Sinta… a lama

O som da pá em contato com a terra molhada era de um ritmo frenético. A chuva torrencial que caia confundia a água com o suor e a lama cobria todo seu corpo.

Menos de dois metros atrás de si, quatro sacos plásticos escuros brilhavam devido à água que despencava infinitamente e os faróis do carro, que eram as únicas coisas que iluminavam aquele ambiente. Apenas um dos sacos poderia ser encoberto facilmente embaixo de um casado. Os outros três eram de tamanhos que de longe chamariam a atenção.

- Quanto mais fundo, melhor — pensava.

A terra encharcada fazia a tarefa ficar ainda mais árdua, mas o desespero não dava margem para o descanso. O ritmo continuava frenético, movido por sentimentos de ódio e culpa que martelavam seu juízo.

Toda uma vida perdida em um repentino momento.

- Mais fundo. Mais fundo!

Aquela abertura já estava suficientemente profunda para se colocar lá dentro qualquer coisa. Menos o ódio. Menos a culpa.

Relâmpagos a clarear as trevas. Trovão atrás de trovão. E os braços sem descanso.

- Mais fundo!

O último ribombar dos céus se fez tão violento que o som de pá e terra e água parou abruptamente comandado pelo medo.

Podia sentir cada músculo de seus braços pegando fogo. A respiração ofegante. Suor e chuva pingando de todo seu corpo. E o mais palpável: o medo, que gelava todo seu corpo.

Vagarosamente começou a se pôr ereto para olhar para cima e ver que havia cavado tão fundo que não tinha como sair lá de dentro. Não caia mais um pingo daquele céu pesado e vermelho.

Silêncio.

Olhava com espanto para o quão para baixo sua obra havia lhe levado e ouviu o barulho de algo. O medo aguçara surpreendentemente sua audição. Era o som de algo que se rasgava. O plástico se rasgava.

Desespero!

Sabia o que aquilo significava, mas não acreditava no que seus sentidos gritavam em seu inconsciente. Aquilo não podia ser verdade. Aquilo não podia ser real. Mas mesmo assim, não queria está em outro lugar que não fosse a centenas de quilômetros daquele buraco.

Por mais que tentasse subir pelas paredes de seu confinamento, não conseguia nem ao menos tomar impulso para pular, pois a lama lhe prendia a terra.

O som de plástico sendo rasgado ficou mais nítido e mais intenso, com cada rasgo parecendo que estava a rasgar seu coração.

Por fim, o nada.

Aqueles segundos de silêncio mais pareciam horas, preenchidas apenas por uma longa respiração ofegante.

Os céus desabam mais uma vez. Raio, trovão e chuva ao mesmo tempo, em uma única pancada de desespero.

E lá no alto, a visão. Aquela coisa desmembrada, torta, sem nexo, sem… sem… A única coisa que aquela visão despertava mais que o medo era a loucura. Aquilo não podia ser real. Seja lá de onde fosse não era desse mundo, embora suas feições fossem nitidamente reconhecíveis por baixo de todas aquelas chagas.

Mais um raio cai e ilumina aquela forma, que com o trovão em sequência lhe atribuía um grito aterrador, mesmo que nenhum músculo se movesse naquela coisa. No próximo clarão a figura não mais estava lá.

Aquilo não passara de uma ilusão provocada pelo medo, pela culpa, pelo ódio?

Mais segundos que pareciam horas se passaram e a certeza que aquilo não passara de fruto de uma imaginação perturbada acalmava o seu coração. Curvando seu corpo para apoiar os braços nos joelhos e tomar uma grande respiração de alívio, começou a rir de seu momento de loucura.

Então sentiu algo a cair em sua nuca. Passou a mão pela cabeça e viu que o que havia caído era barro. O barro encharcado que passara todo aquele tempo cavando. Olhou para cima mais uma vez e viu mais um pouco daquele barro caindo. E depois mais um pouco. E mais um pouco. Até que cada vez mais e mais descia pelas paredes e depois começou a despencar em grandes quantidades e intensamente. Mais uma vez sabia o que aquilo significava, e aquele barro era mais concreto ao seu redor do que aquela visão que pensara ser fruto apenas de seu medo.

Começou a gritar em desespero pedindo desculpas, mas a terra só fazia cair cada vez mais rápido. Gritos e terra. Gritos e terra. Gritos e terra, e choro.

Quando apenas sua face estava para fora, a terra parou de vir.

- Por favor — dizia bem baixinho e chorando. — Por favor — disse agora mais alto, coberto por terra e choro.

- POOR FAAA…

E a voz fora calada por um punhado de terra jogado diretamente em sua boca, enquanto a cova que acabou por cavar para si mesmo era completamente enterrada.

������x����>