ou puro. O açúcar é de graça. Vendedores de cocada também povoam o local. Senhores, à paisana, ganham a vida vendendo passagem com cartões-transporte que abarrotam suas pochetes — tão fora de moda no mundo para além do Guadalupe. Depois de passar a roleta é só entregar o cartão pela janela. E o negócio está fechado.

Cartão-postal de uma Curitiba às avessas, cujo sorriso, que serve de alcunha à cidade, está cariado, o Terminal foi homenageado até mesmo por uma banda de rock, que adotou para si o nome. “Terminal Guadalupe é a estação de transporte coletivo que atende aos moradores da periferia e região metropolitana de Curitiba. Digamos que seja um entreposto de sonhos. Durante o dia, os trabalhadores que ali desembarcam têm a sensação de que chegaram ao primeiro mundo, no centro da capital. Mais tarde, expediente encerrado, fazem o caminho inverso, rumo aos municípios distantes do imaginário paraíso urbano. O Terminal Guadalupe é onde começa e acaba o mito da cidade perfeita que ainda seduz desavisados”, justifica Dary Júnior, vocalista do grupo, no texto que acompanha o disco Vc vai perder o chão. A senhora do cabelo platinado não faz a menor ideia de todas essas coisas. Quando desce do E05 não imagina que os traços do telhado que abriga o salão em que trabalha saíram das mesmas mãos que permitiram que o violino do solista reverbere no Guaíra a 533 metros dali. Gilberto, com seus passinhos lentos e impacientes, talvez, também não.

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