Como uma criança recém-amamentada [Parte 2]

Nossa filhota, sossegada nos meus braços (27/07/2017).

Na primeira parte deste texto, vimos que o Salmo 131 nega a postura da alma de procurar se elevar. Nesta segunda e última parte, veremos a postura oposta, afirmada pelo salmista e encorajada aos seus leitores.

A postura afirmada: sossegar no Senhor

Em contraposição à postura da alma de procurar se elevar, o segundo verso afirma como a atitude apropriada do coração o sossego no Senhor. Mais do que isso, esse versículo associa esse sossegar a uma verdadeira humildade. Afinal, o modelo dado para essa postura é o da criança recém-nascida — o ser humano mais baixinho, “pequenino”, não altivo nem grandioso (como Davi, autor do salmo e o caçulinha da sua família).

Essa forma de ver a questão faz lembrar algumas palavras do próprio Jesus. Como ele respondeu aos discípulos: “Quem é o maior no reino dos céus? Aqueles que se tornam humildes como uma criança!” (cf. Mt 18.1–15). De fato, ele os encorajou nesse sentido: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas (...)” (Mt 11.28–30).

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Além de humildade, satisfação e contentamento também estão associados ao sossego no Senhor. O salmista especifica a criança-modelo como aquela “recém-amamentada”. Ou seja, aquela satisfeita com o leite materno que acabou de saciá-la.

Definitivamente, essa não é a postura de alma típica da nossa cultura. Como os Rolling Stones gritaram por décadas (aludindo a Ec 12.1b?): I can’t get no satisfaction! Ou, como o U2 expressou tão claramente o sentimento de muitos: I still haven´t found what I´m looking for.

A criança do salmo 131, pelo contrário, ficou satisfeita; encontrou o que estava buscando. E o fez no peito de sua mãe — o que aponta para um descanso confiante: “minha mãe é bondosa; cuida de mim”.

Um exemplo que faz ressoar a convocação de outro salmo: “Retorne ao seu descanso, ó minha alma, porque o Senhor tem sido bom para você!” (Sl 116.7). De fato, esse é um chamado ressonante com o alvo cristão do contentamento no Senhor: “(…) já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas naquele que me fortalece.” (Fp 4.11b-13).

Alguém contente assim recebe as circunstâncias, pela fé, como perfeitas ordenanças de Deus para a vida (cf. Jó 1.21) — ainda que muitas vezes incompreensíveis. Se circunstâncias boas: como uma graça, uma dádiva, um presente. Se más: como um lembrete (gracioso!) de que não somos Deus.

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Assim, o último verso do salmo exorta os filhos de Deus ao cultivo do sossego no Senhor. “Espere no Senhor”; sossegue no Senhor. Com expectativa, mas sem desespero; com atividade, mas sem inquietude; com ânsia, mas sem ansiedade. Como a corça e a terra seca anseiam pela água — que sempre vem (Sl 42.1–2; 63.1). O Senhor é o seu bom pastor, que cuida de você (Sl 23)!

Por isso: “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite espiritual puro, para que por meio dele cresçam para a salvação; se é que já provastes que o Senhor é benigno” (1Pe 2.2–3).

“Israel”, filhos, crianças do Senhor: “espere no Senhor”, cultivando o contentamento nele, “desde agora e para sempre”. Amém!