Fica, vai ter bolo.

Uma relação que durou alguns meses mas pareceu
a vida toda.


"Esse incrível poder que o cigarro e o isqueiro tem de unir pessoas."

Nós estávamos no drive thru do Habib's. Pedimos a promoção da pizza em dobro. Eu nunca achei que estaria fazendo o que fiz nesse dia, quer dizer, foi tudo muito hollywoodiano: nós assistimos o pôr-do-sol numa parte alta da cidade, fumamos juntos, nosso papo fluía, rimos ao descobrir que a pizza não veio cortada e teríamos que cortá-la com as próprias mãos e os beijos foram melhores que qualquer comédia romântica. Falando em filmes: isso me lembra nosso primeiro encontro no cinema. Assistimos Cidade de Papel.


Cheguei no Shopping procurando seu carro no estacionamento. Seria fácil, era só procurar por uma placa de Conceição dos Ouros no meio de várias placas de Pouso Alegre.

Duas cidades de papel para duas pessoas de papel.

Fumamos um Marlboro e conversamos com um homem que estava sentado lá fora. Assunto vai, assunto vem. Combinamos até de criar uma plantação de morangos, se lembra? Esse incrível poder que o cigarro e o isqueiro tem de unir pessoas.

Entramos na sala do cinema. Parece que finalmente encontrei alguém que gosta de comentar filmes enquanto assisto ao mesmo tempo. Alguém que não me mandasse calar a boca porque eu falava demais. Ou ria demais durante um filme de terror.

Ele me levou para casa. Chegamos. Dei um abraço. Rápido e curto, como deveria ser. Ele começou a rir porque bateu a mão no volante ao tentar retribuir o abraço. Saí do carro. Tinha algo faltando. Não que fosse importante, mas seria um detalhe a mais.

É certo que nunca estamos onde queremos estar. Sempre queremos estar em algum outro lugar, mas dessa vez não, eu queria estar bem onde estava. Descobri que não importa onde você está e sim com quem.

Voltando ao dia do Habib's: o risco de sermos pegos no carro deu uma pitada de adrenalina. A trilha sonora: Eduardo e Mônica. Entre outras, mas essa grudou na minha cabeça enquanto as coisas esquentavam dentro do carro.

Eu queria a tarde inteira, a noite inteira, cada segundo de cada minuto com você, V. Que merda, acho que eu já te amava.

Eu sei que ambos não gostamos de pensar no futuro e viver o agora… mas é tão inevitável.

Ele terminou todos seus últimos namoros. Não era uma pessoa ciumenta. Quando quiseram terminar, ele simplesmente aceitava até a pessoa se arrastar de volta. Suas ex-s eram incríveis. Não conheço elas mas pude perceber, pelo brilho nos seus olhos, ao falar sobre elas. Então: qual foi o problema?

No fim das contas, isso tudo é uma felicidade de papel. Mas as memórias não. Muito menos nós dois.


Estou dando continuação ao meu último texto. Estou escrevendo todo filme que passou na minha mente e que você não assistiu, V. E nesse filme é que, porra, eu te amei demais. Mas Julho, Agosto e Setembro já se passaram. O dia está lindo, ensolarado e tudo mais. Já é Outubro e o céu está claro, assim como tudo agora está claro para mim.

Acho que temos prioridades diferentes. Ele quer morar em Conceição dos Ouros. Quer aceitação dos amigos, um emprego decente e uma namorada pra apresentar para os amigos. Eu quero São Paulo. E Canadá. Talvez a Tailândia por um ou dois anos.

Quero escrever e morar num apartamento horrível, viver uma paixão desajustada, e fazer um mochilão pela América do Sul.

Pra ser sincero, nunca conheci alguém com umas ideias tão bacanas como a dele. A ideia de não se preocupar com o futuro e sim viver o agora. A ideia de não ter vergonha para conhecer estranhos. A ideia de fumar quantos maços de Lucky Strike quiser, sabendo que no final do jogo, as peças voltam para a mesma caixa.

Na noite em que brigamos, eu fui no terraço do meu prédio. Estava frio demais. De vez em quando meu porteiro ia checar se eu estava bem. Até ele sabia que eu não estava bem. Fumei o maço todo de Marlboro. Eu assistia à fumaça ir embora, ir com o vento, desaparecendo no ar, assim como você resolveu desaparecer da minha vida — um fantasma na minha lista de contatos. Eu queria o que não podia acontecer, e é por isso que "nós" acabou.

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.”

Ah, Drummond… Essa frase é especial.

Depois que eu amigo de infância morreu, prometi a mim mesmo que viveria mais minha vida. Eu viveria por mim e por ele. Tô tentando.

Eu não sei se a vida é curta, mas sei que essa vida é uma só. E que o tempo não volta. A gente tem que fazer o que tem que ser feito, sem ficar procrastinando. "Ah, amanhã eu faço isso, dá tempo". NÃO, Jonhy! Não dá tempo. Você lembra do Legião Urbana?

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã porque se você parar pra pensar na verdade não há.

Pode ser hoje. Façamos ser hoje.

Acho que agora eu entendi a diferença entre ter vergonha e ser vergonhoso que ele falava. Talvez, esse vergonhoso se trata de aceitação social. Conceição dos Ouros. Como eu peguei ódio por cidades pequenas (nada contra você) mas as pessoas tem umas ideias tão pequenas e uma mente tão fechada. Maldita cidade de papel. E suas pessoas de papel. Não posso generalizar, é claro.

Eu sei que você tem lá seus demônios internos. Você sequer consegue se abrir para uma psicóloga da sua cidade, por medo e vergonha, quem dirá que você se abriria por mim.

Quem sabe daqui uns anos. Quem sabe não vamos tragar um Marlboro na nossa plantação de morango, tomar vinho e comemorar juntos a vitória da mãe dele contra o câncer. Quem sabe não vou convidá-lo para fazer o mochilão comigo.

Não posso me ocupar com os "quem sabe" agora. Preciso ser feliz hoje, com urgência. O amanhã, eu vejo amanhã.