Cicloturismo — minha primeira viagem

Nas férias de janeiro de 2017 realizei minha primeira viagem de cicloturismo. Me preparei por uns 4 a 5 meses para viajar acampando com um grupo de amigos e percorremos 630 KM em 8 dias de pedal.

Primeiro Dia

Nossa ideia era dormir na Argentina e fizemos praticamente 100 km no primeiro dia. Confira a rota.

Elizeu e Poli na saída de Francisco Beltrão

Saímos cedo de Francisco Beltrão-PR, nosso combinado era nos encontrar 6 horas da manhã para a partida. Tomamos um café no posto Toscan e iniciamos a viagem:

Budy e Gilson no amanhecer do sol, chegando em Marmeleiro.

Além de ser o mais novo era o único que tinha menos de 2 bikes. Foi muito legal pois aprendi muito sobre bikes e descobri que sou “pouco viciado” perto dos caras :)

Logo nos primeiros 30 km já estourou um raio da minha bike e o pneu começou a raspar no quadro. Fiquei muito feliz e senti toda a diferença em estar viajando em grupo. Todo mundo estava ajudando e de repente acabou passando um amigo da galera que estava treinando e por sorte era mecânico de bikes e em menos de 20 segundos alinhou a roda sem o raio e resolveu o problema.

Seguimos viagem e trocamos o raio em Flor da Serra, que era a próxima cidade.

Plantação de Pinus próximo de Flor da Serra

Pedalar de manhã é muito bom. O melhor horário, e no primeiro dia pegamos um clima bem tranquilo. O sol não estava tão intenso e até parcialmente nublado.

Na estrada para Barracão

Como o plano era dormir na Argentina, então pedalamos 90 km até 12:30 e conseguimos almoçar em Barracão, na fronteira com a Argentina.

Depois do almoço seguimos para a Argentina e atravessamos a fronteira com sucesso. Preenchemos e levamos o documento necessário impresso para evitar demorar na fronteira e deu tudo certo. Em 15 minutos resolvemos tudo e seguimos viagem.

Primeira dia na Argentina

Dormimos em um camping improvisado na cidade de Dos Hermanas. Um senhor tinha uma pequena pousada na cidade e aproveitamos para pedir se ele teria um lugar para acampar. Deu certo que ele tinha um campinho de futebol atrás da pousada e deu para acampar.

Camping improvisado na cidade de “Dos Hermanas”, na Argentina

Foi muito legal pois conseguimos até fazer um churrasquinho antes de dormir.

Perguntamos sobre a segurança do local e se havia alguém morando nas casas do fundo do campinho, então o dono respondeu:

“Sim sim, ali na casa de baixo mora meu filho e minha nora com meu neto e na casa de cima morava o cara do mercado, mas aí mataram a mulher dele a facada e ele foi mora lá no mercado.”

O senhor comentou sobre a pobreza da região com muita tristeza, que a criminalidade aumentou e que muitas famílias acabavam sem trabalhar só vivendo de algum tipo de bolsa família.

Tivemos uma noite conturbada pois acampamos muito próximo do asfalto e tinha uma galera passando de moto e zoando com o barulho do escapamento a noite toda.

Segundo dia

Levantamos acampamento cedo e deixamos a pousada do Tio Tom antes das 8.

Saída do “camping” em Dos Hermanas

Nosso destino era San Pedro e foi um dia de pedal muito legal. Foram 63 km de muito menos soja e milho do que no Brasil.

Saindo de Dos Hermanas

No caminho tem um parque florestal então fomos costeando a natureza.

Primeira parada da manhã. Amanhecendo o dia na Ruta 14

A paisagem lá também é muito bonita pois o caminho passava bem no alto das montanhas então é possível observar toda a região.

Na Ruta 14

Nesse dia sabíamos que tinha uma estrada que não estava asfaltada e estávamos torcendo pra não chover.

Ruta 14 na parte sem asfalto

A estrada estava muito batida e parecia um tapete. Foi muito bom de pedalar ali até que não choveu :)

Barro e barro

Na parte da estrada de chão tivemos uma garupeira quebrada e paramos na casa de um senhor, “seu Davi”, muito acolhedor, nos deu água e ofereceu um lugar coberto durante o período da chuva. A esposa do Davi ainda fez uns pãozinhos fritos e tomamos tererê até a chuva passar.

Despedindo-se do seu Davi e sua esposa

O que achei mais legal na casa de seu Davi é que ele tinha um porco gigante que nos recepcionou na frente da casa amarrado em uma árvore como um cachorro.

Porco cachorro

Deixamos a casa do seu Davi depois da chuva e adivinha?

Barro depois da chuva

Pegamos uns 5 km de barro como esse aí. Nesse momento foi muito legal pois tínhamos várias configurações de pneus e foi interessante ver como cada pneu se comportava no barro.

O meu continental X King 2.2 acabou puxando todo o barro pra catraca e como não tinha paralamas foi uma sessão de amadorismo total. Tive que lavar a bike no fim do dia pois não tinha condições. O pneu do Elizeu era um continental Race 2.2 praticamente careca e sujou bem pouco mesmo. O Ivan foi com um pneu slick e sofreu um pouco com os deslizes mas no final nem embarrou a relação.

Chegando no camping em San Pedro

No final chegamos cedo da tarde no camping e deu pra lavar roupas e aproveitar a tarde. Ainda conseguimos pedir pizza, feita no próprio camping e conseguimos acampar em um quiosque bem coberto.

Acampamento no camping em San Pedro — 2º dia

Terceiro dia

No terceiro dia partimos de San Pedro para El Soberbio. Não saímos muito cedo e ainda consegui tomar um chimarrão com os hermanos na despedida.

Deixando o camping em San Pedro

Nesse dia o pedal foi leve em termos de altimetria, mas sofri bastante de câimbras e tive que seguir um ritmo mais lento.

Descansando nas nuvens

Pedalar na Argentina é muito bom. Pouco trânsito e pista sem buracos. O acostamento não era dos melhores em alguns trechos mas todos os motoristas pelo menos eram mais conscientes que no Brasil e não passamos por nenhum sinistro no trânsito por lá.

O caminho foi bem tranquilo e ainda tivemos um carro de apoio durante o fim de semana. O Luiz que era o dono do carro também trouxe sua bike e percorreu um trecho com a gente.

Deixando a Ruta 14

No final ainda tinha a descida até o rio Uruguay e foi muito bom descer uns 15 km praticamente na sequência. Estávamos chegando próximos ao nosso objetivo. Poderíamos visitar o Salto do Yucummã pelo lado Argentino mas decidimos que iríamos atravessar de volta para o Brasil e ver o salto na cidade de Derrubadas-RS.

Comemorando a chegada em El Soberbio

Acampamos antes de atravessar o rio e na chegada do Camping fomos recebidos pelo dono do local com o seguinte comentário: “Então largaram as Ferrari e saíram pedalar um pouco?”

Nesse momento foi engraçado que comentamos entre a gente que todos os ciclistas do grupo ou não tinham carro ou o carro custava mais barato que a bike. ¯\_(ツ)_/¯

Quarto dia

No quarto dia deixamos passamos o rio Uruguay na balsa e finalmente pisamos no nosso amado Brasil. Incrível como nos sentimos mais seguros e confiantes estando em nosso país.

Bikes na balsa

Tivemos sorte de atravessar no sábado pois tínhamos a intenção de descansar um dia, mas descobrimos que no Domingo a balsa não funciona então seguimos atravessando para o Brasil em direção a Derrubadas no sábado mesmo.

De volta a pátria

O calor estava intenso próximo ao rio Uruguay e foi um dia de muito sobe desce.

Foto tirada pela galera no carro de apoio

Nesse dia tivemos um pedal pesado e o sol estava super quente. Estávamos próximos do fim mas não chegava. Decidimos nos esforçar para chegar em Derrubadas para realmente podermos visitar o salto e termos um dia inteiro de descanso.

Pense numa galera feliz

Quando faltavam 35 km para chegar coloquei meus alforges no carro de apoio pois senti que iria destruir minhas pernas.

Foi bom sentir a bike leve novamente mas estava tão cansado que ainda assim não consegui acompanhar o ritmo da galera. Veja a brutalidade aflorada da galera no final do percurso.

Foi muito massa ter ido com atletas da bike. Nesse dia vi o quanto a galera é forte pois entraram em um ritmo ainda mais puxado no final, quando eu tirei os alforges.

Quinto dia

Nosso dia de descanso. Nesse dia não pedalamos e ficamos em um camping em Derrubadas.

Fomos para a tão esperada paradisíaca imagem do maior salto longitudinal do mundo e tudo que vimos foi o que capturei na imagem abaixo:

Vista do Salto do Yucummã com o rio cheio

Ficamos sabendo que algumas barragens novas da região estão jogando muita água no rio, e não por causa das chuvas, mais pela quantidade de água que as barragens estão despejando não podemos ver o lugar.

Testando o ângulo de abertura da GoPro

Apesar de não vermos o salto o dia foi bem legal. Fizemos uma trilha para conhecer uma cascata próximo ao salto:

Cascata próxima ao Salto do Yucummã

E outra para conhecer uma canafístula centenária:

Canafístula centenária

O ponto de acesso ao Salto do lado brasileiro também tem um “Centro de Visitantes” com animais empalhados e algumas fotos da história do local.

Entrada de acesso ao Salto do Yucummã

Na história é perceptível a marca da extração da madeira como meio de sobrevivência. As beiras do rio Uruguay eram devastadas e a madeira era levada pelo rio em jangadas feitas com os próprios troncos das árvores.

As pessoas viviam por semanas nas jangadas descendo rio abaixo com a madeira. Lembro que passamos em uma cidade na Argentina que se denominava a “Capital da Madeira”.

Sexto dia

Saímos de Derrubadas - RS para Iporã do Oeste - SC.

Altimetria do trajeto

Saímos cedo e sabíamos da previsão de sol quente.

Quando eu vi essa placa me senti “em casa” :)

Nesse dia perdemos o companheiro de viagem Poli, que acabou voltando com o carro pois sentiu umas dores estranhas no nervo da perna e não quis exagerar. A partir deste momento seguimos em 5 cicloturistas.

Chegando em Itapiranga

Esse dia pegamos uma das descidas mais legais \o/

Pegamos mais de 70 km por hora na descida até o rio Uruguay. Depois subimos mais do que descemos em um agradável clima de sol quente e sem vento.

Buddy nos remendos

Em todos lugares que passamos colamos um adesivo e na balsa colamos junto com adesivos de outros viajantes que já haviam passado ali.

Adesivos do APA (Amigos Pedal e Aventura) colados registrando a viagem :D

O calor do sol das 13 horas estava insuportável. Na balsa mesmo foi difícil sair de baixo de telhadinho.

Muito legal essa história de deixar os adesivos. Encontramos muitos outros pontos com adesivos de outros viajantes, mas sempre motorizados ;)

Tirei essa foto pra mostrar a monstruosidade dessas balsas. E claro, recordar a galera brincando de atravessar agarrado na balsa.

Na balsa rumo a Itapiranga

Esse dia foi um dos dias mais intensos em termos de calor. A subida para sair de Itapiranga tinha uns 2km e estávamos fazendo o trecho as 14:30 depois de ficar uma hora parado na sombra.

Nosso acampamento seria em Iporã do Oeste

Nosso destino era acampar em Iporã do Oeste, então recebemos a indicação de um lugar chamado “Piazito”. Que seria o único quase camping da cidade. O Piazito tem um campo de futebol suíço e fica na divisa com Tunápolis. Ele nos acolheu e fez questão que nós não pagássemos nada por usar seu espaço.

Sétimo dia

Levantamos ‘acampamento’ não tão cedo e seguimos viagem. Não estávamos com tanta pressa pois sobravam 3 dias para fazer 160 km.

Espaço cedido pelo Piazito em Iporã do Oeste.
Foto da partida com o Leandro (Piazito) e sua esposa e irmão

Esse dia nossa ideia era almoçar em São Miguel do Oeste, na casa da minha sogra e seguir viagem acampando próximo de Anchieta.

Saindo de Iporã do Oeste
Eu sendo imprudente sem capacete

A chuva acabou atrapalhando nossos planos e assim que chegamos em São Miguel começou a chover então decidimos descansar na casa da minha sogra.

Esse foi o primeiro dia que não armamos a barraca e nem dormimos no saco de dormir. Acabamos pedalando só 30 km e foi um descanso excelente e revigorante. Nosso plano foi bem arrojado, decidimos levantar cedo no próximo dia e sair às 6 da manhã e terminar nossa viagem no próximo dia fechando os 135 km faltantes.

Oitavo e último dia

Valeu muito a pena sair bem cedo. Vimos o dia nascer lindo em uma região bem alta.

Curtindo o nascer do sol ;)

Esse com certeza foi o dia mais especial pra mim. Não só por estar finalizando a viagem mas também por ser o “meu caminho”.

6:30 AM em Guaraciaba

A Tânia, mãe do nosso filho é de São Miguel do Oeste e fiz esse caminho durante toda a gravidez dela e também durante a minha pós graduação de arte-terapia.

Descendo para Anchieta \o/

Esse caminho me levou a muitas coisas boas e até morei em São Miguel do Oeste durante praticamente 2 anos e transitei por este caminho até Francisco Beltrão muitas vezes.

Fizemos o trecho por Anchieta SC e conseguimos passar Palma Sola e almoçar no Paraná já em Flor da Serra.

Entre Anchieta e Palma Sola

A manhã foi tranquila e após o almoço sentimos que ia cair muita água.

E nesse último dia, foi o primeiro dia que realmente pegamos chuva na estrada. Terminamos a viagem com chuva até Francisco Beltrão.

última foto antes da chuva \o/

E assim terminou nossa grande viagem com mais de 630 km em 8 dias. Não me arrependo em nenhum momento de toda esforço para conseguir acompanhar esses feras. Foi muito legal mesmo fazer parte desse grupo e conhecer esse trecho sem usar nenhum combustível fóssil \o/

Espero em breve fazer a próxima viagem. Cicloturismo é muito bom :)