Para que (e a quem) serve o atual jornalismo de games brasileiro?
Felipe Pepe
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Olá Felipe, tudo bem?

Gostei muito do artigo, e embora discorde de alguns poucos pontos, o saldo do artigo em si foi muito positivo para mim. Não sei se ainda está lendo estes comentários, mas quero que saiba que tive uma boa reflexão sobre esta parte do mercado, apenas ao ler o seu artigo. Tem muita coisa aí que a gente tem em mente, mas não consegue colocar em palavras, como você fez.

O ponto que eu quero me focar principalmente, é o que você chamou de fechar-se em panelinhas. Eu vou te dizer que é quase exatamente o que eu penso, mas por outro motivo. Vou dizer logo que eu era um grande fã de podcasts, principalmente de games, quando a mídia ainda engatinhava no Brasil, lá pra 2007~2008. O que eu vi com o passar dos anos foi que a mídia foi se engessando, ficando naquele negócio muito enciclopédico (que de enciclopédico não tem nada), que é fazer a pauta de um assunto quase que totalmente pela wikipedia, às vezes só traduzindo porcamente. Depois de 2013, vi que a mídia podcast foi tentando se ater a modas mais imediatistas, tanto é que vários podcasts foram para o youtube (e a maioria falhou), e como você bem pautou, e isso aqui eu tenho que deixar bem claro, é como vários podcasts se tornaram um “Mais Você” dos games, onde o cara enfia atrações para falar de séries, animes, filmes e outras coisas “nerds”, quando eles originalmente mal tinham conteúdo suficiente para falarem sobre games. E isso é outra moda imediatista, já que vários podcasts tentaram fazer isso de uma vez. Cito aqui o caso do Jogabilidade e do Cidade Gamer, que eram bons podcasts lá pra 2012, mas hoje são puro chorume. Acho que a galera não se toca que muita gente não tá ali pra ouvir de como sua vida de boêmio é legal, e sim para um conteúdo específico, que antes os caras faziam bem. O pessoal zoa o 99vidas, dizendo que é um podcast “povão”, mas pelo menos eles falam apenas de jogos. O conteúdo é bem fraco às vezes, mas as pessoas ouvem toda semana porque eles falam de jogos. É por isso que é o podcast mais ouvido. Eu vou lá pra ouvir sobre jogos, e ouço sobre jogos. Não sobre como você comeu uma bacia de M&M’s semana passada, ou seu cachorro mordeu o seu mouse. Não sobre a polêmica de 140 caracteres da semana passada, ou como o cara se emocionou com a mensagem do filme da semana, que será esquecido já na próxima.

Fazendo uma interrupção aqui, o seu comentário sobre Patreon é bem válido. Era para ser uma injeção de gás em uma mídia que estava morrendo, mas o que virou foi uma chance para imitarem sites de webcelebs internacionais (Giant Bomb, ScrewAttack, etc). Não vi nada que tenha se destacado ainda nesse meio.

Voltando ao assunto. Não sei se alguém já te disse isso, mas o que eu vejo nestes produtores de conteúdo atuais, é uma espécie de “serialização” do cotidiano deles. É meio difícil explicar com palavras, mas imagine que as pessoas de um site/blog/canal se acham personagens de uma série de TV daquelas americanas, com risada e tudo. Acho que todo mundo conhece algum site assim. Imagino que são pessoas que se deslumbraram com o processo de criação de conteúdo, e colocaram o carro na frente dos bois— primeiro a meta, e depois o conteúdo. A meta é ser o pessoalzinho “do momento”. Por isso essa blogo/podosfera é cheia de piadas internas. Como você bem disse, tem conteúdo bom aí no meio, mas quando os caras já chegam “fazendo referência ao episódio tal”, eu me sinto meio perdido. Como alguém disse nos comentários, são pessoas que se imaginam fazendo parte do The Big Bang Theory. Antigamente, a gente dizia que as pessoas se imaginavam na série Friends. Acho que pouca coisa mudou, nesse sentido. Gente deslumbrada. Papo de comadre.

Quanto ao conteúdo de qualidade em português, eu concordo com você totalmente. Eu fui fazer uma pesquisa sobre a história da desenvolvedora TOSE, e me assustei que ela é totalmente desconhecida por aqui. Acho que o pessoal não quer escrever artigos de jogos que não sejam “do momento”, simplesmente porque acham que ninguém vai ler. Mas aí é que está. Na internet, tudo fica guardado. É só lembrar do GeoCities. Mesmo que você se esmerilhe para fazer um artigo sobre um RPG de MS-DOS de 1993, e ninguém leia hoje, ou amanhã, pode ter certeza que um dia alguém vai procurar exatamente aquele jogo no google, e vai achar o seu artigo logo no primeiro link. É por isso que eu digo que o jornalismo de games ficou imediatista. Sempre é aquela coisa “do momento”, do hype, como você falou.

Ainda sobre as bolhas, isto vai soar meio arrogante, mas eu acho que o que essas pessoas do meio não conseguem perceber, é que, talvez por culpa desse imediatismo das redes sociais, elas não estão mais tentando produzir conteúdo, e sim ganhar compartilhamentos e gerar burburinho. Colocar o carro na frente dos bois. A galera mais “engajada” não se toca que eles não estão realmente se engajando em nada, e sim apenas tendo uma ilusão de um engajamento. Já que “se eu escrevi na rede social, então é verdade”. Isso é uma coisa que eu acho que copiaram dos EUA (você cita isso no texto), que é o fato de a pessoa dizer aos quatro ventos que está fazendo qualquer coisa, e só de ter a confirmação do seu viés por um terceiro, ela acha que realmente fez aquilo, mesmo que não tenha feito. Uma espécie de pseudo-engajamento. É como a pessoa que vai de voluntário num sopão, tira fotos e escreve um textão, mas cai fora antes da distribuição da sopa começar. Para todos os efeitos, ela esteve lá e se engajou, pois as fotos e texto na rede social da moda provam isso. Máscaras de rede social.

Terminando aqui, eu vou te dizer que já tive a idéia de fazer algo no estilo do HG101 (provavelmente você já conhece) aqui no Brasil, mas sempre esbarrava em alguma coisa ou outra. Já consegui juntar uma equipe de 4 pessoas uma vez, mas sempre bate aquele desânimo na segunda semana, e muita gente já chegava perguntando quanto pagávamos por caractere. Depois de ler esse seu texto, eu vou tentar de novo. Mesmo que pouca gente tenha lido aqui, você pode pelo menos dizer que serviu pra isso.

Eu já li o seu texto duas vezes, e sempre aparece algum ponto importante que eu quero comentar, mas vou deixar este comentário por enquanto, que já ficou muito grande. Abraços, e fique na paz.

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