Amor por corrupção

Durante as eleições de um país qualquer, um candidato se destacava em meio a todos os outros. Eram muitos aqueles que desejavam a presidência do país, mas este concorrente liderava as pesquisas com fôlego suficiente para — caso a corrida eleitoral fosse uma corrida de 100 metros — olhar para trás e sorrir para seus oponentes.

Este homem é Eduardo. Nascido, levantado e apoiado pelo povo. Discursava para as massas com toda a sua vontade, até o rosto ficar vermelho sangue e as veias saltarem para a flor da pele. Arrancava vivas e palmas, de modo que, mesmo que fosse falar por somente 30 minutos, durava uma hora a mais. Os outros participantes de seu partido viam Eduardo como um exemplo, e até o haviam apelidado carinhosamente como “o honestíssimo”.

A propaganda política que passava na televisão, sempre durante a tarde, levava alegria para as casas. Eram poucas as residências que mudavam de canal. Na maioria dos casos, as conversas cessavam, um silêncio intocável atingia as cidades e aqueles que não estavam próximos a uma televisão, corriam para a que estivesse mais perto, ávidos para ouvir sobre a história de Eduardo.

“Homem nascido na pior parte do país. Demonstrou incrível inteligência desde pequeno. Criado por mãe solteira, com mais três irmãos, sem sinal do pai. Aprendeu dentro de casa que, por pior que seja situação, todas as pessoas são pessoas. Cresceu para se mostrar um menino muito dedicado, com notas perfeitas, até mesmo acima do máximo. Conseguiu uma bolsa para estudar na parte mais rica do país. Passou por todos os apertos de um estudante pobre que tenta morar sozinho. Atravessou as dificuldades, se tornando o homem que hoje é visto no alto do palanque.”

Ao fim da curta propaganda que, por mais estranho que seja, só dizia verdades, os aplausos ocorriam em uníssono, ecoavam pelas ruas, subiam os prédios, tremiam as grandes construções e faziam todo o ar vibrar. Todos podiam sentir o quão adorado era Eduardo, inclusive o próprio, que aplaudia alegremente de sua casa, ao lado de sua mãe e seus três irmãos, somando os aplausos de sua família aos do povo.

E o tempo passou: homens, mulheres e jovens se apresentavam nas urnas, em número maior que o comum. O resultado estava claro logo antes das eleições iniciarem, pois só se ouvia o nome de Eduardo nas filas. Ninguém esqueceu o número do presidente, não houve brigas. Ele mesmo apareceu para votar, sendo recebido com gritos de alegria.

E mais tempo passa: Eduardo ganhou as eleições com 95% dos votos. Nunca, na histórias de seu país, um presidente havia ganho uma eleição com um resultado tão próximo da unanimidade. Ao assumir o cargo, não existia espaço para todos assistirem, alguns dizem até que dois corpos ocuparam o mesmo espaço naquele dia. Fez seu discurso — fervoroso como de costume — e recolheu-se ao gabinete só, logo após a última pessoa que o assistia partiu para casa.

E nos dias seguintes, Eduardo cumpria alegremente toda a sua agenda. Um grande sorriso no rosto, a verdadeira alegria de ter se tornado presidente estampada em seu olhar. Incorruptível, ameaçou publicamente todos os outros políticos que estavam com a ficha suja. Ele os daria uma segunda chance, mas só porque acreditava na mudança do ser humano para melhor.

E tudo iria continuar muito bem, do jeito que estava acontecendo, se o Presidente houvesse se lembrado de colocar a paixão como uma possível falha de seus planos. Mas ele não havia se lembrado disso e essa falha acabou por acarretar consequências terríveis.

Em um dia como outro qualquer, Eduardo recebeu uma proposta indecorosa do Senador João. O esquema envolvia dinheiro em espécie recebido por fora, entregue no gabinete do Senhor Presidente por alguém de quem ninguém suspeitaria, para que assim o dinheiro pudesse ser levado alegremente para casa. Eduardo, entristecido por perceber o quão suja era a política de seu país, recusou a proposta e repreendeu João, pedindo-lhe amigavelmente que acatasse a segunda chance e parasse com tal mau hábito.

Mas o Senador João era esperto. Com seus 70 anos, não alcançou o cargo de presidente do país, mas conhecia a política como a palma de sua mão. Por experiência, já era praticamente formado em como manipular um homem e sabia muito bem que dinheiro e paixão poderiam mexer com qualquer um. Tratou logo de ignorar os avisos de Eduardo e mandou a mais bela dama que conhecia entregar o dinheiro em uma valise no gabinete do presidente.

E Eduardo não estava preparado para tal jogada. Ao se deparar com a formosa dama em seu gabinete, embasbacou-se. Por mais que tentasse, a mulher não falava:

“E qual seu nome?” — A moça respondeu com silêncio.

“Foi João quem lhe enviou?” — A moça, ainda calada, apoiou a valise preta na mesa presidencial.

“Já avisei que não desejo o conteúdo da maleta.” — Realmente, o honesto presidente, outra vez sem mentir, estava desejando outra coisa. A mulher, com movimentos suaves, abriu a valise e virou seu interior em direção ao presidente.

“Por favor, nem tente.” — Mas ele queria que ela tentasse. Ela estava inclinada sobre a maleta, ele podia ver mais que o normal.

“Olha aqui…” — Mas não terminou a frase. A conhecida do Senador João endireitou-se e saiu da sala, hipnotizando o pobre presidente com seu rebolado.

Alguns minutos depois, o homem ainda estava bobo. Coitado, nem conseguiu levantar de sua cadeira. Tudo o que fez foi dar uma ordem em tom idiota para sua secretária, pedindo para que cancelasse o próximo evento da agenda. Ainda nem havia fechado a maleta. O cheiro da moça, que havia trocado de lugar com o ar do ambiente, lotava o pulmão de Eduardo. Ele podia sentir o cheiro do desejo. Voltou a si somente após abrir uma das janelas, logo depois de cancelar um terceiro compromisso.

E, após alguns minutos de pensamento, alcançou a seguinte conclusão:

“Fui criado pela mais honesta das senhoras, na mais difícil das realidades. Passei pelo inimaginável para chegar onde estou. Tanto sofrimento para isto aqui. E nunca tive tempo para uma mulher sequer. Nunca amei, nunca senti uma mulher em minhas mãos, passei anos e mais anos focado somente em meu sonho. Nada podia me atrapalhar. Mas agora, alcancei-o. Está mais do que na hora de sentir o fogo da paixão de que tanto ouvi falar. Se meu povo realmente me adora, irá entender.”

E continuou a aceitar as propostas do Senador João. Não pelo dinheiro, mas pela mulher. A cada vez que ela entrava em seu gabinete, Eduardo se derretia na cadeira. O silêncio só o deixava ainda mais cativo. O cheiro continuava deixando-o bobo.

Passou a cancelar muitos compromissos para receber ainda mais visitas. Estava ficando mal visto por todos. O povo não entendia o que ocorria com seu herói. Alguns diziam: “ele vai voltar ao normal, lembrem-se, ele acredita em segundas chances”. Mas as esperanças populares eram falsas. Eduardo estava tão conquistado que nem conseguia se mexer para conquistar a mulher. E perdia cada vez mais tempo com ela.

Até que sua realidade tomou um golpe. Em um dia não tão como outro qualquer, a entrega foi realizada por um homem comum. De altura média, blusa azul, um jeans puído e uns tênis encardidos. O cheiro do novo entregador de valises, comparado ao da antiga, fazia Eduardo abrir a janela para não passar mal. E esse homem continuou a entregar maletas de dinheiro até o Presidente desistir dos negócios com o Senador, que não insistiu em mais nada.

E só não insistiu porque seu plano já estava caminhando para a segunda fase. Dentro de alguns meses, o dinheiro entregue para Eduardo seria descoberto pelo Serviço Secreto do país. O remetente, no entanto, continuaria desconhecido. Ao alto de seus 70 anos, João teria uma nova chance para virar presidente, empurrando o país para o fundo de um poço de corrupção e cada vez mais para longe do quão próspero tudo poderia ter sido com Eduardo no comando.

Foi assim que se deu o final da história. E como nas grandes histórias, tudo ocorreu por causa da paixão, algo tão humano.

Por João Carlos Pomu e Kamilla Ferreira.

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