Nós sempre teremos Paris

Foto de José Carlos Conte

Sempre nos encontrávamos às escondidas em hotéis baratos, como aqueles que sequer têm banheiro no quarto. Às vezes, quando ela saía do banho, deparava-se com um grupo de curiosos que se amotinavam no corredor apertado somente para vê-la de toalha. No quarto, com os cabelos ainda molhados, ela deitava-se ao meu lado. Inclinava-me sobre ela e, sem desviar o meu olhar do seu, beijava-a toda, com calma, como se o tempo não existisse mais. Ela me respondia com vibrações em cada polegada de sua pele, e em cada uma encontrava um calor diferente, um sabor próprio, um gemido novo, ela inteira ressoando por dentro como um arpejo.

Essas memórias vêm à minha mente enquanto a espero no hall do mesmo aeroporto em que há mais de um ano nos separamos. Quando ela partiu, fazia muito frio e nada parecia fazer sentido. Pensávamos que seria infinito, os cabelos embranquecendo, nós correndo o mundo. De repente descobrimos que não viveríamos juntos para sempre. No princípio foi um susto. Rapidamente os sonhos de uma vida inteira se mostraram perdidos, uma vida inteira imaginada um ao lado do outro desmoronou.

Agora prestes a reencontrá-la, faz muito calor e algumas pessoas abanam-se com o passaporte. Outras mais agitadas vagam de um canto ao outro no saguão, lançando olhares impacientes nos funcionários do aeroporto. Enquanto a aguardo ali, uma antecipação física e mental me ocupa todo. A cabeça vai longe refletindo sobre todos os acontecimentos que me levaram até aqui e, é claro, nos seus desdobramentos reais ou fantasiosos. Vindo para o aeroporto, fiquei observando pela janela do táxi o trecho entre o meu pequeno apartamento e o Charles de Gaulle. A cidade me parecia banal e fútil, passava pela janela numa frenética sucessão de cores e formas. No entanto é a mesma paisagem, que não me incomoda em absoluto nos dias comuns.

Perambulava por esses pensamentos até que um burburinho me repõe na realidade. Demorei a compreender o que acontecia. Finalmente compreendi. Estava sendo anunciado nos alto-falantes que o avião dela chegou. As caixas de som estavam tão bem escondidas que fiquei com a impressão de que voz, uma voz de mulher, vinha do além; uma voz tão doce que me pareceu vir de muito longe somente para, pausadamente, dizer que ela chegou e que está desembarcando a poucos metros de mim.

Quando ouvi o anúncio o meu coração disparou ainda mais, feito um cavalo de corrida. Estremecia por inteiro, sentia dificuldades para respirar e as minhas mãos estavam geladas e soavam, mas procurei me manter firme para não deixar transparecer a minha vulgar cafonice desesperada. Finalmente a porta de desembarque se abriu. E a avistei. Sem precisar empurrar ninguém ela passava pela multidão abrindo passagem, os seus cabelos lisos jogados para o lado formavam uma onda para a esquerda.

Ela estava um pouco diferente: as suas roupas eram outras, um estilo mais formal; mudou o corte de cabelo, parecia mais magra, mas o jeito de andar e de me olhar eram os mesmos. Sempre que ela me olha alguma coisa passa dela para mim. Percebi naquele momento que essa conexão não havia se perdido pelos descaminhos do afastamento. O olhar dela continua não se limitando a ficar em seus olhos, ele vem até a mim e, como num encantamento, me sinto hipnotizado.

Era difícil acreditar que depois de um longo tempo longe um do outro ela estava ali, a poucos metros de mim. O mundo se abria para a possibilidade de novamente vivermos juntos uma admirável vida nova e eu queria correr para os braços dela, mas meu corpo me surpreendeu: relutava. Meu corpo relutava em se mover como uma locomotiva reluta ao sair da estação, tendo que puxar atrás de si as toneladas de vagões. No meu caso, os vagões atrás de mim estavam carregados de um passado repleto de tantas duplicidades, tristezas e alegrias, encontros e desencontros, que pesava sobre os trilhos, arqueando-os e me prendendo ao chão, não me permitindo fazer nada além de pequenos movimentos hesitantes. Estava preso ali como se tivesse fincado raízes profundas no chão. Afinal, o amor que não é de todo mental, não é de todo coração, não é de todo sexo, mas todos os três juntos, vinha até a mim e só tínhamos mais uma chance. O povo da psicanálise chama isso de castração, um nome feio para denominar o momento em que estamos presos entre a possibilidade e a concretização.

Após alguns instantes ela chegou até a mim e, acredito que compreendendo as razões de eu estar petrificado ali, começou a chegar bem perto, vagarosamente. Em câmera lenta ela cada vez mais se aproximava. Após alguns milésimos de segundos eu já sentia o seu perfume. Olhos nos olhos, com a mão direita ela tocou o meu ombro e com a esquerda acariciou a minha face. Sorrimos. Sorrimos um sorriso confidente desenhado com o desejo de o futuro não ser mais um longo passado repleto de golpes e desencontros. Estávamos nesse instante sinérgico em que o mundo parecia ter parado quando, de repente, o meu companheiro de cela bateu o pé nas panelas.

Não era a primeira vez que ele me acordava no meio da noite com esse barulho irritante que se expandia numa onda uniforme por todo o presídio. Não importa quantas vezes peço para trocarmos de cama, ou, ao menos, que se vire colocando os pés na outra ponta, ele insiste em dormir da mesma forma e no mesmo lugar. “Só consigo dormir assim”, ele sempre diz.

Virei para o lado e o xinguei mentalmente, xinguei os golpistas que me colocaram ali e odiei o país, a vida, tudo. Após alguns minutos, abatido, tentei inutilmente voltar ao sonho — o meu refúgio –, onde eu e ela voltaríamos para casa de mãos dadas.

Texto originalmente publicado no Cultura Plural, em 29/08/2016.

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