Precisamos falar sobre o bullying, nada justifica tirar uma vida.

Muitos não sabem mas sofri bullying na adolescência e, na época, se eu tivesse acesso a uma arma talvez a consequência teria sido catastrófica. Talvez eu tivesse atirado contra todos os colegas que me faziam bullying. Vou dizer de novo: na adolescência se eu tivesse acesso a uma arma eu provavelmente teria atirado contra os colegas que me faziam bullying. E isso é algo que não me orgulho nem um pouco em dizer, pelo contrário, eu acho terrível, me entristece muito.

Na adolescência, por várias vezes eu desejei ter uma arma, mesmo sabendo que era errado. Minha família me ensinou que era errado, minha escola me ensinou que era errado, minha religião na época me ensinou que era errado. Eu sabia que era errado. Mas várias vezes eu desejei isso. Na minha cabeça, dessa forma eu tinha certeza que poderia parar o que acontecia comigo. Não que eu desejasse matar meus colegas, mas eu achava que uma arma iria impor respeito, seria uma solução prática e rápida para que o bullying acabasse. E, com certeza, se eu viesse a ter uma arma, provavelmente durante algum episódio de bullying eu acabaria usando-a por desespero, raiva ou medo.

Ninguém sabe o que passei. Aliás, meus colegas de classe da sexta, sétima e oitava série sabem o que passei, o que eles fizeram. Mas ninguém sabe o que senti. Eles não sabem as feridas que me causaram na época. Ninguém sabe como foi pra mim, ninguém sabe como é estar na pele de outra pessoa. Por isso, para os que “zoavam” era apenas uma brincadeira. Pra mim não era. Me zoavam pelo meu tamanho e pelo tamanho avantajado da minha cabeça. Eu sei, você deve estar pensando: Duas piadas bobas, banais, inofensivas, certo? Errado. Para quem sofre o bullying é diferente. Eu me sentia oprimido, indefeso, impotente. Eu era 2 anos mais novo que grande parte da turma e 1 ano mais novo que outra parte. Não tinha a mesma malícia. Enquanto eu colecionava álbum de figurinhas do Star Wars alguns deles fumavam e vendiam maconha no colégio. Eu era apenas um sendo zoado, eles eram vários zoando. Era vários rindo. Eram vários se calando enquanto outros zoavam. Se eu fosse tentar me defender com certeza eu apanharia. Pelo menos era o que eu pensava na época. Olhando hoje eu vejo o quanto a grande maioria deles eram bundões e se eu tivesse me defendido, se tivesse brigado, eu teria batido em um ou outro e com certeza eu me sentiria melhor, mais forte, eles me respeitariam mais e as coisas teriam sido diferentes. Olhando hoje eu vejo claramente diversas soluções para esse problema. Mas é isso que o bullying fez comigo: me deixou inseguro, me fez sentir fraco, impotente, indefeso, infeliz, solitário, humilhado. Eu fiquei com vergonha. Eu tinha vergonha de mim. E, por isso, não contava nada para ninguém. Pra que eu iria perpetuar algo que pra mim era motivo de vergonha? A troco de que eu iria contar isso pros meus pais? Pra eles verem que o filho dele além de ser cabeçudo, anão, defeituoso, não sabia se defender de brincadeiras? Pra eles verem que o filho deles era motivo de chacota na escola? Eu não precisava passar por essa segunda humilhação. Não contei pra ninguém.

Quando eu sofria bullying eu não enxergava nenhuma solução possível, não achava que se falasse com meus professores algo mudaria, não achava que se falasse com meus pais algo mudaria, não achava que se mudasse de escola algo mudaria, não achava que se eu fizesse jiu-jitsu ou muay thai algo mudaria. Nenhuma solução era boa o suficiente tamanho o impacto do bullying na minha vida. Quando eu sofria bullying eu achava que não tinha saída. E eu queria uma solução rápida, grandiosa, tão contundente quanto o que eu passava. Pra mim, só assim eu conseguiria parar com aquilo. Acabar de uma vez. Adolescente é imediatista. Hormônios loucos, sempre sente tudo à flor da pele. Eu não sabia lidar com as mudanças no corpo, no temperamento, nos sentimentos, nas emoções. Nessa fase da vida, se sentir impotente, humilhado e fraco é muito mais pesado. Não sei quantos de vocês tiveram a oportunidade de segurar uma arma de verdade nas mãos. É algo muito estranho perceber que aquilo ali pode tirar vidas. É terrível segurar uma arma nas mãos. O coração acelera, a cabeça fica a mil, dá medo, mas a gente também se sente poderoso, embora saiba o perigo e a responsabilidade que se tem de ter ao empunhá-la. Eu só segurei uma arma muitos anos depois desses episódios, mas eles foram a primeira memória que vieram à minha cabeça ao segurá-la. Agora imaginem uma arma na mão de um adolescente que se sente fraco, impotente e humilhado. Isso para ele pode se tornar algo positivo, para mim se tornaria. Eu com certeza sentiria que tinha algo em minhas mãos que me devolveria o controle de minha vida. Que faria os outros me respeitarem. Que faria os meus colegas terem medo de mim. Para uma vítima de bullying, ter uma arma em suas mãos pode ser um alívio, um respiro em meio ao caos emocional que ele se encontra. Ele pode ver apenas o lado positivo de se ter uma arma e não enxergar as consequências trágicas. Mas, como vimos várias vezes, e recentemente em Goiânia, uma vítima de bullying ter uma arma em suas mãos pode ser a maior das tragédias. Eu tive a sorte de nunca ter tido acesso a uma arma, ter sobrevivido ao bullying “ileso” e hoje falar disso numa boa. Mas, infelizmente, não é sempre assim.

A zoeira na adolescência é algo comum, mas é preciso perceber quando a zoeira deixa de ser uma brincadeira saudável e passa a ser bullying. E é fácil perceber isso, se a sua piada ofendeu alguém ela não é piada. Se a sua zoeira feriu ou magoou alguém, não é zoeira, é bullying. Quando olho pra trás, pra minha adolescência, vejo que foi exatamente isso que meus colegas fizeram comigo. Eles achavam que brincavam enquanto eu sofria. Vejo que antes deles eu era uma pessoa muito mais alegre e feliz, muito mais confiante. E isso eles tiraram de mim sem saber, eles apagaram uma parte de mim. Eu não me lembro de muita coisa daquela época, o corpo tem dessas de bloquear nossas memórias ruins. Por isso, eu acho que muitas memórias daquela época foram bloqueadas e muito de quem eu era foi bloqueado junto. De certa forma, eles tiraram a minha vida, pelo menos parte dela. Por isso que eu digo: Precisamos falar sobre o bullying, nada justifica tirar uma vida. Não só as vidas que são tiradas por conta dos atos que surgem em consequência do bullying como em Goiânia, Realengo, Columbine e tantos outros. Precisamos nos conscientizar das vidas que são tiradas durante o bullying, as vidas das vítimas de bullying. Precisamos falar disso com nossas crianças e adolescentes. Precisamos falar sobre o bullying para que parem de fazê-lo e para que quando alguém sofrer com isso, consiga falar, consiga se impor, se defender. Precisamos falar sobre o bullying para que ninguém morra por dentro enquanto sofre e para que ninguém mate os colegas para conseguir parar o próprio sofrimento. Precisamos falar sobre o bullying porque nada justifica tirar uma vida.