Por que a Páscoa deixava Paulo de joelhos?

Parte da tela “A conversão de São Paulo”, de Caravaggio (1600-1601)
14 Por causa disto me ponho de joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, 15 Do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome, 16 Para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior; 17 Para que Cristo habite pela fé nos vossos corações; a fim de, estando arraigados e fundados em amor, 18 Poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, 19 E conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus. 20 Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, 21 A esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém. (Ef 3.14–21)

Nessa passagem, Paulo fala que ora (14b) por uma causa (14a) e para um efeito (16–19); e conclui com uma oração (20–21).

Por que Paulo ora?

No início dessa passagem, Paulo diz que ora “por causa disto” (Ef 3.14b). “Disto” o quê? Qual é essa causa? Qual é esse “motivo de oração”?

Paulo ora por causa de tudo o que ele vem falando desde o início da carta (c.f. Ef 1.15–19; Ef 3.1a). Da sua visão do que Deus fez em Cristo, por sua morte e ressurreição (e.g. Ef 3.4, 11). Uma só nova família de irmãos: a “família de Deus” (Ef 2.19c), a igreja, que é o corpo de Cristo (Ef 1.22b-23). Uma família única, na qual não há mais a divisão entre “nós” (judeus) e “vós” (gentios), mas somente um renovado “nós”, que engloba tanto judeus quanto gentios: “os que cremos” (Ef 1.19).

A implicação destacada por Paulo é a de que temos acesso ao Pai, em nome do Filho, no Espírito. Judeus e gentios, “ambos (…) em um mesmo Espírito” (Ef 2.18), diante do Pai, como o corpo vivificado daquele que é o cabeça, o Filho.

Portanto, podemos acessar o Pai com ousadia e confiança, pela fé em Cristo:

“segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor, no qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele” (Ef 3.11–12).

Como na imagem do Pai apresentada no ensino de Jesus (e.g. Lc 11.1–13), podemos fazer pedidos a Ele com confiança, pois Ele é por nós.

“Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hb 4.16).

É exatamente isso que vemos Paulo fazer em Ef 3.14–15: ele acessa o Pai da família em oração. Porque Deus deu acesso a si em Cristo, Paulo se põe de joelhos, com reverência, perante aquele que está no trono: o Pai-Rei. O Deus Pai Todo-Poderoso, Criador dos céus e da terra — e de todas as criaturas, celestiais e terrestres. O Redentor, Pai da nova criação; de todos os crentes, tanto dos que já morreram — e estão nos céus — quanto dos que estão vivos — na terra. Da “igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações” (Ef 3.21). Daqueles que, criados e redimidos por Ele, tomam dEle o nome, clamando: “Aba, Pai nosso”.

Portanto, Paulo ora porque, ao olhar para o que Deus fez na Páscoa, ele compreende que o Pai lhe deu acesso para entrar diante do trono da sua graça, a fim de que ele obtenha ajuda em tempo oportuno. Ele tem o “crachá” para entrar na sala do Senhor dos senhores, seu eterno Pai. Por isso Paulo se coloca de joelhos!

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E quanto a nós? A Páscoa também tem nos deixado de joelhos? Se não, por quê? Acessemos o trono! Um novo e vivo caminho foi aberto pelo sangue de Jesus; podemos entrar por ele com confiança; o Pai do nosso Senhor Jesus Cristo, nosso Pai, aguarda nossos reverentes pedidos com seu rico depósito de misericórdia e graça!

Para quê Paulo ora?

Para que o Pai complete a obra que Ele começou. Para que Deus leve a cabo, por meio da igreja, os efeitos do eterno plano que Ele cumpriu de uma vez por todas em Cristo. Para que Ele faça com que toda a criação conheça os significados da Sua obra. Para que o mistério do que significa Cristo — as ricas implicações de sua vida, morte e ressurreição — seja universalmente manifesto.

“Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus, segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor, no qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele” (Ef 3.10–12).

Ou seja: Paulo vê, não apenas o que Deus fez no passado em Cristo, mas, também, toda a riqueza do que essa obra significa para o presente e o futuro — e, então, ele ora nessa direção, como um co-missionário na missão de Deus.

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Uso deliberadamente o termo “obra” porque, em Ef 3.16–19, Paulo parece retomar essa imagem da “edificação” (c.f. Ef 2.20–22) como uma visão do que Deus está fazendo em Cristo. Ao olhar para a vida, morte e ressurreição de Jesus, Paulo vê que, além de estar constituindo uma nova família para si, Deus está edificando um novo templo em que Ele possa morar, enchendo-o com a sua presença:

“Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” (Ef 2.20–22).

Da “saída do Egito” em Cristo (a verdadeira Páscoa) ao término da construção do novo templo (a cidade-jardim de Deus): é “por esta causa” — ou “para” este efeito — que Paulo ora (c.f. Ef 2.22–3.1).

Especificamente, Paulo ora por dois propósitos: (1) para que Deus firme os fundamentos do templo; e (2) para que Deus edifique o templo sobre a terra até às suas dimensões projetadas, a fim de, então, enchê-lo completamente com a sua presença.

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Primeiramente, Paulo ora pela base da obra: os seus fundamentos (Ef 3.16–17). Ele pede a Deus que a igreja, em suas fundações (c.f. Ef 3.17b), seja graciosamente “corroborada com poder” (Ef 3.16, c.f. Ef 6.10), a fim de que fique firme (c.f. Ef 6.13b), para que Cristo possa nela “habitar” (Ef 3.17a). Como no trecho paralelo de sua carta aos Colossenses (Cl 2.6–7), Paulo reafirma aqui o que ensina consistentemente nos seus escritos (c.f. 1Co 3.11ss): que Cristo é o fundamento da obra de Deus, no qual a fé da igreja deve ser (con)firmada — e demonstrada pelo edifício do amor.

“Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele, arraigados e sobreedificados nele, e confirmados na fé, assim como fostes ensinados, nela abundando em ação de graças” (Cl 2.6–7).

Portanto, antes de tudo, Paulo ora pela firmeza desse prédio, para que seus leitores não sejam abalados em sua fé no Senhor Jesus — e, assim, tentados a terem sua vida edificada sobre outros rudimentos, que não Cristo (c.f. Cl 2.8–9; Ef 4.14). Nesse contexto, Paulo detalha onde, como e com quantos recursos ele pede que essa obra de Deus seja feita:

. Onde: a partir de dentro; na fonte da vida, “nos corações” (Ef 3.17), “no homem interior” dos crentes (Ef 3.16), os quais são o templo de Deus (1Co 3.15–17; 1Pe 2.4–5).
. Como: “pelo seu Espírito” (Ef 3.16), sábio e poderoso arquiteto de Deus (c.f. Gn 1.2c; Pv 8.22–31), o qual é o próprio Deus já nos enchendo com a sua presença.
. Com quantos recursos: “segundo as riquezas da sua glória, vos conceda” (Ef 3.16a); isto é, com o estoque infindável e gratuito do Pai, escondido no Filho (c.f. Ef 1.3; Cl 2.2–3), a verdadeira “glória do segundo templo”.

Paulo sabe que o Arquiteto e Construtor ama responder graciosamente a essas orações alinhadas com o seu eterno projeto.

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Depois de orar pela base da obra, Paulo ora pelo seu fim: o alcance das dimensões projetadas e a colocação da imagem de Deus no templo (Ef 3.18–19). Ele enumera as dimensões do edifício do amor de Deus (Ef 3.18–19a: “a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade”, c.f. Ap 21.15–17) e pede a Ele que a igreja como um todo possa alcançá-las plenamente, de forma completa (Ef 3.18; c.f. Ef 4.13b).

Além disso, à medida que esse templo avança rumo ao seu tamanho perfeito, Paulo ora para que a perfeita imagem divina (Cristo, em seu amor) seja nele revelada, preenchendo-o com a presença de Deus (Ef. 3.19; c.f. Ef 1.23). Esse conhecimento de Deus em Cristo enche o templo e excede todo entendimento, de forma que a limitada compreensão humana não consegue ficar de pé diante da manifestação de Deus (c.f. 1Rs 8.10–11). Os “sacerdotes” desse novo templo são completamente tomados pela visão do amor de Deus por toda a criação, em planejar e executar tamanha obra para a sua glória e para o nosso bem. Este é o propósito final que Paulo vê no plano divino: o conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo, enchendo a terra como as águas cobrem o mar (2Co 4.6; Hc 2.14); Deus sendo “tudo em todos” na totalidade da nova criação (1Co 15.28).

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Essa visão lança luz, por exemplo, sobre os dez capítulos iniciais do primeiro livro de Reis (1Rs 1–10). Afinal, ali também, um filho (Salomão) é coroado por seu pai (Davi), que coloca sob seus pés seus inimigos. A esse filho, então, são concedidas todas as riquezas e sabedoria — que se estendem, com largueza, a toda a criação. Ele leva adiante o intento do pai de construir um templo e palácio para sua habitação. O noivado do filho com uma noiva estrangeira permanece até o término da construção, para a qual provisões são trazidas por meio de alguém que amava o pai e que se deliciou na sua obra. Por fim, a habitação do templo e do palácio é consumada, com a celebração do casamento do filho. Com esses eventos, o nome de Deus corre por todas as nações, até os confins da terra, atraindo a visita da rainha de Sabá, que traz a Jerusalém a glória de sua nação.

Não é à toa que João desenha a consumação da história em Apocalipse como a vinda da imagem de Deus com seu templo, enchendo toda a terra com o conhecimento de sua glória e, a partir do seu templo (a cidade-jardim), governando sobre toda a criação (c.f. Gn 1)! De Gênesis a 1Reis, a Efésios, a Apocalipse: uma inebriante visão da glória de Deus, vista na sua imagem, enchendo o templo dos céus e da terra, pelo seu Espírito, para louvor do Pai-Rei!

Paulo ora

Diante de tamanha visão dos propósitos de Deus, Paulo cai sobre os seus joelhos (Ef 3.20–21). Olhando para o que Deus fez e está fazendo em Cristo, o apóstolo está certo de que Ele é poderoso para completar a obra que começou: “ele é poderoso para fazer” (Ef 3.20a; c.f. Fp 1.6). Nada, nenhum poder, pode impedi-lo de fazer essa obra!

E Deus está exercendo esse eficaz poder por meio de nós. Ele está completando a sua obra por meio da igreja (i.e. pelo poder dEle que está atuando em cada um de nós — o mesmo poder que ressuscitou e ungiu o Filho em sua coroação).

Contudo, por mais que compreendamos, trabalhemos e oremos pela obra de Deus, ela ainda será muito maior do que qualquer coisa que olho viu, ouvido ouviu e coração imaginou: “muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos” (Ef 3.20a). Portanto, podemos nos dedicar a Deus sem medo de chegarmos a saber tudo sobre Ele ou de termos feito tudo o que ainda estava para ser feito — esse risco não existe! Nademos e voemos no imenso oceano e céu dos propósitos de Deus. Nós nunca iremos esgotá-los. Apenas deliciar eternamente os ventos e as correntezas da perfeita obra de Deus. A força para a obra é dEle — e, portanto, dEle é a glória pela realização. Descansemos e trabalhemos nessa humildade. Diante dEle, coloquemo-nos de joelhos, em todas as gerações e para todo o sempre, para glorificar o verdadeiro Construtor (Ef 3.21) — como Paulo fez.

Por que a Páscoa deixava Paulo de joelhos?

Por que a Páscoa deixava Paulo de joelhos? Porque Paulo vê que ele é uma pedra viva e que, a partir dele e de seus irmãos, o Pai está construindo um templo — no qual Deus veio e virá para habitar conosco para todo o sempre. Paulo se vê chamado a ministrar nesse templo como um sacerdote, no corpo e no espírito, em trabalhos e orações — oferecendo a si mesmo como um sacrifício vivo de ações de graças, agradável a Deus.

Assim, também, ele conclama toda a igreja a se colocar de joelhos diante do Pai, em gratidão! Coloquemo-nos, pois, de joelhos, nesta Páscoa, “tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” (Fp 1.6).

“Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória, ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém” (Jd 24–25).