Azul, Janelas e Movimento

Tem vezes em que não estou. É como se não houvesse.
É aquele lusco fusco do fim do dia. O sol está, mas não se expõe.
Nas manhãs de outono acordo e me ofereço ao dia
como se oferece ao vento, o trigal do campo.

Tem dias que sou esquecimento. Uma ternura anciã
que vem da terra e se mistura ao fim da tarde.
E fim da tarde é solidão, no peito de quem não mais existe.

Nessa paisagem que passa pela janela, às vezes lenta, 
outras vezes mais,
descubro que só há paz, quando alma se movimenta.

A paisagem passa, o sol passa. A partida passa
e se torna lentamente, a chegada. Passam os outros,
trespassam-me.

Só não passam os meus olhos azuis
nos limiares de qualquer abismo.

Aqui e lá, um ou outro pássaro passa
corta o céu como se não o machucasse.
Consente o céu para com a passagem do pássaro
mesmo sentindo-se ferir em seu azul.

Se eu fosse esse pássaro e pelo céu passasse
Machucaria também esse céu, 
como um amor que está apenas de passagem.

Para não machucar o céu, só se não voasse.
E para não machucar o amor, só se você ficasse.

Seria como escolher nesta paisagem uma bela árvore
para ali fazer seu ninho e do ninho jamais partir.
Poder-se-ia então ver o céu, sem machucar azuis.

Se assim o pássaro escolhesse
E se assim o amor escolhesse
Nem o azul do céu, nem o azul dos olhos meus
esvair-se-iam.

Passam por mim as cidades e sua gente,
a liquidez do mundo e seu fluxo automático.
A fluidez da luz faz de mim um fim de tarde
E é outono. E como o outono gosta de melancolia
vem lá o pôr-do-sol, buscar o que é seu.

Vem lá a vida, alheia, que vem e que passa.
Como entendem bem os poetas, 
Dos pássaros, das passagens e da vida.
Eles passarinho, e eu também.

Passarinho resignado, sob as árvores e os longes.
Que se assusta quando vêm as nuvens, com seu manto
De cinzas e seu espírito de nunca, levar-me o azul do céu
E lavar-me o azul dos olhos.

As chuvas de outono nunca passarão.