A transferência de Dória e o ovo de Neymar
Não se sabe se foi doping financeiro. Por meio de contratos de patrocínio e doações de fundações cujo nome ignoramos, há uma estratagema ardilosa na trajetória deste fenômeno na sua área.
Sua ascensão meteórica e envolvendo valores muito acima dos praticados pela concorrência trouxe a ele celebridade instantânea. Tomou de assalto a sua seara de atuação. Sempre com sua comitiva de parceiros de amizade e negócios (chame-os de tóis ou Lide), com viagens insondáveis ao redor do mundo (dia desses esteve na China), ele é de fato muito bem assessorado. Um fenômeno de marketing. Entre jingles comerciais e barbeares invejosamente rentes, o prefeito paulistano crava a aceleradas marretadas seu nome na vernáculo jornalístico nacional. Fosse o Paris Saint-Germain o que no Brasil se chama direita, o que se chama esquerda está dando bem menos trabalho do que os catalães deram aos cataris. Que, aliás, patrocinam tanto o Barcelona quanto o clube francês. Divagamos, mas as coincidências abundam.
Certa feita em Salvador, confundiram Dória com a galinha dos ovos de ouro e penteado por vezes galináceo do detentor da transferência futebolística mais cara da história da geopolítica do Oriente Médio. Arremessaram o que dias atrás saía da cloaca das presidiárias de uma granja em busca de melhor sorte na contingência política da opinião pública em 2018.
Tentaram ofender o gestor politicamente mais eficiente; na capital baiana, ironicamente, acabaram fazendo uma oferenda. Paulatinamente, encerram seu destino numa encruzilhada obscura da disputa eleitoral.
Articulando seu discurso sem tanto nexo após o arremesso do que poderia ser um dia um frango, com palavras-chaves, tal um compositor pop para pré-adolescentes analfabetas funcionais, Dória emite alcunhas que o lançam, mais do que o produto granjeiro, à quintessência do anti-lulismo: PT, manifestantes de esquerda agressivos, palavrões, intolerância, Lula, esquerdas, intransigência, mal do Brasil, Venezuela. Arremata com um “acelera, Brasil” e o paz-e-amor deitado que usa desde a campanha eleitoral do ano passado. Pela repetição da tática publicitária, há no nariz do eleitorado um odor evanescente de coerência no discurso. Em tempos de crise institucional generalizada, isso é mais do que suficiente. Trump não me deixaria mentir.
O ridículo e antidemocrático arremesso de ovos na cabeça de Dória nem sujou seu terno. Na verdade, até platinou seu penteado, dando um quê de Ken da Barbie à figura. Contudo, um suflê fofinho e saboroso, concedido e condimentado por cidadãos e instituições automanifestadas de esquerda, sairá do forno daqui pouco mais de um ano. Tudo indica que a esquerda desaprendeu a jogar futebol. Dória pede a camisa 10.
