Fictício mas nem tanto

Te conheci de verdade num dia em que tudo resolveu fazer a curva mais acentuada e despencar do penhasco na beira da estrada que é o seu amado roteiro. Te conheci de verdade quando vi seus joelhos falharem e você se encontrar no chão sem entender o que estava acontecendo. Te conheci de verdade quando, pela primeira vez em tanto tempo, você passou um dia inteiro sem conseguir dizer “está tudo bem”, seja para mim ou para qualquer pessoa.

Esse dia começou frio. Mas tudo bem, você não liga pro clima. Colocou uma blusa fresca por baixo do seu casaco preto favorito. Vestiu o primeiro par de meias que encontrou na gaveta, junto com a sua calça jeans mais fiel e um dos seus dois pares de tênis. Colocou seu colar enquanto estava saindo de casa. Apoiou a mochila cheia de cadernos em um dos ombros e partiu para enfrentar tudo o que estava por vir.

Nesse dia o seu roteiro era simples. Você estava de bom humor. Seria legal com todo mundo. Não odiaria aquele menino que não trata a namorada bem. Falando em namorada, você iria fazer uma surpresa para a sua. Todos os cadernos na sua mochila possuem textos e rimas exclusivos para ela. Ela provavelmente iria amar e chorar de felicidade quando te encontrasse no quarto dela, com cada poema na ponta da língua, e recitasse um atrás do outro, sem precisar olhar nos papéis.

Você se encontrou com sua mãe na rua. Ela saía mais cedo que você para ir para o trabalho, que ficava no seu caminho para a universidade. Você tinha três minutos para falar com ela e, nesse dia, os dois usaram os três minutos para brigar. Lá se foi seu plano de ser legal com todo mundo.

Chegando na universidade, você não deu bom dia para o guardinha. Entrou de fones, com a música no máximo. Ao encontrar nossos amigos, tirou um dos fones. Ainda tentou ser uma boa pessoa com a gente, mas alguns fizeram uma brincadeira que você não gostou, o que te levou a não falar mais conosco pelo resto do dia.

As aulas foram um porre. Na única aula que te deixava contente, você descobriu que esqueceu seu caderno. Apesar de ter tantos na mochila, nenhum serviria para aquela aula. Não adiantaria pedir uma folha emprestada. Teria que ser o seu caderno. E ele não estava lá, o que era sua culpa.

Você tentou pensar só para você que o dia ainda poderia ser salvo pela surpresa que faria para a sua namorada. Mas aí aquela boa e velha sensação ruim já havia te dominado. Seguindo o seu jeito de ser, posso dizer que você tocou o foda-se. Iria fazer a surpresa de qualquer jeito. Saiu zunindo da universidade. Não deu tchau para o guardinha. Um sorriso esforçado se abriu no seu rosto. Sua namorada morava ali perto.

Chegou lá, pegou a chave escondida que a mãe dela deixara para você, tudo já estava combinado. Você foi para o quarto onde já havia ido várias vezes. Estava tudo uma desordem. Caos total. Você sabia onde cada coisa ficava. Arrumou tudo na correria, mas do melhor jeito possível. Jogou a mochila num canto, sentou na beirada da cama, virado para a porta e começou o seu jogo favorito: imaginar no tempo livre.

Você provavelmente a imaginou entrando pela porta, cansada depois de um dia de aulas bem puxado. Ela iria soltar a mochila no chão, notar que a pilha de roupas perto dos sapatos havia sumido. Ela iria levantar a cabeça para encontrar um quarto organizado e você de boa vontade sentado na cama dela. A sua surpresa aconteceria e a partir daí só vocês dois poderiam decidir o que iria rolar.

Ao invés disso ela entrou no quarto de costas para você, já sem a mochila, beijando um dos nossos amigos. E foi aí que o seu mundo caiu. Acho que esse momento ainda é um branco para você. Altas emoções sempre mexem com a sua memória. Você levantou, pegou sua mochila, apoiou ela no ombro e tentou sair pela única saída do quarto (que estava bloqueada por eles).

Ela te notou. Ele te notou. O beijo parou. Ele tirou as mãos da bunda dela. Eles te olharam. Ele não sabia o que fazer. Ela murmurou seu nome. Você empurrou ele e saiu correndo, mais rápido do que você correu para chegar até ali.

O elevador não era uma boa opção, iria demorar demais para chegar. Você caiu pelas escadas até o térreo. Levantou com o coração mais machucado do que qualquer outra parte do seu corpo e correu como se as pernas não estivessem feridas, dessa vez mais rápido do que você correu para sair do apartamento.

Não poderia falar com a sua mãe: ela estava no trabalho e vocês haviam brigado. Não poderia correr para os nossos amigos: um deles estava com a sua namorada, será que os outros já sabiam disso? [Bem, eu não sabia.] Ainda assim, você correu pelo mesmo caminho da sua ida até o prédio.

E não me viu no fim de uma das ruas. Me atingiu em cheio com o seu corpo em movimento, com sua cabeça nublada e seus olhos cheios de lágrimas. Você me reconheceu e tentou explicar tudo o que havia acontecido. Eu entendi por alto e fiquei ali com você, por você.

Te conheci de verdade no dia em que você chorou agarrado em mim enquanto ainda estávamos caídos na calçada, sem ligar para as pessoas que andavam de um lado para o outro. Te conheci de verdade quando você não sabia o que falar, apesar de querer dizer muita coisa. Te conheci de verdade quando notei que você, apesar de sempre andar por aí com sorrisos e frases confiantes, passa por tantos problemas quanto qualquer um.

Menino bobo, mal sabia você que iria ficar comigo por uma vida toda.

(Texto fictício de uma amiga fictícia para um amigo fictício, mas bem que tudo pode ser real.)

-Pomu.

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