O fim do rolê

Ato 1:

Outra vez, Santiago se passou.

Tomava antibiótico, bebeu whisky

Era alérgico a glúten, comeu Snickers

Tinha medo do escuro, eram 4:07 da madrugada.

Clima frio, Cidade Baixa, vazio existencial… Santiago pensava demais, principalmente quando estava sozinho.

Se irritava com a felicidade ingênua das pessoas, sem motivo explícito, mas ao mesmo tempo era melancólico ao lembrar dos antigos amores, dos risos intermináveis, também sem motivo .

Santiago era um homem exato

Santiago era um paradoxo

E isso o irritava.

Ato 2:

Cabeça trêmula, movimentos limitados, sentado em uma beirada da rua, ele pega o telefone e abre o aplicativo Uber.

A feição externa não mostrava o que passava na cabeça do menino:

“Puta merda, essa tarifa dinâmica vai me fuder”

Bebeu demais, resolveu dar um cochilo para esperar a viagem

O aplicativo avisa quando o carro tá pra chegar

Não avisou.

Ato 3:

O silêncio da João Alfredo foi interrompido por uma voz grossa e seca, quase como um soar de um antigo violoncelo

“Tu que é o Santiago?”

Santi se levantou, acenou com a cabeça e depois parou a fitar o rosto do velho homem que o chamava.

“Caralho, tu é a cara do Morgan Freeman” — Disse

O senhor riu e fez um gesto com a cabeça, indicando que a viagem aconteceria em um Del Rey Dourado.

Ele realmente era a cara do Morgan Freeman

Tinha a voz do Morgan Freeman

Era velho como o Morgan Freeman

Santiago, astuto, inferiu que se tratava de um sósia, que por causa da crise teve que fazer um bico de Uber.

O Brasil fazia Santiago beber

E agora ele estava pegando uma carona com o todo poderoso

Ato 4:

Ao entrar no carro, Santiago debruçou-se sob o vidro e destinou todo seu foco para a rua, afim de se esquivar de qualquer conversa sobre o clima ou sobre os assaltos na cidade.

Olhava pros becos escuros, pras pessoas que sobraram, todas tão hiperbolicamente eufóricas(a pior tristeza, para Santiago). Mas ele, diferentemente, queria uma verdadeira felicidade. Resolveu chamar o motorista, só por um divertimento rápido… tinha achado engraçada sua voz.

“Moço, tem bala?” — Perguntou

“Não” — Respondeu o velho

Santiago riu e pensou em gravar um áudio para seus amigos

Lembrou que ninguém acharia engraçado

Também lembrou que não tinha tantos amigos assim

Fechou o rosto, voltou para a janela e começou a observar melhor o entorno.

Ato 5:

Santiago percebeu que conhecia cada edifício que era transpassado pelo carro

Cada um, sem exceção

Estava assustado, devia ser da bebida. Ele morava na cidade a poucos meses, era sua primeira vez na Cidade Baixa.

Olhava para as árvores, elas pareciam cantar músicas que marcaram sua vida monótoma

Ele estava assustado, resolveu recorrer ao motorista

“Botaram alguma coisa na minha bebida, tô passando mal” — Disse

O motorista deu um leve sorriso

Santi ignorou, seguiu olhando a rua que passava veloz

Viu seus amigos

Viu suas ex namoradas

Viu sua mãe

Não parava de ver sua mãe

Os edifícios se tornavam gradativamente monocromáticos e já não eram mais do conhecimento de Santiago

Ao fitar imagens suas pela rua quase completamente escura, percebeu que o carro não seguia a rota para sua casa e que precisava chegar para se jogar na cama e esperar passar o efeito de qualquer coisa que tinham botado em sua bebida

Então exclamou ao motorista

“EU PRECISO CHEGAR EM CASA, PORQUE QUE TU NÃO TA SEGUINDO O DESTINO, PORRA?”

O motorista, novamente, sorriu

Santiago estava desesperado

Mal ele sabia que estavam em uma viagem sem destino.