Dilemas de gente branca

Foto: Felipe Farias

Daniel está se barbeando quando ouve um barulho estranho lá fora: “Foguetes a essa hora?”, ele se pergunta. Sai de casa para pegar o ônibus e não se espanta com os inúmeros carros da PM passando por ele. Não há razão para temê-los, afinal. Ele segue para o trabalho e passa o dia entediado. No café da tarde, vai para a padaria do outro lado da rua e pede rosquinha e café com leite, que come devagar enquanto observa com o canto do olho os glúteos da moça da padaria, desejando-os. Após o trabalho, segue para a universidade, onde ouve professores falarem sobre um povo negro e pobre que eles só veem de dentro do carro nos finais de semana ou feriados, quando passam rápido pela periferia da cidade para pegarem a autoestrada em direção ao litoral.

À noite em sua casa, com o prato de arroz, feijão e carne na mão direita, Daniel vê uma rápida nota no telejornal noticiando que mais cedo na favela perto de sua casa quatro jovens morreram em confronto com a polícia. Muda de canal, aborrecido com a notícia de sempre, e deixa no filme de ação da HBO. Enquanto na TV o mocinho luta contra o mal para salvar a mocinha, com a mão esquerda Daniel pega o celular e entra no Facebook. Em sua timeline vê intelectuais paulistas e cariocas indignados com o que está acontecendo em Brasília. Para também manifestar preocupação, Daniel posta nessa mesma rede social cópias de trechos dos comentários desses intelectuais sobre a conjuntura política do país. Ele sabe que para ter muitas curtidas e compartilhamentos o post precisa ter a medida certa — quanto menor e mais simples for, melhor é. Se estiver acompanhado de foto ou meme, é sucesso garantido. Para ter ainda mais chistes, logo em seguida Daniel posta uma música qualquer do Criolo ou Chico.

A semana segue normalmente. No happy hour de sexta-feira Daniel e seus amigos, entre um comentário a respeito de futebol ou sobre a moça que passou, falam de política. E quando já é bem tarde, todos bêbados, um deles ergue o punho cerrado e diz: “Trabalhadores do mundo todo, uni-vos!” Todos batem palmas e canecos aprovando a intervenção do amigo. E decidem fazer manifestação no domingo para demonstrar que não querem mais a velha política. “Não dá pra ficar como está”, afirmam tomando longos goles de cerveja. “Convoca todo mundo no Facebook, precisamos botar de pé uma outra sociedade”, diz um outro.

No domingo, depois de almoçar na casa de sua mãe, Daniel vai para a praça onde terá a concentração. Vai de camisa vermelha com estampa do Chê comprada na Zara, o tecido fino dela faz a sua barriga de cerveja sobressair um pouco. Na mochila leva as armas da luta: cartaz e tinta guache. Na praça encontra um amigo que o cumprimenta dizendo: “Hoje faremos história, companheiro”. Com cartazes em riste, palavras de ordem e garrafinhas de água mineral, formam uma massa cheirosa que desce a avenida. Descem caminhando e cantando e seguindo a canção.

A PM acompanha à distância, fechando as ruas para os carros de modo a dar passagem para a manifestação. No meio do ato, sem ninguém saber o porquê, um dos policiais começa a atirar balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio, iniciando a confusão que se alastra para todos os lados. Os manifestantes, assustados, começam a correr. As bombas aumentam e o gás sufocante atordoa a todos. Alguns encapuzados e vestidos de preto não fogem com o ataque da PM e, de paus e pedras nas mãos, contra-atacam. Outros trajados da mesma forma, estilhaçam a parede de vidro de uma agência bancária. Sobre as cabeças, o helicóptero da PM seguia sobrevoando.

Daniel, junto com um grupo de manifestantes, é pego pela polícia, que manda que eles se encostem na parede. Todos são revistados. Os celulares e mochilas são confiscados. Daniel pergunta o que ele tinha feito, mas os policiais não diziam muita coisa, só respondiam que era “ordem de cima”. Até que um deles, talvez irritado com as insistentes perguntas de Daniel, diz: “o sonho de vocês não era ser preso pela ditadura? Vocês não queriam ser presos pela ditadura? Tá aí, a ditadura não vai tá mais só na periferia, mas no centro também”. Após tirarem fotos e filmarem os rostos de cada um deles, os policias entregam os pertences e os liberam.

Daniel deixa a manifestação para trás e segue rápido para o shopping, onde se encontrará com a namorada. Ele está assustado com a abordagem dos policiais, mas feliz por ter resistido ao mal para tornar o mundo melhor. Encontra a namorada preocupada, que o abraça com força. À essa altura ele já havia via whatsapp contado para ela tudo o que aconteceu. Decidem comprar alguns sanduíches no Mc e ir para casa. Na tranquilidade do apartamento, fumam um para acalmarem os nervos e, pouco depois, comem rapidamente os sanduíches. Mais tarde, já relaxados, vão para o quarto e transam com as luzes apagadas. Enquanto segura com força o corpo de sua namorada, ele pensa nos glúteos da moça da padaria. Ele goza, ela não.

Depois do sexo, ambos viram para o lado e pegam os celulares para percorrerem as redes sociais. Em sua timeline, Daniel descobre que uma jovem foi ferida no ato e perdeu a visão do olho esquerdo. Indignado com a violência policial, posta em caixa alta pequenos comentários enfurecidos contra a PM e convoca os amigos para outra manifestação. Defende a importância de no próximo ato levar flores para encher as ruas com todas as cores da primavera e deixar claro que a galera é da paz. Daniel adormece com o celular na mão e sonha com uma manifestação caminhando pela avenida, a bandeira vermelha e branca erguida bem alto. Em seu sonho, todos juntos limpos e cheirosos, com flores na mão, lutam por um mundo melhor, tudo na paz e tranquilidade.

No outro dia bem cedo, Daniel acorda insatisfeito por ser segunda-feira. Quando seguia para o banheiro para se barbear, ouve tiros lá fora e pensa irritado: “Que saco esse foguetório”.

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