O que, de fato, aprendemos com Raskólnikof? — Parte 1

Se você chegou até aqui por algum motivo que desconheço, seja bem-vindo. Aos demais, sejam bem-vindos, também.

Get together and enjoy.

Na modernidade, a maior das pressões que pesam sobre o individuo são as pressões que o isolam da sociedade. O número de pessoas que se sentem marginalizadas, separadas, solitárias, numa grande cidade como São Paulo é imenso. O próprio OdeC já falava que esse é o fator novo na história da humanidade, e por isso mesmo a natureza humana não estaria habilitada a lidar com essas situações. — Independente de como seja, a verdade é que todos os elementos de alienação, que dia-após-dia se interpõem com os teus sonhos,objetivos e valores interiores, constituem um desafio que só pode ser enfrentado mediante um esforço individual sincero.

Gather the jingles of your existence, restore the unity of your consciousness and be a man.

Repare que esses fatores de antagonismo e de demolição das unidades interior não eram tão ameaçadores na antiguidade. O romance é essencialmente a história de uma alma contra a sociedade, e seu heroi quase sempre tem um problema com ela, de modo que nunca se encaixa, ora porque ela é complexa demais, ora porque ele próprio não a entende. Ele crê que ela o rebaixa, humilha e faz pouco-caso. Não aceitando nada disso, e querendo se sobrepor e vencer a sociedade, é que encontramos Raskólnikof.

A própria síntese do personagem é definida pela inexistência de harmonia entre o interior do homem e a sociedade.

A sociedade moderna, na medida em que promete uma igualdade de direitos, uma abertura para todos, ela também suscita na alma de milhões de pessoas ambições que estão muito acima não só da situação delas, mas também muito acima da capacidade delas. Por exemplo, o caso de Raskólnikof: ele não é um gênio efetivamente, ele é um estudante medíocre que se acredita um gênio.

Ele acredita que pode ser um Napoleão Bonaparte, capaz de dominar a sociedade que ele teme. Ele quer alcançar poder sobre a sociedade porque ele tem medo dela, então ele imagina que pode se tornar mais poderoso que ela e dominá-la. Ele, de fato, não pode fazer isso, ele não tem capacidade para fazer isso. Se você perguntar: “naquela época, quantos tiveram capacidade para ser Napoleão Bonaparte?” Exatamente um. Que foi Napoleão Bonaparte. E mesmo Napoleão Bonaparte terminou muito mal.

O indivíduo que se sobrepõe à sociedade e que impõe a ela a marca da sua vontade: esse não é um emprego que esteja à disposição de todo mundo, mas é uma ambição que é oferecida a todo mundo. Você veja hoje em dia o número de pessoas que acreditam que podem transformar o mundo: cada uma delas é o Raskólnikof. Nenhum delas pode transformar o mundo de maneira alguma, nenhuma delas pode ter um milésimo do poder que imagina ter. Mas elas tentam realizar isso. Mas não sozinhas. Elas dizem: já que a sociedade é poderosíssima demais, nós podemos nos juntar, para nos sobrepormos a ela.

Só que na hora em que se juntam, cria-se uma outra sociedade que vai pesar sobre eles tanto quanto a anterior, ou mais ainda. Ou seja, vai ser tão mais oprimente e tão mais alienante quanto a sociedade anterior. Isso quer dizer que, de fato, a sociedade moderna criou pressões inauditas e criou uma série de alívios factícios, artificiais e que nunca funcionam.

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