O Relato

Tudo o que sentimos nesses dias é o cheiro da morte.

Eu carrego em minhas costas quinhentas vozes, quinhentos suspiros, quinhentas almas que me fazem acordar toda vez que penso que consegui finalmente dormir no meio de todo esse desespero. Apenas esse extinto humano de sobreviver e essa, digamos, “vantagem” de se adaptar às mais assombrosas realidades é que me fazem estar nesse momento redigindo esse pequeno pedaço de lembrança desses dias que ninguém deveria presenciar.

A morte cheira a plástico e a borracha.

Plástico e borracha que pressionam nossas cabeças devido as suas tiras de couro que devem ser muito bem afiveladas em nossas nucas para que nenhum milímetro cubico do ar empestado chegue as nossas narinas.

Não posso dizer que conheço pessoas, mas sim corpos mascarados cobertos por cabelos ou por capuzes e que emitem uma profunda respiração e uma voz profundamente abafada. Algumas dezenas de Darth Vaders, penso eu, tentando escapar um pouco de tudo que nos cerca, mas sei muito bem que todos prefeririam ter cortado as próprias pernas e se atirado no núcleo de um vulcão em atividade e morrido lá dentro do que estarem vivos agora e, principalmente, de terem presenciado todos os eventos de que foram testemunhas até esse momento.

Até onde conseguimos ficar sabendo enquanto os rádios debilmente funcionaram era que em alguns lugares distantes as pessoas não tiravam suas máscaras nem mesmos para dormir. Temos a sorte de pelo menos uma vez na semana tirar essa porcaria do rosto e respirar o que nos resta dos tanques de oxigênio, mesmo que por um tempo cada vez menor, no subsolo onde estocamos nossos escassos suprimentos.

Tudo isso que julgávamos pertencer a nós, como se fossemos os imperadores supremos do mundo, há muito esmurrou nossas caras e nos fez sentir sua ira. O mundo está de volta nas mãos daqueles que o abitavam antes mesmo do homo sapiens cogitar a possibilidade de ser sapiens. Ou melhor, está de volta em suas patas.

Eu nunca cheguei a ver, graças a qualquer que seja o deus em que você, que por algum acaso se deparar com essas ralas palavras , se apegue em meio ao assombro que são esses dias para aliviar um pouco do seu sofrimento. Mas alguns poucos aqui já tiveram a infelicidade, e antes das ondas dos rádios sumirem nós também ouvimos histórias de coisas que esmagávamos com nossas mãos e pés, mesmo sem querer, e que nesses tempos são maiores que carros e que trucidam os poucos humanos que restam nessa desolação como que por diversão. Muitos dizem que eles estão apenas tomando o seu troco. Outros poucos dizem que eles pensam e fazem o que fazem conscientemente. Eu me recuso a acreditar nisso, mas quando lembro das histórias que já ouvi, de pessoas sendo encurraladas e praticamente tangidas como gado pro abatedouro, não ficaria surpreso se isso fosse verdade, mesmo desejando muito que o que eu pudesse estar vendo fosse apenas devaneio da minha cabeça já há muito sem qualquer ponta de esperança em qualquer futuro que seja.

É hora de nos recolhermos e esperarmos a morte lá em baixo.

Certa vez eu li ou assisti em algum lugar que o inferno é o lugar onde todos que estão lá rezam para morrer, mas a morte nunca chega. Se onde estamos agora não for o inferno, eu tenho medo do que minhas quinhentas vozes irão me dizer quando eu chegar lá.

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