O que vale a pena fazer nesta vida?

“Impression, soleil levant”, de Monet (1872)
Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol? (Eclesiastes 1.3)

Nada

Qual é o benefício que o homem tira de suar a camisa debaixo do sol escaldante? O que vale a pena fazer nesta vida?

Essa é a questão orientadora, a pergunta-guia, do livro de Eclesiastes (Ec 1.3).

Onde está a felicidade plena? O que verdadeiramente recompensa, realiza, satisfaz e preenche nesta terra?

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A resposta nua e crua do pregador (o “eclesiastes”, Ec 1.1) é: “vaidade de vaidades; tudo é vaidade” (Ec 1.2, 12.8). Esse é o refrão repetido pelo mestre da assembleia no início e no fim do seu discurso.

“Vaidade”, aqui, é a tradução do termo hebraico “hevel”, que, literalmente, significa: vapor, punhado de ar, sopro, vento, vão, nada. Portanto, a expressão “tudo é vaidade” corresponde a “tudo é nada”. Nada debaixo do sol recompensa, realiza, satisfaz e preenche verdadeiramente. A felicidade plena não está em nada desta terra. Tudo aqui é como o vento: não adianta correr atrás.

Logo: qual é o benefício que o homem tira de suar a camisa debaixo do sol escaldante? “Nenhum!”; o que vale a pena fazer nesta terra? “Nada!” — responde o pregador.

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A principal justificativa do pregador para a sua resposta é a de que, sobre a sólida face da terra, o homem é como um vapor, que passa. “Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece” (Ec 1.4). Os ciclos naturais continuam ocorrendo: “Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos. Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr” (Ec 1.5–7). Mas os homens passam.

No chão do mundo, o homem é apenas um orvalho, que logo evapora. No cenário do universo, os feitos dos homens não passam de uma neblina, que logo se esvai.

Foi, é e será assim. Não há nada verdadeiramente “novo”, que permaneça, que satisfaça plenamente nesta terra. “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós” (Ec 1.9–11). Não existe “ano novo”. Dizer “agora vai!” não faz sentido. Não há um oásis depois da próxima duna; não há como alcançar a cenoura atrás da qual corremos. “Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir” (Ec 1.8). Insaciedade. Preguiça. Tédio.

O homem é passageiro. O que ele faz evapora debaixo do sol e tentar fazer algo “novo” (que permaneça) nesta terra é como correr atrás do vento. Vivemos nos preparando para viver e nunca vivemos de fato. Acabamos morrendo.

Debaixo do sol, nada vale a pena — diz o pregador.

Tudo

A resposta do pregador é tida por “sábia” (Ec 12.9–11) pelo autor do livro. Diante dela, o autor conclui: “De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem” (Ec 12.13). Se não há proveito nenhum debaixo do sol, lembre-se daquele que está “acima do sol” como sendo o que reina sobre tudo o que está abaixo dele.

Portanto, “tudo é vaidade” não é a conclusão correta a ser tirada da pregação do mestre da assembleia. (Pelo menos, não para o autor do livro.) Esse refrão, que abre e fecha o discurso do pregador, é apenas a moldura na qual a beleza da sua mensagem é enquadrada. De acordo com o autor de Eclesiastes, a mensagem central do pregador é a de que devemos temer a Deus. Não buscar a sabedoria pela busca em si (Ec 12.12), mas porque a busca pela sabedoria leva ao temor de Deus.

Assim, se, por um lado, os Salmos e os Provérbios dizem que “o temor de Deus é o princípio da sabedoria” (Sl 111.10; Pv 1.7), Eclesiastes complementa, dizendo que, por outro lado, “o fim da busca por sabedoria é o temor de Deus” (c.f. Ec 12.13). Portanto, a genuína busca por sabedoria leva ao temor de Deus, que, por sua vez, leva à verdadeira sabedoria. Essa é a conclusão a partir da pregação.

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Ao tirar essa conclusão, o autor ecoa a última exortação do discurso do pregador (c.f. Ec 12.1ss): “Lembra-te também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento (…)”. Em outras palavras: “jovem, lembre-se do seu Criador (que está acima da criação) antes que você chegue por experiência própria à minha observação de que, sem ele, tudo é vaidade — já estando tarde demais para viver uma vida proveitosa”. Tema a Deus, jovem — essa é a conclusão do livro.

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Mas por que temer a Deus?

Porque, como o próprio autor afirma na última frase do livro: “Deus há de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau” (Ec 12.14). Para Deus, o que você faz nesta vida é eternamente relevante. Há um Justo Juiz acima do sol, o Criador, que trará às claras (e recompensará) todo trabalho “escondido” debaixo do sol.

O que, debaixo do sol, é vapor, acima do sol, é sólido. Os feitos dos homens evaporam na terra, mas solidificam nos céus. O que passa para os homens permanece para Deus. O que some diante dos homens perdura diante de Deus.

Assim, ao considerar a realidade de Deus e da eternidade, nada mais é vaidade. A partir do reconhecimento daquele que está acima do sol, nada mais é “nada”. Nada mais é vapor, vento, vazio, vão. Tudo é proveitoso, pois tudo será esclarecido e reconhecido por Deus. Haverá recompensa, realização, satisfação e preenchimento plenos. A verdadeira felicidade será possível e estará com Deus. O juízo pode até tardar, mas ocorrerá e será justo: “Porquanto não se executa logo o juízo sobre a má obra, por isso o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto para fazer o mal. Ainda que o pecador faça o mal cem vezes, e os dias se lhe prolonguem, contudo eu sei com certeza que bem sucede aos que temem a Deus, aos que temem diante dele” (Ec 8.11–12).

Portanto, “tema a Deus” e “nada será vaidade”.

Temer a Deus

Mas o que significa “temer a Deus” em Eclesiastes?

O autor responde: “guardar os seus mandamentos” (Ec 12.13b). Nesse sentido, no livro, temer a Deus é tê-lo como o Rei — aquele que manda e, assim, reina, sobre tudo e todos. “Quem é como o sábio? E quem sabe a interpretação das coisas? A sabedoria do homem faz brilhar o seu rosto, e a dureza do seu rosto se muda. Eu digo: Observa o mandamento do rei, e isso em consideração ao juramento que fizeste a Deus. Não te apresses a sair da presença dele, nem persistas em alguma coisa má, porque ele faz tudo o que quer. Porque a palavra do rei tem poder; e quem lhe dirá: Que fazes? Quem guardar o mandamento não experimentará nenhum mal; e o coração do sábio discernirá o tempo e o juízo” (Ec 8.1–5). Como diz o ditado, “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Nesse sentido, temer a Deus é ter uma visão correta de quem ele é (e de quem nós somos). É reconhecer-nos como “criaturas-vapor” diante do Deus-Criador. Limitados, finitos, impotentes, diante do Ilimitado, Infinito, Todo-Poderoso. Como Tiago escreveu centenas de anos mais tarde: “Eia agora vós, que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos; Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece. Em lugar do que devíeis dizer: Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo. Mas agora vos gloriais em vossas presunções; toda a glória tal como esta é maligna” (Tg 4.13–16).

Quem não teme a Deus vive como se fosse deus e como se Deus fosse um vapor. Mas quem teme a Deus recebe as diversas circunstâncias como divinas, com contentamento. Ainda que muitas vezes incompreensíveis, aquele que é temente recebe as circunstâncias, pela fé, como perfeitas ordenanças de Deus para a vida: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. (…) Que proveito tem o trabalhador naquilo em que trabalha? Tenho visto o trabalho que Deus deu aos filhos dos homens, para com ele os exercitar. Tudo fez formoso em seu tempo; também pôs o mundo [ou a eternidade] no coração do homem, sem que este possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até ao fim. Já tenho entendido que não há coisa melhor para eles do que alegrar-se e fazer bem na sua vida; E também que todo o homem coma e beba, e goze do bem de todo o seu trabalho; isto é um dom de Deus. Eu sei que tudo quanto Deus faz durará eternamente; nada se lhe deve acrescentar, e nada se lhe deve tirar; e isto faz Deus para que haja temor diante dele” (Ec 3.1, 9–14, colchetes acrescentados).

Assim, se as circunstâncias são boas, o que teme a Deus as recebe como uma graça, uma dádiva, um presente (Ec 3.12–13). Se são más, como um lembrete (também gracioso!) de que não somos Deus: “No dia da prosperidade goza do bem, mas no dia da adversidade considera; porque também Deus fez a este em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele” (Ec 7.14). Como um homem temente a Deus disse no dia da sua adversidade: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1.21).

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Portanto, o que vale a pena fazer nesta vida?

De acordo com o livro de Eclesiastes, vale a pena temer a Deus. Vê-lo e tratá-lo como o Rei, que manda, soberano, sobre todas as coisas. Vale a pena, como uma criatura-vapor, receber as diversas circunstâncias como divinas, com contentamento, como uma pessoa que sabe que não é Deus, mas que pode confiar no único Deus vivo e verdadeiro.

Que Deus verdadeiramente renove a nossa vida no temor a ele!

De meia-luz a dia perfeito

Contudo, pode-se dizer que a mensagem de Eclesiastes é uma mensagem ainda em “meia-luz”. Afinal, o livro não foi escrito à luz da ressurreição de Jesus e, portanto, ainda apresenta uma visão limitada (embora não errada) do pós-morte (ex.: Ec 3.22, 7.14, 9.10).

Mas, como recomendou o apóstolo Pedro, fazemos bem em atender a essa mensagem inspirada do Antigo Testamento com expectativa de termos sua plena iluminação pela revelação posterior, no Novo Testamento: “E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações. Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2Pe 1.19–21).

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De fato, a mensagem de Eclesiastes clareou, plenamente, como um dia perfeito, na ressurreição de Jesus. Como o apóstolo Paulo pregou no Areópago ateniense: “Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam; Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (At 17.30–31). Ou seja, segundo Paulo, a ressurreição de Jesus é a certificação de Deus de que ele realmente “há de trazer a juízo todas as obras” (Ec 12.14) por meio de Cristo — e que, portanto, o reconhecimento do senhorio total desse Jesus, a quem Deus ressuscitou e exaltou “acima do sol”, é a condição para que a vida não seja vaidade.

Obviamente, esse é um reconhecimento que muitos não farão, pois implica submeter-se à pessoa de Jesus como o Rei e Justo Juiz sobre todas as coisas — e, consequentemente, como o Senhor pessoal a quem se deve total obediência. Todavia, alguns o reconhecerão e, assim, vivenciarão a plenitude de vida buscada pelo “eclesiastes”.

O próprio texto de Atos 17 diz que, diante da afirmação de Paulo acerca da ressurreição de Jesus, alguns o escarneceram e outros simplesmente não deram importância para o que ele falou (At 17.32–33). Porém, logo em seguida, está registrado que “Dionísio, areopagita, uma mulher por nome Dâmaris, e ainda outros com eles, creram na mensagem” (At 17.34).

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De forma especial, essa resposta de Paulo à mensagem de Eclesiastes fica evidente em 1 Coríntios 15. Nos versículos 12 a 19, Paulo diz que, se Cristo não ressuscitou, reconhecê-lo como o Senhor também seria vaidade, vão, sem proveito eterno: “se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1Co 15.14). De fato, crer em Jesus como o Senhor e pregá-lo seria a maior das inutilidades: “os que morreram crendo em Cristo estão perdidos. Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” (1Co 15.18–19).

Mas — ele prossegue nos versículos 20 e 21 — “de fato Cristo ressuscitou”, o que garante, também, a nossa ressurreição e, portanto, a certeza do esclarecimento e da recompensa do nosso trabalho nesta vida.

Mais à frente, do versículo 29 ao 32, Paulo argumenta que, se Cristo não ressuscitou (e, consequentemente, se não há ressurreição), o melhor seria só comer e beber sem pensar em juízo, pois não haveria vida após a morte: “se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (1Co 15.32b). Logo, não haveria proveito em sofrer por Cristo nesta vida: “se, como homem, combati em Éfeso contra as bestas, que me aproveita isso, se os mortos não ressuscitam?” (1Co 15.32a).

Mas, depois de reafirmar que Cristo ressuscitou e que, por isso, também ressuscitaremos (1Co 15.54–57), Paulo conclui que o nosso trabalho, no Senhor (isto é, reconhecendo-o como o Senhor), não é “vaidade”: “o vosso trabalho não é vão no Senhor” (1Co 15.58).

Nada se perderá. Tudo o que for feito para a glória de Deus — mesmo o comer, o beber, ou qualquer outra coisa (1Co 10.31) — será esclarecido e reconhecido pelo Senhor no dia do juízo (c.f. 1Co 4.5; 3.11–15). Como Paulo exortou em outra carta: “E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens, sabendo que recebereis do Senhor o galardão da herança, porque a Cristo, o Senhor, servis” (Cl 3.23–24).

Por isso, trabalhe para o Senhor — onde quer que você trabalhe — com o seu melhor, e não com o seu pior, pois no Cristo ressurreto o seu trabalho não é vaidade.

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Debaixo do sol, “tudo é vaidade”. Sem o temor de Deus, não vale a pena fazer nada nesta vida. Não haverá proveito algum.

Mas, temendo a Deus, tudo é significativo; nada é vaidade. Ao reconhecer aquele que ressuscitou dentre os mortos como o Rei e o Justo Juiz sobre todas as coisas, nada se perderá; nada evaporará para sempre. Toda a vida valerá a pena, pois cada detalhe um dia será esclarecido e recompensado pelo Senhor. Tudo será aproveitado. Nada ficará “fora do lugar” aos olhos daqueles que reconhecem o Deus que “tudo fez formoso em seu tempo”.

Portanto: “De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem. Porque Deus há de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau” (Ec 12.13–14). Amém.