Permanecer Vivo: um Método — parte 3

por Michel Houellebecq

Traduzido por mim com consentimento do autor. Este texto tem quatro partes.


SOBREVIVER

“A carreira literária é, todavia, a única em que você pode não ganhar dinheiro algum sem parecer ridículo.” (Jules Renard)

Um poeta morto não escreve. Daí a importância de permanecer vivo. Este simples raciocínio às vezes será difícil para você se habituar. Em particular durante períodos de esterilidade criativa prolongada. Seu apego à vida aparecerá, nesses momentos, dolorosamente vão. De qualquer modo, você não estará escrevendo.

Para isso, apenas uma resposta: em última análise, você não sabe nada sobre isso. Se você se examinar com honestidade, você terá que concordar. É sabido que casos estranhos ocorrem.

Se você não está mais escrevendo, talvez seja um prelúdio de uma mudança de forma. Ou uma mudança de tema. Ou ambos. Ou talvez seja, de fato, um prelúdio para sua morte criativa. Mas você não sabe nada sobre isso. Você nunca conhecerá essa parte de você que o obriga a escrever. Você só o conhecerá através de formas contraditórias que tão-só se aproximam disso. Egotismo ou devoção? Crueldade ou compaixão? Qualquer uma dessas possibilidades poderia ser defendida. Prova de que, em última análise, você não sabe nada sobre isso; Assim, não se comporte como se soubesse. Perante sua própria ignorância, perante esta parte misteriosa de si mesmo, permaneça honesto e humilde. Não só os poetas que vivem até a velhice em geral produzem mais trabalho, mas também a velhice é o assento de processos físicos e mentais particulares, dos quais seria vergonhoso ser ignorante.

Dito isto, a sobrevivência é extremamente difícil. Pode-se considerar a adoção do que poderia ser chamado de estratégia de Pessoa: encontre um pequeno trabalho, não publique nada e aguarde a morte com paciência. Na prática, se avançaria para enfrentar dificuldades significativas: a sensação de que se está desperdiçando o tempo, que não está em seu lugar, não está sendo estimado pelo seu verdadeiro valor… Tudo isso se tornaria insuportável rapidamente. Beber seria difícil de evitar. No final, a amargura e o desgosto esperariam ao final da estrada, sendo logo a seguidos pela apatia e esterilidade criativa irreversível.

Esta solução, portanto, tem suas desvantagens, mas é geralmente a única. Não se esqueça de psiquiatras, que têm à sua disposição o poder de conceder licença por doença. No entanto, uma estadia prolongada em um hospital psiquiátrico deve ser proscrita: muito destrutiva. Deve-se usar apenas como último recurso, como alternativa à destituição. Os mecanismos do estado de bem-estar social (pagamentos de desemprego etc.) devem ser aproveitados ao máximo, bem como o apoio financeiro de amigos que estão em melhor situação. Não cultive culpa excessiva em relação a isso. O poeta é um parasita sagrado.

The Plague of Flies — Exodus: Gods and Kings (2014)

O poeta é um parasita sagrado: como os escaravelhos do antigo Egito, ele pode prosperar sobre o corpo de sociedades ricas em um estado de decadência. No entanto, ele também tem seu lugar no coração de sociedades frugais e fortes.

Você não precisa lutar. Boxeadores lutam, não poetas. Mesmo assim, é necessário publicar um pouco; esta é uma condição necessária para que haja reconhecimento póstumo. Se você não publicar uma certa quantia mínima (seja apenas um punhado de textos em uma revisão de segunda categoria), você passará despercebido para a posteridade — tão despercebido quanto você esteve durante sua vida. Mesmo o mais perfeito gênio deve deixar algum vestígio; deixe que arqueólogos literários exumem o resto. Isso pode falhar; muitas vezes falha. Você deve repetir pelo menos uma vez por dia que o importante é fazer o seu melhor.

Estudar as biografias de seus poetas favoritos pode ser útil para você; isso pode permitir que você evite certos erros. Nunca se esqueça de que, como regra geral, não há uma boa solução para o problema da sobrevivência material, embora haja várias ruins.

O problema de onde você passa sua vida geralmente não se apresenta; você viverá onde puder. Apenas tente evitar vizinhos excessivamente barulhentos, que são capazes, por si só, de trazer uma morte intelectual definitiva.

Uma pequena experiência profissional pode fornecer algum conhecimento, eventualmente útil em um trabalho posterior, sobre o funcionamento da sociedade. Mas um período de destituição, no qual você mergulharia na marginalidade, pode fornecer outros tipos de conhecimento. O ideal é alternar.

Outras realidades da vida — como uma vida sexual harmoniosa, casamento e filhos — são benéficas e frutíferas. Mas estas são quase impossíveis de alcançar: no que diz respeito à arte, eles são territórios praticamente desconhecidos.

De maneira geral, você será jogado de um lado para o outro entre a amargura e a angústia. Em ambos os casos, o álcool ajudará. O importante é obter os poucos momentos de remissão que permitirão a realização de sua obra. Eles serão breves; faça um esforço para aproveitá-los.

Não tenha medo da felicidade; ela não existe.

© 1997 Flammarion.

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