O foco deve ser o cliente, não a concorrência!

O verdadeiro problema não é a Uber ou a Cabify mas sim a perda do monopólio do sector dos transportes individuais de passageiros. Este monopólio permitia aos taxistas ignorar a insatisfação dos clientes, pois estes não tinham alternativas. Um pouco à semelhança do que se está a passar na indústria musical, onde as grandes editoras discográficas vêm o domínio em risco perante o aparecimento do Spotify e outras plataformas do género.

Confesso que mal me recordo da primeira vez que apanhei um táxi. Lembro-me vagamente que foi com um grupo de amigos, no Porto, após uma noite longa de fim de semana. No entanto, não me esqueço da preocupação em questionar as opções de percurso tomadas pelo taxista durante a viagem em detrimento de outras mais apropriadas — pelo menos assim achávamos. Este é talvez o esquema mais simples e conhecido utilizado pelos taxistas para encarecer a corrida. Qualquer pessoa que tenha viajado de táxi terá certamente uma história para lhe contar. E algumas são bem hilariantes, como por exemplo passar portagens com tickets falsos ou fazer o cliente atravessar a auto-estrada a correr.

As novas tecnologias estão a ter um papel disruptivo na reinvenção de modelos de negócios que não sofriam qualquer alteração de fundo há décadas: a boa notícia para os clientes é que estes novos modelos de negócio tendem a focar-se na satisfação do cliente acima de tudo, ignorando os lobbies que mandam no mercado, a má notícia é que quem subsiste neste mercado, sente o seu cargo e estabilidade financeira ameaçada, dando origem a um choque de posições. Por fim, temos o cliente que confrontado com a oferta, escolhe onde quer colocar o seu dinheiro. Hoje o cliente é mais exigente, procura satisfazer uma necessidade, tendo em conta não só o preço mas também a qualidade e transparência. É isto que a Uber e Cabify prometem oferecer.

Muita tinta correu em Portugal, por estes dias, devido à manifestação dos taxistas em Lisboa contra as plataformas da Uber e Cabify. Os taxistas têm todo o direito em mostrar a sua insatisfação na luta pela defesa dos seus direitos e interesses. É justo relembrar que os taxistas desempenham um papel muito importante junto dos idosos, portadores de deficiência e doentes, principalmente fora das grandes cidades do país, cidades essas, onde a Uber e restantes plataformas não têm qualquer interesse em operar dado o mercado ser bastante reduzido.

Não sei se as medidas propostas pelo governo são ou não as mais adequadas, mas para isso existe diálogo, ou deveria existir, entre todos os intervenientes de forma a chegarem a um consenso. Contudo, sei que a regulamentação deste novo modelo de negócio é uma obrigatoriedade. Não há “marcha-atrás” possível. Os clientes têm o direito de poder escolher o serviço que mais lhes convém. Se os clientes não estão a escolher o táxi, então é porque algo não está bem no serviço que prestam. Os taxistas precisam compreender isto urgentemente, caso contrário nunca vão conseguir virar o jogo (ou pelo menos empatar). Não será certamente com estas manifestações repletas de ódio, ameaças e violência que o vão fazer, pelo contrário, só estão a fortalecer a Uber e Cabify — é factual, no dia da manifestação a Uber foi a aplicação mais descarregada na apple store em Portugal.

A opinião sobre os taxistas em Portugal já não era boa e estes incidentes só a vêm agravar. Os taxistas precisam de criar “manifestações de charme”. Precisam de aprender a lidar com a concorrência, melhorando a qualidade do serviço prestado. É assim que as empresas crescem e solidificam a sua posição no mercado. Por exemplo, os produtores nacionais de carne suína deram um excelente exemplo fazendo vários protestos onde ofereciam sandes de carne de porco nacional. Uma excelente iniciativa para alertar os consumidores para os problemas do sector e reforçar a qualidade da carne nacional. Acredito que foi um protesto muito mais eficaz do que qualquer corte de estrada ou paralisação de trânsito. Não quer isto dizer que os taxistas devem começar a oferecer viagens, mas sim que precisam de encontrar uma forma para nos tornarem solidários com a sua causa. A solução passará certamente por se tornarem mais honestos e transparentes, por disponibilizar uma plataforma nacional única que possa ser acedida pelos diferentes dispositivos electrónicos que seja fiável e robusta, em vez das 9 ou 10 plataformas que referem já disponibilizar — qualidade em vez de quantidade.

Espero sinceramente que a industria dos taxis se consiga reinventar. Como consumidor quero concorrência para ter liberdade de escolha. Só assim terei um melhor serviço e a um preço mais competitivo e justo. Se o sector dos táxis não superar esta contrapartida então corremos o risco deste serviço desaparecer, ficando sujeito a um novo monopólio.


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