A Casa Grande se ilude

A crise financeira mundial avança como uma chuva ácida espalhando todos os seus males. O desemprego e a miséria assombram muitos e para outros tantos é um pesadelo que voltou a se tornar realidade. Debaixo da asa do ilegítimo “governo (golpista) da salvação nacional”, a poderosa tríade formada por grupos políticos, órgãos de comunicação e uma parcela do judiciário, que já possuíam há séculos os seus tentáculos espalhados em cima de terras, pessoas, direitos, se articulam para rifar o país e fazer voltar o passado que representam.

Perante a crise que nos atenta, o que fazem os vereadores da Câmara Municipal de Ponta Grossa? Os nossos representantes, ao invés de trabalharem para aplacar o avanço do abismo que separa ricos e pobres, aprovaram na semana passada um projeto de lei que assegura os seus privilégios. Se trata do projeto de lei 279/2016, aprovado no dia 27 de julho, de autoria da Mesa Executiva, que prevê que os vereadores que vencerem as eleições deste ano, recebam mensalmente o valor de R$ 10.063.29 — o montante é o mesmo pago aos atuais vereadores. De acordo com a iniciativa injusta, o presidente da Câmara continuará recebendo o salário de R$ 10 mil e mais R$ 5.031.70, referente a 50% do rendimento total, além de direito a um gabinete especial e outros quatro assessores. Os outros 22 vereadores poderão continuar nomeando um chefe de gabinete com salário mensal de R$ 4.130,34, e outros dois assessores, um com a remuneração de R$ 2.694,02 e outro de R$ 3.188,63.

O salário médio do trabalhador brasileiro em janeiro de 2016 foi de R$ 2.227,50, segundo levantamento feito nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Porto Alegre. Os dados são da PME (Pesquisa Mensal de Emprego) e foram divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Se compararmos com a média salarial do brasileiro, o salário dos vereadores é, portanto, um absurdo.

Observo esses antagonismos e penso: o que os vereadores pensam que são? Acham que são uma minoria contemplada por divindades, à qual tudo é consentido e concedido? O fato de os vereadores de nossa cidade terem aprovado um projeto que garante a continuação dos seus privilégios é só prova cabal de que eles não têm a ideia do que está acontecendo no país. Os parasitas representantes das oligarquias locais se iludem ao pensar que a Casa Grande se manterá em pé. Se iludem ao pensar que os seus privilégios não serão contestados.

O Brasil do século XXI é diferente. Enquanto os representantes da velha política lutam para comandar o atraso, o povo está cada dia mais entendendo que o mundo de hoje é apenas um momento do longo processo histórico e a convivência pode ser mudada. Estamos compreendendo que podemos e devemos botar de pé uma outra sociedade, uma sociedade que opere em outra lógica, porque a atual que temos, profundamente mergulhada em injustiça social, está nos matando. Se enganam, assim, as múmias que acham que o Golpe marcou o fim da história e que agora podem continuar tomando para si os recursos públicos e fazerem com eles o que bem entenderem. A história não está dada e a luta mal começou.

Um desejo de reconfiguração da cena política, portanto, cresce a cada dia. Não aceitamos mais a velha ordem das coisas e do progresso para os mesmos de sempre. Se não for para todos, não será para ninguém.

Texto originalmente publicado no Jornal da Manhã, em 04/08/2016

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