Uma carta

Não há nada que possamos dizer
sem que esse dizer nos torne coisa impossível.
Então emudeço, e o mundo fica mudo…

Queria medir o tamanho de tua beleza
com o tamanho do céu noturno.

Queria ter um abraço
que fosse menos que o infinito.
Talvez um tapa na cara que mostrasse
que somos feitos de carne e osso, 
nada mais que isso.

Mas de nós o que sobrou foi uma perda.
Eu quero falar das perdas, das derrotas,
enfiar as mãos no bolso e baixar a cabeça.
Quero chutar pedras na calçada das noites
como se chutasse para longe um sentimento.

Porque é proibido pra nós, é indecente
e não podemos falar indecências, ou paixão.
Nós fizemos escolhas, as escolhas,

as escolhas foram sonambulismos
em mesas de bar e um para sempre
que se deu sabe-se lá de que maneira.

De outra maneira eu toco tua boca
teus dentes rangendo de raiva e dor
teu signo tua fossa. Alimento tua força
como força física que repele
o magnetismo dos mundos que desabam.

Quantos mundos desabam no teu abraço?
Não posso desabar o mundo
outrora seríamos tão somente nós dois 
abraçados nas ruínas do mundo.

Mas de outra maneira eu te abraço
aponto estrelas, comparo belezas.
Astros com teus músculos
brancura com teu suor, e seríamos uma febre
de sorrisos e cosmologias.

De outra maneira não seríamos assim
tão universalmente diferentes, estranhos,
impossíveis de uma forma tão impossível
que desabar o mundo seria não mais que cotidiano.

Seria ainda estranho, mas atração, atrito arranhão
não sei se de carne mas de sangue por certo.
Não sei se de sexo, mas de gozo

dos que gozam paraísos, asas anjos céus e dias
de corpos e suores sujos, músculo ou nuvem.
Dos que trazem no âmago vontade de abraço
dos que se abraçam, mas com pudor.
Dos que navegam mas que se perdem.

E como poderíamos?
Então emudeço, e o mundo fica mudo.
Sem que esse dizer nos torne coisa impossível 
não há nada que possamos dizer.