Como uma criança recém-amamentada [Parte 1]

Nossa pequenina (23/07/2017).

Salmo 131

1 Senhor, o meu coração não se elevou nem os meus olhos se levantaram; não me exercito em grandes matérias, nem em coisas muito elevadas para mim.
2 Certamente que me tenho portado e sossegado como uma criança desmamada de sua mãe; a minha alma está como uma criança desmamada.
3 Espere Israel no Senhor, desde agora e para sempre.

O tema deste pequeno salmo é a postura da alma. Seu porte, sua atitude, seu sentimento, seu ânimo. Os dois primeiros versos contrastam duas posturas pessoais: uma negada, outra afirmada. Por fim, o último versículo exorta à postura correta.

A postura negada: procurar se elevar

Os termos utilizados no primeiro verso remetem à imagem de altura, grandeza: “elevar”, “levantar”, “grandes”. Essa imagem, por sua vez, está associada a maravilhamento — Deus, por exemplo, é louvado como “Altíssimo” e “grandioso” em diversos textos. Portanto, a postura negada é a de querer ser maior e, assim, mais admirado — o que corresponderia a um “coração soberbo” e “olho altivo”.

A questão-chave, nesse contexto, é: “maior em relação a quem?”. Para o salmista, o parâmetro de referência é quem se é: “para mim”. Ou seja: não quem os outros são, pois este tipo de comparação produz orgulho ou inveja. A postura negada é procurar ser quem você não é. Como Paulo disse: “Porque, se quiser gloriar-me, não serei néscio, porque direi a verdade; mas deixo isto, para que ninguém cuide de mim [pense a meu respeito] mais do que em mim vê ou de mim ouve” (1Co 12.6). Em outras palavras: “não quero parecer quem eu não sou de fato”.

O sentimento do salmista não é de comodismo consigo mesmo; o título do salmo indica autoria do engajado rei Davi. Antes, a atitude que o inspira é de auto-rebaixamento, humilhação — ou, mais precisamente, “humildade”. Como ele próprio disse em outra passagem: “me rebaixarei ainda mais, e me humilharei aos meus próprios olhos” (2Sm 6.22a).

Isso não significa tentar ser menor do que quem você é; quem escreve o salmo é o glorioso rei de Israel. Pelo contrário, significa se fazer menor para com os outros — ou, para usar uma antítese, “o maior servo”. Davi, sendo rei, demonstra, nesse salmo, “o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo (…)” (Fp 2.5–8).

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Um capítulo que lembra muito essa mensagem é Romanos 12. No versículo 16, Paulo diz: “sede unânimes entre vós [tenham uma mesma atitude uns para com os outros]; não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes; não sejais sábios em vós mesmos [aos seus próprios olhos]”. Sendo que, no verso 3, o apóstolo já tinha dito: “Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um”. Em outra tradução: “Ninguém tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que deve ter; mas, ao contrário, tenha um conceito equilibrado”.

O contexto aqui é o dos “dons”, os quais também podem ser vistos como o “lugar” — o qual é dado (!) por Deus — no corpo de Cristo. Esse cenário alinha-se perfeitamente com a aplicação desse princípio feita por Paulo a si mesmo em 1Co 4.6–7: “E eu, irmãos, apliquei estas coisas, por semelhança, a mim e a Apolo, por amor de vós; para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito, não vos ensoberbecendo a favor de um contra outro. Pois, quem torna você diferente de qualquer outra pessoa? O que você tem que não tenha recebido? E se o recebeu, por que se orgulha, como se assim não fosse?”. Portanto, para o apóstolo, o que cura o orgulho é um senso claro da dádiva.

Ainda para os coríntios, ele reafirma: “Porque não ousamos [temos a pretensão de] classificar-nos, ou comparar-nos com alguns, que se louvam [recomendam] a si mesmos; mas estes que se medem a si mesmos, e se comparam consigo mesmos [para se louvarem/recomendarem], estão sem entendimento. Porém, não nos gloriamos fora da medida [limite], mas conforme a reta medida que Deus nos deu [a esfera de ação que Deus nos confiou], para chegarmos até vós; Porque não nos estendemos além do que convém (…). Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor. Porque não é aprovado quem a si mesmo se louva [recomenda], mas, sim, aquele a quem o Senhor louva [recomenda]” (2Co 10.12–18). Nesse sentido, o que conta não é a quantidade relativa de dons que você tem, mas ser um mordomo fiel no “lugar” que Deus confiou a você — como na famosa parábola dos talentos.